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Crítica: Amor por direito

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Convidado Especial
18 de novembro de 2017 3 Mins Read
Lutando por igualdade

amorpordireitoPOSTER

Ainda há muitas pessoas neste mundo julgando que a luta das minorias por direitos não passa “mimimi”. Falta empatia. Simplesmente não conseguem enxergar além de suas realidades nem calçar os sapatos alheios para dar uma volta pelo o quarteirão e sentir a dor e o desconforto de estar em determinadas situações. Para elas, talvez assistir ao filme “Amor por direito” possa ser um passo em relação a uma mudança de comportamento.

O longa, dirigido por Peter Sollett, é baseado na história real da policial Laurel Hester (interpretada por Julianne Moore), que ao ser diagnosticada com câncer terminal, precisa lutar para que sua companheira Stacie Andree (Ellen Page) tenha direito à pensão. As duas têm uma união estável registrada em cartório, mas esbarram na hipocrisia e no tradicionalismo do conselho de supervisores de Ocean County, Nova Jersey, condado onde Laurel trabalhou por vinte e três anos sem nunca ter pedido nenhum tipo de tratamento especial e sempre correndo todos os riscos da profissão. Os membros do conselho alegam desde a possibilidade de falência caso o pedido seja deferido (hipótese jamais levantada em se tratando de um casal heterossexual) e a violação da santidade do casamento.

Durante a luta pelo direito, Laurel e Stacie recebem o apoio do parceiro profissional da policial, Dane Wells (Michael Shannon) e do ativista pelo casamento gay, Steven Goldstein (Steve Carell), que se aproveita da situação para defender seus interesses, criando um circo barulhento que acaba sendo positivo.

O roteirista Ron Nyswaner ganhou o Oscar em 1994 por “Filadélfia”, em que Tom Hanks interpreta um homossexual que vem a falecer em decorrência da AIDS. Em “Amor por direito”, a história é bem contada desde o começo, nos inserindo na realidade da vida de Laurel, que esconde sua orientação sexual de todos no trabalho – até mesmo de seu parceiro profissional – e procura relacionamentos amorosos longe de casa, até que finalmente encontra Stacie, muito mais jovem que ela, e decidem construir uma vida juntas.

Julianne Moore trabalha com a competência e o talento de sempre; a estranheza fica num detalhe da caracterização da personagem, que usa os cabelos em um estilo Farrah Fawcett já nos anos 2000. Ellen Page conquista pela atuação sincera e minimalista. O filme poderia cair no melodrama, mas isto não acontece.

amorpordireito2Michael Shannon brilha como o policial corajoso que enfrenta seus colegas de forma incisiva ao defender o direito de Laurel. É impossível não se impactar com sua presença em cena. Já Steve Carell, como o ativista gay um tanto espalhafatoso, quebra a atmosfera pesada que o filme passa a ter a partir do diagnóstico de Laurel, trazendo certa leveza e humor.

O relacionamento das duas mulheres é tratado com muita delicadeza no filme, desde a primeira vez que elas têm um encontro romântico em um bar gay. A música que toca quando dançam e a câmera, acompanhando os movimentos de ambas, criam um clima intimista e de sedução. Mas a trilha também pode soar melancólica em outros momentos. Cenas na praia unem a beleza da locação e boa fotografia.

Anteriormente, o curta documentário “Freeheld” (o título original do longa é o mesmo), dirigido por Cynthia Wade, contou a história da batalha de Laurel por igualdade de direitos. O mundo vem mudando, mas ainda há muita intolerância e preconceito, e são obras como essas que podem ajudar a divulgar a causa LGBT. Há quem ache que não deveriam existir movimentos e manifestações, mas o fato é que se ninguém se move para mudar o estado das coisas, elas continuam como estão. É confortável afirmar que nada disso é necessário, e geralmente a afirmação vem de quem não é excluído socialmente por algum motivo. Como diz Laurel a seu parceiro e amigo Dane ao justificar o segredo em torno de sua orientação sexual: “Você é hétero. É branco. É homem. Tenho que lutar por coisas dadas a você.” Pensem.


Neuza Rodrigues

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