Do azul independentista às referências à diáspora porto-riquenha, apresentação no intervalo foi marcada por símbolos históricos, críticas ao colonialismo e celebração da identidade latina
O show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl foi muito além de um espetáculo musical. Em aproximadamente 14 minutos, o artista porto-riquenho construiu uma narrativa visual e política repleta de referências históricas, símbolos culturais e declarações sobre identidade latino-americana. Primeiro artista a se apresentar exclusivamente em espanhol no evento, ele transformou o palco em um manifesto sobre pertencimento, memória e resistência.
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Abaixo, os principais símbolos do show e seus significados:
Cana-de-açúcar: o passado colonial
A abertura mostrou trabalhadores em plantações de cana-de-açúcar enquanto o cantor interpretava “Tití Me Preguntó”. A imagem remete diretamente à base econômica do Caribe nos séculos XIX e início do XX — e ao legado de escravidão e colonialismo que moldou Porto Rico.
A presença dos trabalhadores vestidos de branco com chapéus de palha “pava” evocava o jíbaro, figura tradicional do camponês porto-riquenho. O recado era claro: antes do estrelato global, há uma história de exploração que ainda reverbera na ilha.
Barraca de piragua: identidade e união latina
No percurso pelos canaviais, Bad Bunny passou por cenas cotidianas — dominó, coco gelado, manicure — até parar em uma barraca de piragua, raspadinha típica porto-riquenha.
As garrafas de xarope exibiam bandeiras de países latino-americanos como Colômbia, México, Espanha e Porto Rico, reforçando a ideia de comunidade transnacional. Em um evento historicamente centrado na cultura estadunidense, o artista deslocou o foco para uma América plural.
Concho: a metáfora da extinção
O telão exibiu “Concho”, personagem inspirado no sapo-concho, espécie endêmica de Porto Rico ameaçada de extinção. A referência vem do álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS, que aborda gentrificação e apagamento cultural.
O animal simboliza a fragilidade da identidade porto-riquenha diante da especulação imobiliária e da influência econômica dos EUA. Ao projetá-lo no maior palco esportivo do país, Bad Bunny transformou uma metáfora ambiental em comentário político.
A “casita”: memória arquitetônica
Parte do show aconteceu no terraço de uma tradicional casa de cimento colorida — a “casita” — modelo comum em Porto Rico no século XX.
Essas construções vêm desaparecendo com novos empreendimentos imobiliários. No palco, tornaram-se símbolo de resistência cultural e nostalgia coletiva.
Entre os convidados que passaram pelo cenário estavam Karol G, Young Miko, Pedro Pascal, Cardi B e Jessica Alba, ampliando a representação latina no palco.
El Morro: fortaleza e identidade nacional
O cenário que simulava um casamento reproduzia elementos do Castillo San Felipe del Morro, fortaleza do século XVI em San Juan e símbolo nacional porto-riquenho.
A presença de uma “garita” (torre de vigilância) reforçava a ideia de proteção e permanência histórica — uma metáfora visual sobre resistência cultural.
Toñita: a diáspora viva
Durante “NUEVAYoL”, Bad Bunny brindou com Maria Antonia “Toñita” Cay, dona do Caribbean Social Club, no Brooklyn. Figura histórica da comunidade porto-riquenha em Nova York, ela representa a ponte entre ilha e diáspora.
Em tempos de gentrificação acelerada, sua presença simbolizou resistência comunitária.
Postes de energia: trauma recente
Ao cantar “El Apagón”, trabalhadores surgiram pendurados em postes elétricos. A imagem remete aos apagões prolongados após o furacão Maria, quando a precariedade da infraestrutura e a resposta do governo dos EUA foram amplamente criticadas.
O gesto conectou passado colonial e crise contemporânea em um mesmo quadro.
O azul claro: declaração política
A bandeira porto-riquenha exibida no palco tinha triângulo azul claro — tonalidade associada ao movimento independentista, anterior à padronização imposta após a anexação pelos EUA.
O detalhe cromático foi uma das mensagens mais explícitas do show: questionar a relação colonial da ilha com os Estados Unidos.
Ricky Martin: ressignificação
A participação de Ricky Martin marcou um contraste simbólico. Ícone do “latin pop” que conquistou o mercado americano nos anos 1990 cantando em inglês, Martin surgiu no Super Bowl interpretando uma canção politizada em espanhol.
Foi um gesto de reafirmação cultural no centro da indústria estadunidense.
“Juntos somos a América”: redefinindo o termo
Certamente o momento mais emblemático do show. No encerramento, Bad Bunny declarou “Deus abençoe a América” e passou a listar países de todo o continente. Cercado por bandeiras das Américas, exibiu na câmera a frase “Juntos somos a América” e concluiu: “Seguimos aquí”.
Em um contexto de discursos anti-imigração e questionamentos sobre sua “americanidade”, o artista ampliou o conceito de América para além das fronteiras dos EUA.
Mais do que entretenimento, o show foi uma aula de história condensada em espetáculo pop — e um lembrete de que identidade, para Bad Bunny, é sempre palco e posicionamento.
Confira aqui o show completo
Imagem destacada: Reprodução
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