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CríticaFilmes

Crítica: Julho – Agosto

Rita Constantino
10 de julho de 2017 3 Mins Read

Julho Agosto posterNo plano final de “Julho-Agosto”, a personagem interpretada pela jovem atriz Luna Lou, em uma fração de milissegundos, encara o espectador tal como Antoine, o garoto em conflito em que orbita a trama de “Os Incompreendidos” (1959). Coincidência ou não, o fato é que a protagonista do novo filme de Diastème, assim como o do clássico de Truffaut, é uma adolescente indomável. Só que aqui a rebeldia juvenil não tem o gosto amargo da indiferença e do reformatório, mas um sabor agridoce da dinâmica da família média, que tenta se equilibrar diante dos desafios cotidianos.

Da trajetória de um skinhead em “Sangue Francês” (2015), o cineasta, em natureza oposta de seu último trabalho, conta a história das irmãs Laura (Luna Lou) e Joséphine (Alma Jodoroswky), duas adolescentes que durante as férias escolares têm seu itinerário bem definido: em julho ficam com a mãe (Pascale Arbillot) e o padrasto (Patrick Chesnais) em uma região praiana e em agosto, com o pai (Thierry Gordard), em uma casa no campo. Em meio a passeios agradáveis entre a ensolarada Riviera Francesa e a úmida Bretanha, a paz será perturbada quando os problemas de cada integrante dessa família começarem a despontar.

Laura, por exemplo, além de sofrer por aparentar ser menor que qualquer garota de 14 anos, está escondendo suas notas para não ser mandada para um internato. Já Anne, a mãe das garotas, descobre uma gravidez inesperada, enquanto seu namorado, Michel, passa, sem contar para ninguém, por dificuldades financeiras. Porém, os problemas ficarão maiores quando Joséphine, sem querer, se envolver no roubou de uma joia milionária.

Com um elenco afinado que encarnam com segurança esses personagens ao mesmo tempo que prosaicos, curiosos, Diastéme consegue dar vida a um filme leve, porém inócuo. Doce como os acordes de indie-rock compostos por Federic Lo para sua trilha sonora, o projeto se assenta sob o conflito entre seus protagonistas, mas nunca os desenvolve por completo, ou melhor, os obscurece em favor do drama mais destoante da história, no caso, o roubo do colar.Julho Agosto 9

Tudo isso fica ainda mais flagrante diante das escolhas do diretor. Apostando em um olhar naturalista, uma câmera inquieta que nos coloca no centro dos acontecimentos – que em termos de narrativa escorrega quando, desnecessariamente, abre espaço para registros do celular de Laura –, acompanhando de perto, muitas vezes com planos fechados, os momentos de embate e ternura entre seus personagens, o que faz com que, ainda mais, o espectador fique em suspenso, à espera de um progresso para as questões colocadas à mesa. Laura fará às pazes com a mãe? Como será que Michel lidará com a falência? São pequenas perguntas que o roteiro, escrito também pelo cineasta francês, não se faz, nos levando direto ao resultado final, não o caminho até ele.

Endossando seu gosto por lugares comuns com momentos como família-se-diverte-com-música-feliz-de-fundo, em meio a seus tropeções, o longa chama a atenção pelo trabalho de fotografia de Pierre Milon, que, pela luz, marca com ênfase a diferença de temperatura entre o período que as meninas passam com a mãe e com o pai. A princípio a distinção pode parecer óbvia (sol para episódios felizes com a figura materna, chuva para fase de conflito com a paterna), mas surpreende por não seguir essa oposição, pelo contrário, tanto o tempo claro quanto o nublado, cada um a seu modo, fazem com que a família se una.

Pecado também é sair sem falar do desempenho de Luna Lou, que brilha como Laura. Bem-sucedida em compor sua personagem com profundidade, é difícil não se encantar logo na primeira cena em que a vemos por fogo em uma caixa de correio. Ela é petulante, rebelde, mas a jovem atriz consegue, ainda assim, mostrar sua vulnerabilidade. Mérito que se estende ao resto do elenco, que surpreende pelo entrosamento.     

Divertido, “Julho-Agosto” é agradável como chuva de verão, que assim como ela, traz frescor, mas passa rápido. Está equivocado quem acredita que fazer filmes leves é mais simples que os que prezam pela densidade. Até para construir leveza, é preciso substância.

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8.4
6.8

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Tags:

França

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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