“O Farol” é um filme estranho. Sim, sua narrativa e seus desdobramentos são um tanto difíceis de descrever. A atmosfera que encobre o longa do início ao fim é, no mínimo, excêntrica. Entretanto, mais do que isso, “O Farol” é um filme complicado de se avaliar: se por um lado, os elementos individuais são muito bem realizados e seguem um unidade estética muito bem definida, por outro, ao unir todos eles, de alguma forma, eles resultam em menos do que a soma de suas partes. Um longa excepcional em diversos aspectos, mas que, no todo, é uma experiência frustrante e tediosa.

Em linhas gerais, o filme acompanha dois faroleiros, o veterano Thomas Wake (Willem Dafoe) e seu novo assistente Ephraim Winslow (Robert Pattinson), durante cinco semanas de serviço no local que dá título à obra. Na maior parte do tempo, há uma grande distância entre os dois homens: enquanto o mais jovem fica encarregado do serviço pesado – alimentar a caldeira, consertar as telhas, limpar a cisterna d’água -, o mais velho passa grande parte do dia em seus aposentos até que, à noite, sobe até o topo do farol, onde controla a luz emitida por ele. O único momento em que interagem mais intensamente (e ainda assim, o uso dessa palavra é relativo) é durante as refeições, nas quais, apesar de eventuais tentativas em firmar uma certa cordialidade, no geral, o clima é de silêncio e desconforto – isso quando não é interrompido pelas broncas de Thomas em direção a seu subordinado.

Essa dinâmica consome perto de metade da duração de “O Farol”, indicando um ambiente carregado que, inevitavelmente, vai entrar em erupção. Dizer que esse trecho do filme é enfadonho, chega a ser elogio – é muito chato mesmo. Entretanto, percebe-se que essa é uma escolha deliberada do diretor Robert Eggers; uma forma de pôr o espectador na pele de Ephraim e sua rotina deveras entediante, piorada ainda mais pela presença insuportável de Thomas que, quando não está falando impropérios para o protagonista, está bêbado, citando antigos poemas de marinheiro e soltando puns regularmente. Logo, quando em seu último dia de serviço, Ephraim pega uma gaivota pelo pescoço e a espanca na pedra até virar pouco mais que um amontoado de penas e carne, é um momento de liberação extrema tanto para o protagonista quanto para o público, apesar do teor gráfico e cruel da cena. Entretanto, como explica Thomas um tempo antes, “não mexa com os pássaros, pois eles guardam as almas do antigos marinheiros” – o momento de êxtase, na verdade, é apenas um mau agouro.

Como já é de se esperar, nesse ponto as coisas saem do controle e “O Farol” assume de vez a sua faceta bizarra. Para não estragar a experiência de ninguém, fica o aviso de que a partir de agora, certos pontos da trama do filme serão comentados e, portanto, recomendo que quem quiser evitar spoilers deve parar de ler esse texto agora.

O último plano de “O Farol” – com a personagem de Pattinson nua, deitada em um gramado, tendo seus órgãos internos comidos pelas gaivotas que tanto o irritaram ao longo de toda a trama – deixa bastante explícito o fato de que o filme de Eggers é, em parte, uma atualização do mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses e, por isso, foi castigado por Zeus a ter seu fígado consumido por uma águia pelo resto da eternidade. A partir dessa constatação, pode-se entender a relação entre Ephraim e Thomas paralelamente ao conflito entre Prometeu e Zeus: ao obrigar o assistente a desempenhar todos os reparos no farol e arredores, ao questionar a sua eficiência e ao tratá-lo de forma desprezível, Thomas age da mesma forma que o Deus dos Deuses: intransigente e intolerante, sentindo-se superior a todos os outros seres. Além disso, alguns detalhes de sua biografia – como o fato de ter uma família que pouco vê devido ao trabalho – alude à figura de Zeus como o pai ausente e tirano de uma série de filhos.

Por sua vez, Ephraim se apresenta como esse sujeito que cumpre os seus deveres, mas se sente insatisfeito com a forma com a qual é tratado por seu “superior”, aparentemente cego para as suas qualidades e indiferente a seu sofrimento (questões encontradas no poema “Prometheus”, do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe). Prova disso, são as várias tentativas de Ephraim em chegar perto da luz do farol ou ser responsável por ela, e sempre ser repreendido por Thomas, que lhe diz que ele ainda não possui experiência para tanto (apesar de que, teoricamente, ambos deveriam se revezar nessa função). Dessa forma, ter contato com a luz se torna, ao longo do tempo, menos uma busca por aprovação do que uma luta pelo poder.

Contudo, ao longo da segunda metade de “O Farol”, Eggers e o co-roteirista Max Eggers apontam para uma aproximação entre mestre e aprendiz. O primeiro momento em que isso é explicitado é quando Ephraim finalmente sucumbe aos desejos de Thomas e acaba se embebedando com ele. Nessa cena, ambas as personagens estão sentadas, uma de frente para a outra, com os seus objetos de fumo trocados: o velho consome o cigarro do jovem, e o jovem segura o cachimbo do velho dentre os lábios. Essa ação é exacerbada, ainda, pela seguinte fala de Thomas: “você é um bom faroleiro em formação”, um primeiro (e raro) momento de aprovação vindo do superior ao subordinado, apontando uma semelhança até então não mencionada.

Essa proximidade entre as personagens torna-se ainda mais forte quando é revelado que, na verdade, Ephraim se chama Thomas Howard. Essa duplicidade já é insinuada no próprio nome Ephraim, figura bíblica cuja representação é debatida: segundo os estudos do Deuteronômio (quinto livro da Torá e parte do Antigo Testamento), ele é apresentado como um homem controlador e egoísta; enquanto isso, na literatura rabínica clássica, Ephraim é representado como alguém modesto e sem invejas. Nessa lógica, ao assumir a sua real identidade, Ephraim/Thomas escolhe aproximar-se do velho faroleiro, indo atrás da luz num ato de pura vingança e vaidade. Não à toa, antes de subir até o topo do farol, o assistente faz questão de tratar Thomas como um cachorro, pondo-o no lugar a que ficou relegado durante todo aquele período.

Se há algo inegável em relação a “O Farol” é a dedicação de Robert Eggers em não fazer concessões, mesmo que isso possa afugentar parte do público. Tecnicamente é impecável, construindo com maestria e precisão a ambiência do local em que a trama se desenrola, seja em seus aspectos mais pragmáticos (a reconstituição de época) ou sua camada puramente estética (a inospitalidade e o isolamento do rochedo onde se encontra o tal farol). A fotografia de Jarin Blaschke, restrita a um quadro quase perfeitamente quadrado e marcada por um intenso chiaroscuro, é essencial para transmitir os extremos da situação proposta pelo roteiro, como também é um complemento inestimável para a performance dos dois atores principais. A cena em que Willem Dafoe declama para Robert Pattinson a maldição das almas dos antigos marinheiros é uma confluência perfeita entre luz, câmera e interpretação, criando uma atmosfera demoníaca num dos mais incríveis close-ups do ano.

Contudo, esse mesmo controle formal absoluto é o que acaba “aleijando” o filme em sua segunda metade. Apesar da mistura intensa de diferentes referenciais culturais (mitologia grega, figuras bíblicas, diários reais de marinheiros do século XIX) e da radicalização estética, a fim de representar a deterioração da sanidade mental da personagem de Pattinson, “O Farol” mantém-se frio, distante e entediante. Tem-se a impressão de estar assistindo a uma bela fotografia viva, mas que não consegue tornar o poder teórico de suas imagens e sons em um poder efetivamente sensorial – uma loucura controlada e pouco perigosa.

“O Farol” é um filme tão cheio de simbologias que chega a despertar uma vontade de vê-lo de novo, já a par de suas qualidade e fraquezas, a fim de prestar atenção desde o início em seus mínimos detalhes. Todavia, é uma obra tão enfadonha que só de pensar em assisti-la outra vez, dá preguiça. É um longa com direção e interpretações excepcionais, resultando em alguns momentos genuinamente intrigantes. Ao mesmo tempo, esse mesmo perfeccionismo impede o filme de liberar toda a sua potencial insanidade. É um filme que quanto mais eu penso nele, mais coisas eu acho interessantes. Contudo, quanto mais eu penso nele, mais eu penso em como ele poderia ser menos pretensioso. Enfim, “O Farol” é estranho.


Imagens e vídeo: Divulgação/Vitrine Filmes


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O Farol

2.7
Regular!

Dois faroleiros do final do século XIX entram em conflito enquanto estão isolados em um rochedo no meio do mar.

Elenco
Direção
Ritmo
Roteiro
Pros
  • Fotografia
  • Interpretação dos atores
  • Simbologias interessantes
Cons
  • Ritmo
  • Um tanto pretensioso
  • Falha em captar a insanidade
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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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