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CríticaFilmes

Crítica: A Moça do Calendário

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Convidado Especial
8 de novembro de 2017 3 Mins Read
Quando a realidade é apenas uma consequência do imaginário

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“A Moça do Calendário” é sobre muitas coisas. Tantas coisas importantes e insignificantes ao mesmo tempo, que juntas tornam a realidade de Inácio (André Guerreiro Lopes) a própria ferramenta de quase transformação – ou pelo menos no imaginário do próprio, em um discurso individualista sobre as formas de uma sociedade e dos métodos de defesa dos seus princípios.

A intenção de um filme pode simplesmente estar nas suas entrelinhas costuradas ao decorrer da história, mas o que Helena Ignez faz aqui é jogar tudo ao mesmo tempo na tela. São Paulo é apenas o meio onde Inácio sobrevive, dentro da oficina mecânica, do bar da esquina e das ruas movimentadas, criam uma nova perspectiva daquilo que elas acreditam que seja certo. Inácio, o sonhador revoltado – como é dito logo nas suas primeiras aparições, tem 40 anos, ex-gari e, agora mecânico e dublê de dançarino, é o representante daquilo de quase tudo que o próprio filme luta contra. A decisão de um beijo entre Inácio e a moça do calendário dependendo da opinião sobre a reforma agrária é o simbolismo mais objetivo que representa o conceito e a identidade de Helena como diretora.

Para entendermos melhor certos filmes, é importante conhecer mais sobre quem o fez. Nascida em Salvador, foi através do teatro que Helena Ignez enxergou na arte o necessário para conjecturar uma vida dentro do que ela acreditava. Acabou conhecendo e se casando com Glauber Rocha, logo, atuou em inúmeros filmes do Cinema Novo, carregando para si a essência de um cinema transgressor. Em seu sexto trabalho como diretora, produz a forma do filme sem a construção linear habitual, a importância da narrativa está no plano das ações, dentro naquilo que pretende-se ser contado. Características simples, mas que tornam-se originais por fazerem parte de um cinema ou televisão que hoje não instiga mais, que não empolga.

a moça do calendário

Aquela moça, a do calendário pendurado na parede da oficina mecânica, representa subjetivamente até certo ponto do filme tudo aquilo que bate de frente as reflexões de Inácio. Iara (Djin Sganzerla), faz parte da imaginário daquele homem, muito mais do que ele gostaria, e menos que do que realmente poderia ser para a obra. A expansão em relação à crítica social monta uma barreira que durante todo o filme está sempre um passo de quebrar. Os diálogos entre os dois que são construídos na cabeça de Inácio não permitem que seus desejos mais íntimos se realizam.

Um cinema que vai da ficção, do seu próprio conceito de estética e capacidade de refletir sobre a sociedade, tudo isso sem apoiar-se nas bases do documental é raro. Assumir um gênero é a marca forte da cinematografia de Helena, nada mais do que fazer aquilo que se propõe uma arte que permite levar a mensagem através da imagem. O sentido do filme está no seu conteúdo, e muito pouco naquilo que o personagem busca ou faz, ele acaba sendo apenas o agente que guia o espectador dentro daquela viagem, real ou não. Sonhar pode ser tão real que a felicidade de se viver e esquecer das responsabilidades pode ser a melhor saída, e Inácio é assim, Iara também sonha, mas com um pé na realidade. No final, a realidade é aquilo que vemos na tela do cinema.

Política, crítica social, machismo, feminismo, empoderamento, tudo faz parte da filme dentro do seu espaço, dentro do tempo de tela que lhe permite. Sem atos definidos a história naturalmente perde o rumo da narrativa – não do sentido em si, o que deixa tudo mais interessante. Muito além da importância técnica a ser discutida, A Moça do Calendário tem incorporada em si a análise do recorte histórico que será lembrado daqui algumas décadas, e essa atualidade vai muito além da concepção que a obra final exerce.


Por Guilherme Santos

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