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CríticaFilmes

Crítica: Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
11 de dezembro de 2016 4 Mins Read

fZnZu5lCKDZ3SGXXaWVfvy58vdk 5As memórias estão no cerne do ser humano, elas nos moldam, transformam nossa imaginação, são o que nos restam das pessoas que já se foram ou de acontecimentos que deixamos para trás; os arrependimentos ou os júbilos que essas memórias deixam estão impregnados, cabendo a nós a missão de os usarmos da maneira mais adequada para que a vida em sua essência não perca o significado.

“Sete Minutos Depois da Meia-Noite” é um filme que fala sobre memórias, mesmo daquelas de pessoas que não chegamos a conhecer ou que ainda fazem parte de nossa vida. A história mostra as agruras do jovem Connor (Lewis MacDougall) que convive com a mãe com câncer (Felicity Jones), a avó, com quem tem um relacionamento conturbado (Sigourney Weaver), o pai ausente (Toby Kebbell) e os colegas de escola que não o deixam em paz. Seu único amigo é um monstro-árvore (Liam Neeson) com quem se encontra todas as noites para contar e ouvir histórias. Baseado no livro homônimo de Patrick Ness (que também escreve o roteiro), que por sua vez partiu de uma ideia de Siobhan Downd, o filme é carregado de emoção e trás um protagonista que precisará superar alguns obstáculos para conseguir vencer o mostro que há dentro de si.

O garoto Connor se esconde dos problemas reais por meio da criação de personagens em desenhos vindos de sua imaginação, sendo um deles o próprio monstro-árvore. Ele se transporta para outra dimensão, onde pode liberar toda a raiva (raiva essa que gera umas das cenas mais impactantes do filme) que tem de sua vida. A doença da mãe, os problemas com o pai e o bullying dos colegas trazem a raiva à tona, mas esse sentimento se mantém no mundo imaginário, pois, no real, ele parece querer ser punido a todo tempo, como se precisasse carregar o fardo sozinho.15397589 1624387607855647 2068806691 oA sensação de estar sozinho é mais um de seus devaneios, pois a criação dos personagens fantásticos surgiu de sua mãe e aparentemente foram depositados no subconsciente do garoto nos primórdios de seu desenvolvimento, já a mãe, mais no passado, baseou os personagens em seu falecido pai (não é spoiler, o avô já é mostrado morto no inicio do filme), neste ponto é que as memórias surgem como fator primordial, guiando Connor por uma jornada de descobertas e aceitações. Há também a ajuda da avó, que, apesar de se tornar a parte real da vida do garoto, o mantém com um pé no passado, em uma casa onde estão guardados todos os objetos da história da família.  Para auxiliar o espectador na representação geracional a produção optou por inserir fotos do ator Liam Neeson em antigos porta retratos, fazendo a associação entre as imagens do avô e a voz do monstro como uma conexão clara.

Para que toda a complexidade da história fosse passada do papel para a tela, foi preciso uma seleção de elenco exemplar e o filme acerta em cheio nesse quesito. Há o jovem Lewis MacDougall, que possui camadas de atuação que o fazem ir do riso aos prantos sem necessitar de cortes, além de desenvolver uma expressão corporal curvada, quando os piores momentos de sua vida estão presentes, ao ereto, quando está confiante e em ação junto ao monstro, mostrando assim grande domínio da técnica. A maravilhosa e talentosa Felicity Jones faz transparecer todo o sofrimento da doença por meio de expressões, sem apelar para maneirismos de atuação, e entrega uma personagem encantadora, mesmo quando está debilitada na cama do hospital. Sigourney Weaver se mostra forte e humana, em um desempenho que faz com que esqueçamos Ellen Ripley da série Alien. Já Liam Neeson empresta todo o seu vozeirão ao mostro, passando medo e também sensibilidade nas cenas com o garoto.

A  transformação da árvore em monstro também é um fator essencial à trama; dela há a apresentação de suas raízes e as repetições de cenas delas destruindo igrejas, cemitérios e casas, quando ele toma a forma humanoide total. Essa destruição segue em paralelo com a raiva de Connor, mas também explana a intenção do filme em enraizar memórias, fazendo-as sobrepujar o mundo real. Tudo é construído de forma assustadora de início, principalmente na introdução do monstro, mas também pelo fato da direção de fotografia mostrar o garoto sempre vagando nas trevas; mesmo em seu quarto há pouca luz, sua casa está numa atmosfera em que o cinza predomina e é cercada por um cemitério(que sempre está envolvido por neblina ou chuva). O diretor J. A. Bayona filma em planos fechados, destacando o sofrimento dos personagens, além de executar travellings que flutuam entre cômodos e também câmeras trêmulas, que corroboram para criar uma aura de suspense e tensão em momentos chave da produção.

O filme é belo e muitas vezes leva aos prantos, pela simples constatação de que o mundo real é formado por memórias de mundos do passados e que, sem elas, podemos não resistir ao agora.

Reader Rating3 Votes
7.2
8

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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