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CríticaFilmes

Crítica: A Rota Selvagem

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
16 de outubro de 2018 3 Mins Read

O amadurecimento de um jovem já é um processo difícil em condições normais, onde há uma família para lhe dar suporte. Agora, quando é preciso aprender sobre os obstáculos que o mundo impõe sem um pai e uma mãe, ou quando esses não são totalmente presentes, o caminho se torna ainda mais doloroso. O adolescente Charley Thompson (Charlie Plummer) sente na pele a falta da figura materna em sua vida e por ter um pai (Travis Fimmel) alcoólatra e mulherengo como exemplo. Charley é um entusiasta do atletismo (o filme começa com ele correndo pelas ruas) e possui habilidades no futebol americano, mas é extremamente prejudicado pelas constantes mudanças de cidade que faz junto com o pai, que não consegue manter-se em um trabalho fixo. Todas as aspirações esportivas seriam mais bem trabalhadas se o garoto estivesse matriculado em um colégio. Infelizmente, ele não está. Na Nova cidade, Charley conhece Del (Steve Buscemi) – que possui cavalos de corrida e faz dinheiro com competições semiamadoras – e começa a trabalhar como cuidador dos animais, principalmente de Lean on Pete, que já é velho e possui um problema em uma das patas. Quando Del ameaça vender o cavalo por já não mais conseguir ganhar corridas, Charley foge com o animal.

Sem nenhum dinheiro, Charley rouba gasolina e comida, mas vê o motor da velha caminhonete parar de funcionar. Por isso, segue a viagem a pé, junto com o seu companheiro, sem monta-lo é claro, porque, afinal, os amigos precisam ser tratados com respeito. O objetivo é chegar até a residência de sua tia, que cuidou dele na infância. Como road movie “A Rota Selvagem” funciona satisfatoriamente, sendo apenas prejudicado pela obviedade do roteiro. Claro que o ineditismo em histórias como essa é praticamente impossível de se conseguir e, provavelmente, não era a intenção dos roteiristas criar algo totalmente original. A saída seria desenvolver situações que exigisse mais da capacidade dos atores e aumentar o clima de tensão durante as cenas na estrada. Explorar principalmente o ótimo Charlie Plummer, que se entrega ao papel durante toda a projeção mantendo o semblante melancólico – chegando até a esconder sua beleza – e uma postura curvada, sempre olhando para o chão (deve ter deixado seu talentoso avô orgulhoso), seria ideal para alcançar um resultado acima do habitual.

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É correta a direção de Andrew Haigh ao apostar nas câmeras intimistas para acentuar os sentimentos e abrindo os planos para mostrar a degradação das cidades durante a viagem e a solidão dos personagens nas cenas do deserto. Deserto esse bem fotografado em sua transição da aridez amarela para o negro frio coberto de estrelas por Magnus Nordenhof Jønck. O negro da noite que acoberta perigos diversos, mas, por outro lado, que inspira a liberdade para um garoto e um cavalo. Os dois que não possuem casa ou família e olham para um passado de dores. Eles não podem voltar porque não são vistos como seres que merecem uma segunda chance, então, o que resta é seguir rumo a um futuro incerto, porém cheio de possibilidades para recomeços.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo.

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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