Em “Enzo”, parte-se da sensibilidade com protagonista privilegiado envolto em trabalho braçal
Quando vemos pela primeira vez o protagonista adolescente de dezesseis anos, “Enzo”, que dá nome ao filme, ele está trabalhando em uma obra — numa construção que no Brasil seria um sobrado, atrasando o serviço dos seus colegas de trabalho a ponto de ser repreendido pelo encarregado, que decide levá-lo até sua casa para questionar aos pais do garoto se ele estaria no lugar certo.
E então vem a primeira surpresa: Enzo é um jovem abastado, que vive em uma casa luxuosa numa montanha de frente para o mar, em uma cidade do interior da França. O contraste social se impõe imediatamente.
O encarregado, inicialmente ríspido, muda de postura ao se deparar com a mãe engenheira e o pai, professor universitário de matemática, revelando de forma sutil — e eficaz — a diferença de classes entre eles.
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Ao longo do filme, acompanhamos a dinâmica familiar de Enzo: pais de classe média alta, amorosos e preocupados com o filho, que parece desinteressado, deslocado e em conflito com qualquer perspectiva de futuro.

Ele rejeita a educação formal, enquanto o pai — interpretado com competência por Pierfrancesco Favino — insiste em uma trajetória profissional mais convencional. O desejo do adolescente, no entanto, é outro: ele quer trabalhar com algo concreto, tangível, algo que possa construir com as próprias mãos.
Uma motivação, em tese, admirável — não fosse o fato de ele se mostrar apático, indolente e frequentemente desagradável com todos ao seu redor. Sua única conexão mais genuína surge com Vlad (o simpático e carismático Maksym Slivinskyi), um colega de trabalho ucraniano, expansivo e preocupado com a guerra em seu país. É com ele que o rapaz se abre, ainda que minimamente, revelando também uma inesperada paixão.
Nesse ponto, o filme se aproxima de um típico rito de passagem, mas com um tom mais contemplativo, refletindo um sentimento geracional: jovens perdidos, solitários, mesmo inseridos em ambientes familiares estáveis e afetivos.
Naturalmente, para que haja conflito dramático, Enzo precisa exibir seu lado mais difícil — e o faz com afinco: estraga festas, se afasta do irmão mais velho (que, ironicamente, é compreensivo e presente) e sabota possíveis conexões.

Em parte, isso é compreensível dentro da lógica do gênero — afinal, sem a rebeldia juvenil, não há história. E convenhamos: poucos personagens conseguem ser tão carismáticos e resolvidos quanto Ferris Bueller em “Curtindo a Vida Adoidado”.
Brincadeiras à parte, essa construção acaba pesando contra o longa. A personalidade excessivamente apática do protagonista, somada à atuação pouco modulada de Eloy Pohu, enfraquece o impacto emocional. Falta variação, nuance — as emoções do ator principal raramente são sentidas, apenas sugeridas por diálogos esparsos e pouco convincentes.
É possível argumentar que o personagem é, por essência, introspectivo e silencioso. Mas mesmo esse tipo de figura exige camadas, e elas não se manifestam de forma clara aqui.
O desfecho, por sua vez, segue um caminho previsível, com Enzo cedendo a pressões que o acompanham ao longo da narrativa, o que dilui parte da força temática construída até então.
No fim, trata-se de um filme bem realizado, com ideias interessantes sobre a alienação juvenil contemporânea e as tensões de classe, mas que perde potência por falta de refinamento — tanto na atuação quanto na resolução de seus conflitos centrais.
Imagem Destacada: Divulgação/Mares Filems

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