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CríticaFilmes

Crítica: Coringa

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
2 de outubro de 2019 3 Mins Read

Para a Warner/DC não parecia uma boa ideia fazer mais um filme com foco em vilões depois de “Esquadrão Suicida”, pelo menos se o estúdio levasse em conta a péssima recepção da crítica, já que no quesito bilheteria houve sucesso. Provavelmente, o sinal verde para “Coringa” só foi dado depois que os executivos leram o roteiro escrito por Todd Phillips e Scott Silver, e percebido que tinham em mãos uma história diferente das habituais adaptações de histórias em quadrinhos.  Ajudou o fato de Martin Scorsese estar envolvido por meio de sua produtora, que nunca antes havia trabalhado em materiais desse tipo.

Coringa 8

Por mais que esses fatores tenham convencido os executivos, contar a origem de um dos vilões mais amados da cultura pop no molde sombrio e adulto proposto por Phillips e Silver era arriscado no quesito financeiro. Além disso, é preciso lembrar que as palavras “sombrio” e “adulto” foram proibidas depois do colorido e da infantilização da Marvel. Os homens de negócio devem ter se perguntado: e se tudo der errado? Bom, por sorte, a produção foi aprovada e deu muito certo, chegando ao ponto de vencer o prêmio máximo em um dos festivais de cinema mais importantes do mundo: o Leão de Ouro em Veneza.

“Coringa” segue Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço que não faz rir e um comediante que não sabe contar piadas. Na verdade, é sua figura fracassada que se torna a grande piada. Para piorar, ele ainda possui problemas psicológicos que o impedem de se relacionar e possui uma condição que o faz gargalhar involuntariamente quando se sente pressionado. Fleck só leva pancadas da vida e é empurrado constantemente para o único lugar possível: o crime.

A situação do personagem serve para mostrar o que uma sociedade desigual e injusta pode fazer com mentes perturbadas. O crime surge dessa pressão social, aliada a outros traumas de uma vida miserável. A doença mental é potencializada por esses fatores. “Coringa” possui um viés de crítica social, sem ser político. Ele apenas mostra a degradação causada por uma sociedade voltada ao dinheiro e ao sucesso. Os que não conseguem alcançar a vida tida como ideal, os desafortunados, passam a ser indigentes tratados como escória. São esmagados pela polícia, pelos políticos e pelas classes mais abastadas.

Coringa 6

A direção de Todd Phillips registra em cada plano a transformação desse homem doente e excluído em um criminoso. A câmera começa no chão junto com seu humilhado personagem, até alcançar as alturas no terceiro ato, em uma demonstração de poder, justamente quando Coringa já é um ícone de uma espécie de resistência contra os ricos. Os cidadãos reagem ao ambiente de uma cidade enterrada pelo lixo e infestada de ratos das periferias paupérrimas dos conjuntos habitacionais. Arthur Fleck surge dessa realidade. Ele vive como os ratos, junto com sua mãe doente. A sujeira se acumula das ruas escuras e os becos estão cheios de prostitutas e criminosos, como a Nova York de “Táxi Driver” e “Caminhos Perigosos”, duas das muitas referências.

Mas, toda essa construção narrativa seria subjugada se o grande vilão fosse interpretado por um ator incapaz. Felizmente, Joaquim Phoenix aceitou o papel e agora merece até prêmios de rifas pelo seu esplêndido trabalho. Sua transformação física é impressionante. Magérrimo e com o corpo atrofiado, ele expressa toda a doença de seu personagem. Nas cenas sem camisa, ele se enverga de uma forma bizarra, como se fosse uma criatura invertebrada. Há também os risos que se misturam aos choros, que de início soam patéticos, para depois se tornarem doentios e maléficos.

Coringa se apresenta por meio do talento de Phoenix, que dança e se diverte no caos causado por suas ações. Seu grande inimigo passa a ser o candidato a prefeito de Gothan, Thomas Wayne e sua família. Os Wayne possuem papel importante no desenvolvimento da história, mas Bruce só aparece criança. É clara a intenção de se afastar de um universo compartilhado com o vindouro “Batman”, de Matt Reeves, o que é uma boa notícia para um cinema tão saturado de universos compartilhados. Apesar que seria interessante ver o embate deste Coringa com o Homem Morcego.


Vídeo: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Sinopse
Isolado, intimidado e desconsiderado pela sociedade, o fracassado comediante Arthur Fleck inicia seu caminho como uma mente criminosa após assassinar três homens em pleno metrô. Sua ação inicia um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne é seu maior representante.
Prós
Ótima atuação de Joaquim Phoenix
Direção consistente de Todd Phillips
Roteiro adulto, sem as besteiras típicas de filmes baseados em quadrinhos
Contras
4
Nota
Imagens
Coringa 7
Coringa 6
Coringa 5
Coringa 4
Coringa 3
imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures

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Tags:

BatmanCoringaDramaJoaquin PhoenixQuadrinhos

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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