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Crítica

Crítica (2): Roda Gigante

Com sua invejável disposição para lançar todo ano um novo longa-metragem, Woody Allen oscila atualmente entre algumas obras memoráveis, em pé de igualdade com seus maiores clássicos, e outras menores, esquecíveis em meio à sua vasta filmografia. “Roda Gigante”, estreia deste ano, não repete o sucesso alcançado recentemente com “Blue Jasmine” (2013), mas tampouco decepciona como “O homem irracional” (Irrational Man, 2015).

Nessa nova produção do cineasta novaiorquino, ambientada na Coney Island dos anos 1950, Kate Winslet vive Ginny, uma mulher de meia-idade presa em um casamento infeliz e em uma profissão indesejada. Sua única esperança de mudar de vida é fugir com o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), seu amante mais jovem. Essa possibilidade, contudo, logo se esvai com a chegada de Carolina (Juno Temple). Enteada de Ginny, ela volta a viver com o pai, Humpty (James Belushi), após anos afastada e muda toda a dinâmica da casa.

Apesar de a trama parecer pouco original, Allen acerta ao assumir sua inspiração no teatro. As atuações exageradas justificam-se na opção por contar a história do ponto de vista do salva-vidas e inclui-lo como narrador desde a primeira cena, na qual confessa seu excesso poético. Mesmo que falte a Timberlake repertório como ator, o recurso funciona. Já a performance de Winslet, particularmente acima do tom, ganha ainda outra explicação. Sua personagem, uma frustrada aspirante à atriz, encara a vida como um grande palco e desempenha diariamente vários papéis: o de garçonete, o de dona de casa, o de madrasta, o de mãe do pequeno e problemático Richie (Jack Gore), entre muitos outros.

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Dentre essas funções, talvez a mais difícil para ela seja a de mãe. E o filme revela isso na própria construção das personagens. De um lado, está Ginny, uma mulher marcada pelo elemento água. A praia representa para ela tranquilidade – lá caminha para relaxar – e esperança – lá encontra refúgio nos braços de Mickey. Do outro, está Richie, marcado pelo elemento oposto, o fogo. As chamas exercem grande fascínio no piromaníaco garoto, e sua mãe, apesar de esforçar-se, não consegue controlá-lo.

Se, por um lado, afasta-se do filho, a personagem aproxima-se, por outro, da própria Coney Island. Assim como o lugar, ela teve um passado vivo e hoje experimenta sua decadência. Enquanto a protagonista sonhava tornar-se uma grande atriz, a península vivia cheia de crianças em seu parque. O presente, no entanto, caracteriza-se por um esvaziamento: no caso de Coney Island, físico; no de Ginny, emocional.

Coube a Vittorio Storaro, diretor de fotografia vencedor de 3 Oscars, a tarefa de traduzir imageticamente essas ideias. Ele já havia trabalhado com Woody Allen em “Café Society” (2016), encerrando a parceria anterior do cineasta com o iraniano Darius Khondji, indicado ao Oscar por “Evita” (1996). Ainda que ambos sejam excelentes, o uso expressivo de cor e luz do italiano harmoniza-se melhor com os conflitos presentes nos últimos roteiros de Allen.

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Como exemplo de uma das oposições acentuadas pela fotografia, a vividez das ruas contrapõe-se à tristeza do apartamento onde o casal vive. Storaro intensifica essa contradição com a predominância de um tom escaldante de vermelho nos ambientes externos e de um tom melancólico de azul nos internos. As cores marcam, ainda, não só na fotografia mas também no figurino de Suzy Benzinger – colaboradora recorrente de Allen – o estado emocional da protagonista: as quentes traduzem paixão, enquanto as frias, angústia. Quanto à iluminação, por fim, Storaro ajuda a explicitar a inspiração teatral já indicada pelo roteiro. Para isso, ele direciona as luzes, principalmente nos monólogos de Ginny, de forma análoga à que se faz no palco.

Beneficiado por esse interessante tratamento de imagem, “Roda Gigante” acerta mais do que erra, apesar de parecer em certos momentos datado e pouco original. Não faz frente aos melhores filmes de seu cineasta, mas de toda maneira merece ser visto.

*O filme estreia dia 28, quinta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

1 Comment

1 Comment

  1. Cecília

    9 de janeiro de 2018 at 15:46

    Muito bom, Luiz! Acho que tivemos mais ou menos a mesma impressão do filme! Mas essa simbologia dela com a água e do filho com o fogo eu não havia parado para pensar, realmente ficou muito legal isso! 🙂

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