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CríticaFilmes

Crítica: Funcionário do Mês

Avatar de Daniel Gravelli
Daniel Gravelli
19 de agosto de 2016 4 Mins Read

Um retrato sincero sobre uma verdade abafada

Aqueles que insistem em achar impossível se fazer um bom filme com uma verba que foge dos altos padrões hollywoodianos, precisa urgentemente ir ao cinema para prestigiar o filme “Funcionário do mês”, interessantíssima produção italiana dirigida por Gennaro Nunziante e estrelada por Checco Zalone, famoso comediante conhecido por “Cado dalle nubi” e “Sole a catinelle”. Com orçamento estimado na casa dos 10 milhões de Euros (valor, normalmente, inferior as exorbitantes quantias de diferentes produções), o filme tornou-se, até o momento, a maior bilheteria do seu país, levando uma multidão aos cinemas para apreciar essa obra que merece entrar no hall dos grandes clássicos do gênero.

A produção passeia por diferentes lugares da Itália e região, até cair na Noruega, retratando um pouco do estilo de vida do italiano, e do ser humano em geral acostumado as comodidades e completamente despreparado para o que possa surgir. O trabalho de Pietro Valsecchi, é uma requintada sátira sobre alguns enfrentamentos políticos, como cortes de verbas e facilidades de emprego, bem como uma verdade absoluta, e não muito aceitada e/ou divulgada, a respeito das tais conveniências impostas pelo cargo público. Através das diferentes locações, o que normalmente encareceria muitas produções, somos lançados na vida de uma personagem egocêntrica e repleta de manias, que nos leva conhecer um pouco sobre o palco político armado por trás dos cabinetes, muitas vezes nos colocando frente a frente com uma realidade assistida de perto em nosso próprio país.

A história gira em torno de Checco, um funcionário público que leva uma vida pacata em uma bela cidadezinha. Extremamente egoísta, ele coloca sua vida na frente de todos, achando que nunca dependeria de ninguém, uma vez que o seu cargo é sólido e o coloca adiante de muitas outras profissões. Entretanto, quando a situação muda ele precisa fazer uma difícil escolha: deixar de lado o cargo estável ou ser transferido para longe da casa de seus pais. Entre uma loucura e outra, com medo de enfrentar os desafios impostos pelo mundo, Checco acaba optando pela direção facilitada. Contudo, tal atitude o faz perceber que sua peregrinação está apenas começando e que certas decisões podem se tornar mais complicadas do que imaginava.

Escrito por Gennaro Nunziante e Checco Zalone, parceiros de trabalho em diferentes filmes, o roteiro de “Funcionário do mês” é uma daquelas jóias raras que aparece vez ou outra na sétima arte. Muito bem amarrado e sem exageros, a comédia nos contagia, diverte e nos deixa refletindo sobre a vida e as escolhas que fazemos nessa. Até os clichês, são trabalhados com cautela para poderem se transformar em algo mais original.

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Gennaro Nunziante também dirige a obra, tal como fez em inúmeros outros projetos com Zalone. A química entre os dois artistas é de tal preciosidade que nos faz sentir bem durante toda projeção. Com um traçado completamente cinematográfico, passando longe de deculpagens televisivas, Nunziante nos proporciona o drama escondido por trás das comédias. Planos e contra-planos, muito bem escolhidos, dialogam com perfeição com os ângulos adotados para revelar certas emoções.

Embora o filme possua uma fotografia mais lavada, o colorido existente nessa prevalece oferecendo uma atmosfera inusitada, uma simultaneidade quase melódica entre a tristeza e a alegria. E, essa sensação, praticamente perene permanece durante toda produção até um aprazível desfecho.

Embora o filme seja repleto de personagens coadjuvantes, os quais são essenciais a trama e estão muito bem em cena, o mesmo possui três atores que fazem a diferença: Eleonora Giovanardi, que vive com sutileza o interesse amoroso de Checco; Sonia Bergamasco, que nos empolga vivenciando a irritada Dottoressa Sironi; e Checco Zalone que dá um verdadeiro show de interpretação, ao salpicar temperamentos dessemelhantes com tamanha facilidade que deixaria qualquer outro comediante de boca aberta.

Ricos em detalhes, o design de produção de Valerio Girasole e Alessandro Vannucci, tal como o simplório e objetivo figurino de Francesca Casciello, são um achado, criando uma identidade verossímil que supre todas as necessidades que poderiam faltar em algum momento na produção.

Para muitos a trilha sonora pode parecer despretenciosa, uma vez que não aparece tanto no filme. Todavia, essa funciona quase que como um fantasma vagando pelo mesmo, um personagem congruente que aparece em horas propícias, gritando o que precisa soar como: “Acorda para vida!”. Repletas de sinceridades, e surpreendentemente racionais, as letras das músicas funcionam com um forte tapa na cara da sociedade. Mas, para perceber isso, essa precisa abrir a mente e escutar além de certos padrões adotados até então.

A italia mais uma vez prova que é possivel misturar cinema com política e a realidade social. Banhando na mesma água de outras grandes produções, sem perder o tato, o respeito e/ou desandar para outras vertentes, transforma uma simples ideia em algo extraordinário. Funcionário do mês não é só mais um produto de comédia, é uma obra de arte que nos provoca, em meio a sorrisos, a estranha sensação de que por mais tranquila que nossa vida esteja, ainda podemos fazer a diferença.

Sem duvida alguma, um dos melhores filmes do ano.

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6.6
9

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Cinema ItalianoComédiaItália

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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