Em preto e branco opressor, A Terra do meu Pai faz da imagem sua linguagem mais eloquente
Logo no início de “A Terra do meu Pai”, Klaus Mann (August Diehl) pronuncia uma frase curta, porém reveladora: “somos lixo”. A angústia e a desilusão com a humanidade que o personagem expressa, não apenas nessa fala, mas ao longo de todo o diálogo com a irmã Erika (Sandra Hüller), é o mesmo sentimento que percorre o espectador diante da obra de Paweł Pawlikowski (“Guerra Fria”, 2018). O filme narra a viagem de Erika com o pai, o célebre escritor Thomas Mann (Hanns Zischler), por uma Alemanha devastada pelo pós-guerra e dividida entre os blocos controlados pela União Soviética e pelos Estados Unidos. Os dois atravessam o país na tentativa de ajudar a reconstruí-lo.

Pawlikowski não precisa de muito tempo para transmitir sua mensagem. Com 1 hora e 22 minutos de duração, o longa, embora enxuto, possui um conteúdo denso, sobretudo na simbologia empregada para comunicar suas pretensões. O tom contemplativo de algumas cenas reforça o desejo do cineasta de se fazer compreender pela escrita de sua câmera, e não apenas por diálogos, que em filmes desse tipo podem se tornar nocivos quando usados em excesso.
Assim, em vez de palavras, a condição política e social da Alemanha em 1949 é exposta quando o carro novo em folha de Thomas Mann circula entre cidades em ruínas. O brilho chamativo da lataria preta, somado ao modelo alongado do veículo, empresta-lhe a aparência de um carro fúnebre, que transporta a arte e a erudição de um povo enquanto este tenta ser resgatado em meio a tantas mortes. Os sobreviventes de uma barbárie perpetrada por uma minoria ainda aguardam salvação, e esta, na concepção de Mann, virá por meio de suas obras e de seus discursos eloquentes e filosóficos.
Acima das convicções do patriarca, que acredita ser possível que algo novo e bom floresça de um país destruído e submetido ao domínio de duas potências, cada integrante da família Mann tem a própria maneira de enxergar esse período histórico aterrador. Klaus é mais verborrágico em seu pessimismo, o que revela com facilidade sua visão de mundo. Erika, por sua vez, em uma atuação contida, porém magistral de Hüller, ocupa um meio-termo: ao mesmo tempo que acompanha o pai e escreve seus discursos, considera-o ingênuo por acreditar que meras palavras produzam algum efeito prático na realidade. A premiada atriz trabalha com olhares e gestos, recorrendo às palavras mais veementes apenas em momentos-chave de sua personagem. Isso confere à figura um ar de mistério, ainda que seja evidente seu sofrimento constante, causado não só por um episódio familiar traumático, mas também pelo remorso quanto ao que ocorreu enquanto vivia confortável no exílio e pela desesperança diante do que está por vir.

Para reforçar esse sentimento de desolação, Pawlikowski e seu diretor de fotografia, Lukasz Zal, optam por uma opressora razão de aspecto reduzida e por um belo, porém triste, preto e branco, com ênfase no preto intenso, que domina o figurino dos personagens, em especial o de Erika. Thomas, por sua vez, geralmente o veste sobre uma camisa branca, o que sugere uma esperança ainda existente, embora encoberta pela realidade opressora. A ausência de cores também realça cômodos mal iluminados, conferindo a algumas cenas um ar de filme de terror.
Toda a beleza lúgubre das imagens faz o espectador sentir a angústia dos personagens e levá-lo a questionar se a arte é capaz de subjugar a barbárie. Talvez a resposta surja na sutil, mas reveladora, cena em que a câmera de Zal percorre um jardim e enquadra várias estátuas de estilo clássico. Cobertas de musgo e, algumas delas, com o rosto destruído, revelam a decadência de uma Europa em um período tenebroso de sua existência. A beleza da arte, ali, não resistiu a um inimigo cruel: seus próprios criadores.
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É evidente que uma obra do nível de “A Terra do meu Pai” comporta inúmeras interpretações, e talvez o mais otimista prefira imaginar um mundo em reconstrução ou atravessando uma fase difícil, porém passageira, o que remete à atualidade repleta de conflitos que, embora ainda não tenham alcançado a escala da Segunda Guerra Mundial, mergulham o mundo em um medo constante. Há ainda aqueles que, como Thomas e Erika em certo momento do longa, preferirão, em meio às ruínas, sentar-se e apreciar a música de um solitário artista e seu antigo órgão. Assim, as ondas da beleza artística talvez alcancem os ouvidos do bárbaro e o levem, enfim, a remediar suas ações. Quem sabe!
“A Terra do meu Pai” foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Imagem destacada de “A Terra do Meu Pai”: Divulgação/Imovision


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