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CríticaFilmes

Crítica: A Bruxa

Daniel Gravelli
25 de fevereiro de 2016 3 Mins Read

O lado obscuro da mente


Terror: Qualidade ou particularidade do que é terrível. Condição da pessoa que sente pavor. Algo ou alguém que consegue aterrorizar. Figurado. Circunstância perigosa; em que há excesso de obstáculos e/ou dificuldades.


Em uma época em que histórias e lendas assolavam o imaginário popular, tomado por uma vívida crença religiosa, uma família se vê perdida ao ter que abandonar a cidade onde mora e partir em busca de um recomeço em um local completamente desconhecido.

Vencedor do prêmio de melhor diretor no festival de Sundance, “A Bruxa” não é o “terror” que muitos irão buscar nos cinemas, devido a vasta divulgação nas redes sociais. Mas, diferente do sucesso efêmero de alguns filmes, esse ficará marcado como uma das grandes obras cinematográficas do gênero.

A produção independente tem nomes como o conhecido Chris Columbus, responsável por filmes como Harry Potter e Uma noite no museu, e o brasileiro Rodrigo Teixeira que vem se destacando bastante no mercado internacional. Devido a diversos prêmios que o filme ganhou, esse acabou também recebendo apoio para uma distribuição mundial em massa.

Situado na Nova Inglaterra, no ano 1630, o enredo estabelece um paralelo entre o sobrenatural e o psicológico, criando uma enxurrada de acontecimentos que propõe infinitas possibilidades diante a compreensão humana. Um jogo entre o real e/ou paranóico é proposto ao espectador através de uma estrutura espetacular construída em cima do roteiro escrito por Robert Eggers. A todo momento nos sentimos inquietos, aterrorizados por nossa própria mente, como se ali não fosse nosso lugar ou estivéssemos sendo manipulados. Eggers cria uma ótima alusão a Baphomet (Bafomé), divindade adorada pelos templários no início do século XIV, que mais tarde tornou-se parte do ocultismo e suas tradições, sendo retratada na bruxaria como o deus Pã e no satanismo como Satã. A figura, representada por um ídolo que assume diversas formas, entre elas um homem, uma cabeça com duas faces e um bode, é significantemente abordada no filme.

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A abordagem psicológica também é notada através da decupagem de direção do próprio Eggers, que define planos minuciosos para contar o que se passa. O diretor cria uma sufocante sensação de que aqueles seres não foram esquecidos por todos, através de ângulos que insistem em mostrar as personagens pelas costas. É como se algo os espreitasse a todo momento, ora presencial ou dentro da cabeça de cada um.

O trabalho de Jarin Blaschke na fotografia é excepcional. A escolha por uma paleta de cores, predominantemente, fechada, causa certa claustrofobia durante quase toda projeção. O que torna ainda mais sensacional ao se unir com o sombreamento utilizado pelo diretor de fotografia em algumas cenas.

Os tons neutros entre o branco e um bege puxado para o aveia, utilizados pelo figurino de Luisa Muir, descreve com sutileza a diferença de idade e sexo das personagens. Já a direção de arte de Mary Kirkland, manuseia os mesmos para especificar o ambiente e a tensão gerada em cada momento.

Todo os atores da produção são fundamentais para mesma, não consigo vê-la envolvendo nomes conhecidos. As crianças, praticamente novatas, estão ótimas como os gêmeos que falam constantemente com o bode. Harvey Scrimshaw, também estreante, realiza um trabalho impecável como o irmão do meio que é tentando incessantemente pelo desejo pela irmã Thomasin, vivida pela excelente Anya Taylor-Joy. O desempenho da garota é formidável e extremamente convincente. Os pais, interpretados por Ralph Ineson e Kate Dickie, são uma atração a parte. Kate, arrepia e chega a assustar em sua expressão como a fervorosa Katherine. Já o britânico Ineson, dá um verdadeiro show como o fatídico William.

A atenuante, e apocalíptica, trilha sonora de Marl Korven assombra todo o filme de forma intermitente. O desempenho do compositor provoca sensações duradouras de ansiedade e angustia. Não é difícil lembrar da trilha do clássico exorcista, enquanto vemos o filme.

Narrado pela jovem Thomasin, “A Bruxa” é um filme inteligente não só pelas qualidades citadas acima, mas por tratar de assuntos polêmicos como o incesto e abordar de forma pragmática o elo que existe entre o sobre e o natural. Uma produção pequena que vem tomando grandes proporções por sua proposta e impecabilidade.

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Tags:

horrorRodrigo teixeiraTerror

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Me siga Escrito por

Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é especialista em comunicação de alta performance, apaixonado pela arte e pelo seu potencial na conexão humana. É diretor, produtor, ator, roteirista, e acumula mais de 30 anos de experiência no mercado cultural. Adora cozinhar e descobrir novidades sobre o mundo.

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