O gênero Terror sempre foi um viés muito forte, não só no cinema e literatura brasileiros, mas também nas Histórias em Quadrinhos. Esse movimento foi mais intenso, sobretudo, entre as décadas de 1960 e 1970, época em que diversos títulos em banca exibiam o talento de dezenas de artistas consagrados. As severas crises econômicas que vieram nas décadas de 1980 e 1990 infelizmente acabaram reduzindo esse segmento a quase nada. Somente após os anos 2000 é que alguns daqueles autores célebres voltaram a publicar, mas desta vez de forma independente. E é assim que vem sendo a produção de HQs nacionais desde então.

Honrando (e aparentemente até homenageando) os grandes quadrinhistas brasileiros que se especializaram no gênero terror, temos a graphic novel Novembro, escrita por Bruno Bispo e desenhada por Victor Freundt. Tivemos o privilégio de conhecê-los na Ugra Fest, onde adquirimos este material de ótima qualidade. Então, seguindo o objetivo desta coluna na Woo! Magazine, que é promover os quadrinhos nacionais, entregamos a vocês esta resenha.

A trama de Novembro vai se revelando aos poucos, conforme os dois únicos personagens vão interagindo. Lucas é um senhor com terríveis marcas de queimadura por todo o rosto, deixando-o quase deformado. Vamos descobrir que ele é um investigador de polícia e que já teve um grande amor no passado. Daniel é um jovem rebelde e insolente, teve uma infância difícil devido à violência praticada pelo pai, e tem um passado obscuro. O que as tragédias pessoais destes dois personagens têm em comum e porque eles estão se encontrando em um banco específico dentro do cemitério é o que vai se descortinando a cada página de Novembro.

O recurso narrativo utilizado nessa história foi bastante ousado: revelar o passado de cada um deles em flashbacks que vão acontecendo naturalmente através de diálogos que revelam situações específicas do passado. Era muito grande o risco de cair numa conversa monótona ou mesmo confusa devido à não linearidade do roteiro, porém o texto flui de forma espontânea e as revelações sobre um e outro vão intensificando o clima pesado que envolve o encontro. Interessante que ambos os personagens não conhecem inteiramente o passado um do outro, ainda que um episódio antigo tenha marcado suas vidas para sempre. Dessa forma a surpresa dos personagens acerca destas descobertas é tão grande quanto a do próprio leitor. O timing para desenrolar estas acusações e revelações entre Daniel e Lucas é um pouco acelerado, talvez pela limitação de páginas do trabalho independente, com isso o clima de mistério não fica tão denso quanto poderia. Mesmo assim não é algo que compromete e a história termina com um desfecho coerente.

A base do roteiro é uma antiga fábula do escorpião e do sapo, em que este ajuda o primeiro a atravessar um lago, mesmo sabendo do perigo que está correndo por ser caridoso. A história de Lucas e Daniel consegue tangenciar a fábula de maneira sutil em diversos momentos, sem cair na solução óbvia de explicar literalmente. Essa contextualização definitivamente proporciona um conceito rico à história e tem o poder de torna-la mais factível.

 

A arte de Novembro não é lá muito convencional, mas claramente remete à estética das HQs de terror dos anos 1960, sobre tudo ao estilo de Júlio Shimamoto, um dos grandes mestres deste gênero. Os desenhos são pesados e em muitos momentos até “sujos” devido ao uso recorrente de alto contraste em preto e branco. O resultado gráfico é muito coerente com o clima pretendido para a história. As figuras humanas são distorcidas e obscuras, refletindo exatamente o perfil psicológico de ambo os personagens. A diagramação dos quadros nas páginas intensifica a trama conturbada, mas em algumas partes acaba ousando demais e prejudica a fluidez da narrativa.

No geral Novembro é uma boa HQ e mostra o potencial destes jovens quadrinhistas que estão produzindo com vontade e determinação. Vamos aguardar o que mais esta dupla pode nos presentear futuramente em termos de quadrinhos.

Formato: 19X27cm

Páginas: 48 em preto e branco.

Roteiro: Bruno Bispo

Arte: Victor Freundt