Antes gênero de pouco prestígio no cinema brasileiro, o documentário encontrou no último século seu nicho. As cinebiografias, como “Vinicius” (2005) e “Chico: Artista Brasileiro” (2015), ambas dirigidas por Miguel Faria Jr., e “Cássia Eller” (2015), de Paulo Henrique Fontelle, conquistaram crítica e público ao abordarem vida e obra de importantes figuras da cultura nacional. “Cora Coralina – Todas as Vidas”, novo filme de Renato Barbieri (“Atlântico Negro – A rota dos orixás”) aproveita-se desse filão e traz para a grande tela o lirismo da poetisa e contista goiana.

Assim como a maioria dos bons projetos biográficos, o longa-metragem não se limita às particularidades de seu objeto e alcança uma universalidade para além da figura histórica de uma das mais proeminentes autoras da literatura brasileira. Discussões acerca da independência feminina, dos compromissos sociais da arte e do retorno às origens perpassam o argumento, livremente inspirado pelo livro “Cora Coralina – Raízes de Aninha” (Ideias e Letras, 2009), escrito por Clovis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda após vinte anos de pesquisa.
A partir dessa fonte, a direção de Barbieri mistura recursos mais tradicionais do gênero, como imagens de arquivo e entrevistas, com performances e declamações. Se, por um lado, a lucidez das falas de Cora e as contextualizações contidas nos depoimentos de intelectuais, familiares e amigos impressionam, por outro, o filme não teria o mesmo impacto caso suprimidas as doses de experimentação. A poesia manifesta-se tanto em sua forma literal, traduzida em pequenas porém elucidativas encenações, quanto em seu caráter emotivo, manifesto na expressão facial e na voz de atrizes de diferentes gerações e tipos físicos. Entre elas, destaca-se a sempre soberba Zezé Motta. Completam o elenco Beth Goulart, Camila Márdila, Maju Souza, Teresa Seiblitz e Walderez de Barros.
As já sólidas interpretações das seis ganham ainda mais força graças ao trabalho do diretor de arte Henrique Dantas – cineasta vencedor em 2009 do prêmio do júri popular do Festival de Brasília com o documentário “Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano”. Ao posicioná-las vestidas de preto contra um fundo de mesma cor, ele centraliza a atenção do espectador em seus rostos. Diminui, assim, a possibilidade de distração, ao mesmo tempo que potencializa o impacto das atuações. Nas cenas de ficcionalização, Dantas também se sobressai: usa elementos dos poemas para recriar eventos passados da vida de Cora e da jovem Anna, nome de batismo da escritora.

Já a fotografia assinada por Waldir de Pina (“Conterrâneos Velhos de Guerra”) transita entre algumas opções certeiras e outras nem tanto. Em alguns momentos, a câmera reforça o tom afetivo da produção, aproximando-se dos objetos filmados e confiando em sua expressividade. Em outros, contudo, distancia-se com travellings grandiosos e tomadas aéreas de drones. Evidencia, dessa forma, sua condição de artifício e quebra o lirismo das demais sequências. Quanto aos aspectos sonoros, por fim, a trilha musical de Luiz Olivieri e Eduardo Canavezes, estreantes em longas-metragens, conduz o filme com eficiência: consegue pontuar os diversos momentos narrativos sem deixar de lado a unidade melódica.
Durante seus curtos mas verdadeiramente belos 74 minutos, “Cora Coralina” mostra-se, enfim, um filme inteligente e acessível, capaz de transpor para a linguagem cinematográfica com impressionante sucesso “Todas as Vidas” de sua personagem. Anna Lins dos Guimarães não é só Cora. Tampouco é só Aninha, seu eu-lírico infantil. É também Zezé Motta e Beth Goulart. É Camila Márdila e Maju Souza. É Teresa Seiblitz e Walderez de Barros. É “uma cabocla velha”, “a lavadeira do Rio Vermelho”, “a mulher cozinheira”, “a mulher do povo”, “a mulher roceira” e até “a mulher da vida”. Contém dentro de si “todas as vidas”*.
O filme estreia dia 14 de dezembro, quinta-feira.
* Trechos do poema “Todas as Vidas”, do livro “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais” (Global Editora, 1983)
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