Em apresentação rara e intensa no palco Samsung Galaxy, neozelandesa reafirma sua força ao vivo entre teatralidade, melancolia e entrega física
Poucos nomes do pop contemporâneo conseguem transformar hiatos em parte essencial da própria narrativa como Lorde. Longe dos palcos brasileiros desde 2022, a artista retornou neste domingo ao Lollapalooza 2026 cercada por uma expectativa que vai além do repertório: há sempre a sensação de que cada aparição sua é um recorte muito específico — e talvez irrepetível — de quem ela é naquele momento. No palco Samsung Galaxy, essa ideia se confirmou em um show que condensou fases, tensões e reinvenções em uma apresentação tão física quanto emocional, marcada pela urgência de quem parece já estar de passagem.
Já comparamos anteriormente Lorde como um cometa que brilha mais forte a cada quatro anos, isso pela periodicidade no lançamento de seus álbuns; antes dessa apresentação foi a turnê de “Solar Power” no Primavera Sound 2022, e antes disso o tão lembrado Lollapalooza 2018 na era “Melodrama”, seu segundo disco. Recém-anunciada como independente de gravadoras, é possível que esse período aumente daqui pra frente, o que torna o show desse domingo uma oportunidade única.
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A noite se iniciou pontualmente com a entrada da neozelandesa no breu ao som de “Hammer”, visível ao público só a sua vaga silhueta e os olhos acesos em farol pelos óculos vestidos no momento. Aos poucos as coisas foram clareando, assim como a entrada da música seguinte, a inconfundível “Royals”, em tamanho reduzido — até porque a autora já está cansada dessa música praticamente desde seu debut, mas não por isso houve menos entrega, tanto da performer quanto da plateia em um palco no absoluto limite — quem viu, viu.
Daí, Lorde seguiu música atrás de música, e quando fazia intervenções com a plateia essas eram bem breves, pudera, mal havia espaço para respirar — em “Supercut”, por exemplo, ela começa no chão, sobe, desce, vai para uma esteira, corre e, claro, canta. Vira e mexe criticada pelos vocais, ela manteve o gogó consistente meio a tanta estripulia — e isso não é uma crítica —, foi teatral no melhor sentido.
Desde sua vinda primeira em que criticavam sua estranheza nas roupas, na dança, Lorde amadureceu muito de lá para cá e está mais confortável em fazer do próprio corpo um instrumento da própria arte — na estrutura minimalista em comparação a 2022, não teve centímetro não explorado do palco. Lorde também tirou e botou a calça de novo, exibiu os quadris e até um sutiã de silver tape enquanto incorporava o espírito do rock n roll na pura visceralidade.
Ah, claro, falando de 2022. Ela aproveitou a falar da sua última vinda para cá e referenciou 2018 — alguns fãs interpretaram como em referência, corretamente, ao festival, enquanto outros assumiram que a cantora estava apagando deliberadamente sua terceira fase, “Solar Power”, a qual já disse não se identificar mais. Há sempre a possibilidade de imbrólio contratual em não mencionar a concorrência, porém.
Uma lástima, ao menos enquanto lembrete de que dificilmente trará esse repertório do disco outra vez — que não foi tão bem recebido pela crítica e público —, e também cheio de alguns nossos favoritos pessoais. Mas não tem motivo para que ficar triste, quer dizer, tem de sobra. Nessa de fazer dobradinhas entre “Virgin” com uma do “Pure Heroine” ou do “Melodrama”, as baladas foram ficando mais e mais tristes.
Com exceção, claro, de “Green Light”, outra cantada a plenos pulmões — com todo o fio de melancolia que mesmo suas canções mais energéticas carregam — foi o decrescendo ao inferno. Depois veio “David” e, óbvio, para querar empurrar de vez os 100.000 presentes para o buraco, o seu magnum opus (na nossa opinião), “Ribs”; pegou depressão em 5 minutos! Dá para acreditar que ela escreveu isso com 16 anos?
Não é papo de fã, honestamente. Esse quem vos fala “conhece o repertório” à medida que teve curiosidade de ouvir sua discografia ao longo desses anos, mas não é alguém que a escuta no dia a dia ou sabe suas letras de cabeça, honestamente apenas quatro das dezoito — disse que escutava mais o Solar Power… —, e isso não impediu de ser um show incrível, tanto pelas letras — difíceis de guardar, mas que ressoavam essa constante angústia juvenil/teen angst que Lorde, com 29, tem de sobra — quanto pelo discurso mais memorável da cantora, prestes a performar “Man of the year”, já preparando a temática de “Team”.
“This dream isn’t feeling sweet
We’re reeling through the midnight streets
And I’ve never felt more alone
It feels so scary, getting old
I want ’em back
The minds we had (the minds we had)
How all the thoughts (how all the thoughts)
Moved ’round our heads (moved ’round our heads)
It’s not enough to feel the lack
You’re the only friend I need
Sharing beds like little kids
And laughing till our ribs get tough
But that will never be enough”
Lorde em “Ribs” (2013)
Confira a setlist do show de Chappell Roan nesse sábado
- 1. Hammer
- 2. Royals
- 3. Broken Glass
- 4. Buzzcut Season
- 5. Favourite Daughter
- 6. Perfect Places
- 7. Shapeshifter
- 8. Current Affairs
- 9. Supercut
- 10. The Louvre
- 11. Liability
- 12. Man of the Year
- 13. If She Could See Me Now
- 14. Team
- 15. What Was That
- 16. Green Light
- 17. David
- 18. Ribs
Imagem Destacada: Divulgação/Lorde (via Instagram)
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