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CríticaFilmes

Crítica: BR 716

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Convidado Especial
12 de novembro de 2016 3 Mins Read
14-br-716-7-2Na intensa boemia carioca nos anos 1960, o engenheiro e aspirante a escritor Felipe leva uma vida regada aos prazeres do álcool, em festas alucinantes realizadas num apartamento dado por seu pai, na famosa rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Lá, ele e seus amigos desfrutam de tudo que a liberdade pode oferecer, mesmo em meio a um momento político complicado.

Todos nós em algum momento já paramos para analisar como está nossa vida. E em quase cem por cento das vezes concordamos que a melhor fase dela é quando passamos a maior parte do tempo com nossos amigos. Mas é sintomático que junto dessa constatação venha o sentimento de revolta: Então por que na época eu não era feliz? Pergunta essa que nunca de fato haverá uma resposta definitiva. “BR 716” está pouco preocupado em respondê-la, mas muito satisfeito em representá-la da melhor maneira possível.

Domingos Oliveira compõe todo o filme em uma fotografia melancolicamente bonita e sensual. Rodado praticamente todo em preto e branco essa escolha reflete exatamente o âmago de seu personagem principal: o aspirante a escritor Felipe. Essa fotografia reforça esse sentimento de tristeza ao empregar em todo filme um banho de tristura até mesmo nos momentos mais boêmios de seus jovens personagens.

Também é muito boa a escolha por usar uma câmera intrusiva, onde a todo momento parece que está olhando ou espionando as personagens. Se em outros projetos essa decisão seja arriscada e pouco produtiva, aqui é deveras eficaz pela forma como é feita. Vários enquadramentos são vistos do teto, do chão, das paredes, dando a sensação que o próprio apartamento é uma personagem viva e real na vida daquelas pessoas. Uma maneira inteligente de demonstrar a importância do apartamento na história dessas personagens.

Já as atuações oscilam entre o introspectivo e o exagero corporal. Caio Blat faz um esforço tremendo para conseguir passar um carisma com seu personagem Felipe. Seus trejeitos, e seus olhos emanam um marasmo abissal com toques de leveza e certa esperança no amor. Sophie Charlotte está deslumbrante no papel de Gilda, é sutilmente sensual e francamente fascinante. Sua atuação magnetiza o espectador e praticamente rouba a cena do protagonista.

O ponto negativo, infelizmente, fica por conta de Pedro Cardoso que faz uma pequena participação, porém, tanto sua atuação extremamente corporal e seu personagem misógino se distanciam muito da proposta e qualidade do filme em geral. Criando assim momentos de vergonha alheia e perda de tempo total.

Outros pontos inconvenientes saem basicamente da dúvida que o filme tem para decidir seu foco principal: se é a comédia ou o drama. A montagem não facilita para esse entendimento, e em alguns momentos grandes cenas de drama precedem outros de uma total galhofaria. Note na cena em que uma das personagens está para ser internada em uma clínica psiquiatra, como o momento dramático passa para uma comédia-pastelão sem algum momento de ligação entre essas duas. O longa não consegue fazer o drama conversar com a comédia, fazendo deles dois antagônicos.

Por fim, BR 716 é outro grande lançamento do cinema nacional esse ano. Nos mostra como momentos boêmios com os amigos têm de ser vividos como se fossem os últimos de sua vida. Afinal, a qualquer momento a violência – a base de bala e gás de pimenta – pode, então, acabar com o amor. E ao constatar ao final do filme a mudança de preto e branco para o colorido, podemos perceber a atemporalidade dessa história… Afinal, como o personagem Felipe nos diz “Não somos nós que passamos pelo tempo, é o tempo que passa por nós”. E nesse momento ele está voltando.

Por Will Bongiolo

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