Crítica (2): Bacurau

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Antes mesmo de ganhar o prêmio do júri no festival de Cannes, “Bacurau”, já gerava expectativa nos cinéfilos brasileiros por causa do histórico de excelentes filmes de Kleber Mendonça Filho. O cineasta, antes crítico de cinema, ganhou notoriedade com “O Som ao Redor” e “Aquarius”, duas obras que transpiravam política e crítica social.  Porém, “Bacurau” prometia trazer elementos de gêneros não comuns no cinema brasileiro em um roteiro mantido em segredo. Outra novidade era a divisão do posto de diretor e roteirista entre Mendonça Filho e seu amigo Juliano Dornelles. A pergunta que todos faziam era: será que Mendonça Filho vai acertar novamente, agora com outra mente criativa ao seu lado?

Bom, ele acerta, mas não em cheio como em seus filmes anteriores. “Bacurau” não alcança a excepcionalidade por causa de sua narrativa apoiada em gêneros já tão desgastados que não mais surpreendem. Com isso, a tensão crescente presente em “O Som ao Redor” e “Aquarius” não é sentida, mesmo que forasteiros americanos fortemente armados estejam cercando uma pacata cidade cheia de crianças e idosos. Os westerns feitos por Hollywood usam com frequência a premissa do cerco de um inimigo poderoso contra fracos e inocentes, e o roteiro de Mendonça Filho e Dornelles a toma como referência para criar uma história tipicamente brasileira, todavia sem subvertê-la, o que favorece a previsibilidade.

Claro que há uma quebra de paradigmas ao transportar os pistoleiros das pradarias da América do Norte do século 19 aos vilarejos afastados do nordeste brasileiro, mas nada do que já não tenha sido explorado por Glauber Rocha no passado. O elemento a mais em “Bacurau” é o uso do sci-fi para mostrar uma sociedade brasileira em um futuro não definido, onde a tecnologia é usada para perseguir e prender bandidos, que depois são executados em praça pública. Esses elementos distópicos são apresentados rapidamente em transmissões de TV, que mostram uma multidão em São Paulo acompanhando uma dessas execuções, e por meio de um pequeno monitor presente em um caminhão pipa, onde aparece a imagem de um fugitivo com a palavra “procurado” piscando na tela.É desse mundo externo opressor e sombrio que vêm os vilões da história. Eles aparecem no horizonte crepuscular e espreitam o vilarejo como um alvo. São os conquistadores brancos que pretendem dizimar todos os nativos. Não se interessam pelo território, o que  querem é o êxtase proporcionado pelos tiros que acabam com as vidas, ao mesmo tempo em que contam pontos em uma espécie de jogo bizarro. O problema para os conquistadores é que Bacurau conta com um senso de comunidade único, que a faz se unir e planejar a resistência. A partir daí a violência ganha a tela, tingindo de vermelho os rostos e o chão árido do sertão.

É no sangue jorrado por causa dos tiros saídos da Colt e da Smith & Wesson que os filmes de Sam Peckinpah são lembrados. E, se há armas, há membros amputados e cabeças explodindo, o que remete ao gore de John Carpenter. Duas referências que dão o arcabouço hollywoodiano a “Bacurau”, mas é no cinema contemporâneo brasileiro que está sua essência, já que segue outras produções nacionais recentes e transmite o incômodo com a situação política e social de um país destroçado. O roteiro de Mendonça Filho e Dornelles serve como uma espécie de guia do que precisa ser feito para impedir que a barbárie continue. Será preciso partir para o conflito, pois a diplomacia não é conhecida pelos bárbaros.

Bacurau entra nesse inevitável conflito, e luta estrategicamente contra os estrangeiros que o começou. Estrangeiros esses que representam os usurpadores de terras, os assassinos de pobres; os donos do capital que massacram tudo que é natural. Entretanto, a natureza encarnada no povo revidará para defender seu território, e seu trunfo é a união de uma comunidade que sempre dividiu a comida, o conhecimento e a força para enganar a morte. No campo de batalha, compartilharão o sangue do inimigo.

No Brasil real, também é preciso derramar o sangue do inimigo, nem que seja o sangue simbólico derramado por meio de protestos, por meio dos votos e da justiça. Não é possível deixar que as terras, as árvores, os rios e os animais sejam roubados e aniquilados por um governo que quer dar tudo de bandeja a forças obscuras. A voz da nação precisa se unificar e gritar a favor da educação, da ciência e da racionalidade. No western tupiniquim, não se pode deixar os bandidos invadirem sem que haja uma reação. A mensagem de resistência de “Bacurau” foi dada, cabe a todos segui-la.


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