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CríticaFilmes

Crítica (2): Pequena Grande Vida

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
21 de fevereiro de 2018 3 Mins Read

23916629 1770041173290289 1221681388026596777 oAlexander Payne já mostrou que não é um cineasta com propostas narrativas habituais e, gostando ou não de seus filmes, é preciso reconhecer que ele possui uma marca própria, distanciando-o do filão hollywoodiano que enchem as salas de cinema. Payne desenvolve histórias que se encaixam perfeitamente no cenário independente e que geralmente caem nas graças das principais premiações, como o Oscar. Foi assim com “Sideways”, “Os Descendentes” e “Nebraska”. Diálogos bem construídos para personagens desajustados e em situações desconfortáveis dão o tom de suas obras. Todas essas características estão de volta em “Pequena Grande Vida”, mas, agora com maiores ambições e um orçamento robusto.

O orçamento foi necessário para dar vida a um mundo de ficção cientifica onde alguns pesquisadores noruegueses com objetivos ambientais criam uma máquina que diminui a massa corporal humana, deixando-os do tamanho de ratos. Após a revelação da inovação o mundo se transforma ao receber inúmeras comunidades de pessoas pequenas. A convivência com aqueles que não querem ser encolhidos é mantida com o compartilhamento de serviços públicos, como viagens de avião. Depois do procedimento, a classe média se torna milionária, por causa da diminuição do custo de vida de uma pessoa diminuta. Paul Safranek (Matt Damon) um terapeuta, vê aí a grande oportunidade de realizar o sonho de ter uma casa nova (no caso, uma mansão) junto com a esposa vivida por Kristen Wiig. O problema é que Safranek é um dos personagens desajustados de Alexander Payne e o que era para ser uma vida confortável encontra alguns percalços.

Longe de ser aquele tipo de ficção cientifica sisuda, que tem em suas veias um pessimismo pulsante, “Pequena Grande Vida” consegue discutir temas recorrentes e sérios sem perder a leveza de uma comédia de erros. Questões sociais e políticas fazem parte da jornada de Safranek, demonstrando o quão longe de ser uma pessoa realmente boa ele está (apesar de ter cuidado da mãe até a morte e de tratar pessoas com problemas ortopédicos em seu trabalho). Cutucando levemente os o imperialismo norte americano, há nessa “avançada” nova comunidade o antigo e conhecido esquema capitalista e suas barbáries resultantes. Há aqui a entrada de Ngoc Lan Tran (Hong Chau) uma vietnamita que é encolhida pelo governo de seu país para que seus protestos contra a inundação de sua cidade e a construção de uma hidroelétrica sejam calados.Para fugir de seus perseguidores ela entra clandestinamente nos EUA dentro de uma caixa de televisão. Socorrida, ela fica em coma e acaba perdendo uma perna. Sua história é transmitida pela mídia, fazendo-a uma celebridade. Mesmo com a fama, seu destino é um gueto junto com outros imigrantes e um trabalho como faxineira dos abastados. Em uma das casas que limpa, acaba conhecendo Safranek. Pessoas esfarrapadas longe das grandes maravilhas da civilização. É interessante notar a clara menção ao famigerado muro que Donald Trump quer construir na fronteira com o México. Em um momento, um ônibus levando trabalhadores entra em um buraco igual a uma abertura de esgoto para ultrapassar a imensa estrutura que separa as duas realidades. Ngoc Lan Tran trafega entre essas duas realidades, carregando sobras de comida dos ricos para os pobres. Safranek começa a ajuda-la e descobre que seus problemas não são tão graves assim.  Uma invenção para salvar o planeta nada mais é que duplicação de seus erros em escala menor, e isso mostra a falta de capacidade do ser humano em superar ultrapassados costumes.

Como dito, Payne não permite que seu filme perca o humor ao tratar de temas tão sérios. Tiradas sarcásticas são o que o diretor e também roteirista faz de melhor. Boa parte delas desferidas pelo personagem de Christoph Waltz e seu já famoso sotaque fanfarão. Outro ponto a destacar é a eficiência dos efeitos visuais que, mesmo aparentando ser baratos, fazem seu papel ao trazer à memória o clássico da sessão da tarde “Querida, Encolhi as Crianças”. “Pequena Grande Vida” deixa aquele sorriso no rosto mas acende um alerta sobre nossa vida de gente grande aqui na terra.

 

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Tags:

AnimaçãoCinemaComédiaEstreiaMatt Damon

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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