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Crítica: El Amparo

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Kinha Fonteneles
1 de novembro de 2017 4 Mins Read

23032543 1993052010972713 5503226253577304351 nEm 1988, na cidade de El Amparo, localizada na Venezuela e que faz fronteira com a Colômbia, um grupo de pescadores residentes locais é chamado para fazer um serviço grande, no qual a renda seria ótima. Movidos pelo trabalho, pelo dinheiro, e pela simplicidade de realizar algo notável, 16 homens saem felizes rumo a essa nova perspectiva para suas vidas.

“El Amparo” também é o nome dessa obra tensa, que por sua desenvoltura e contexto histórico ganhou vários prêmios em festivais pelo mundo. Sendo alguns deles o festival San Sebastian Film Festival, AFI Latin American Film Festival e o Miami Film Festival.  E já nesse mar de premiações é que conhecemos mais a fundo essa cidade-quase-vilarejo que alcunha o filme.

O Lugar que é conhecido pela violência dos guerrilheiros colombianos e pela resposta incisiva do exército venezuelano. E é exatamente nessa zona de guerra, que os pescadores são confundidos com inimigos, caindo em uma emboscada nos canais do rio Arauca.

O drama começa exatamente aí. Apenas dois homens saem sobreviventes do ataque, e eles contam apenas com suas esposas, mães e filhos; e um xerife local para provar que não eram guerrilheiros armados, e que não retaliaram o exército provocando o combate. Apenas estavam no lugar errado e na hora errada.

A obra mostra de maneira incisiva como o poder político pode ser tanto uma benesse, como também um dano. A população, maioritariamente feita de pescadores, aposentados e pessoas simples, conta apenas com a sensatez de um delegado que parece ser o mais estudado da região. Com isso, a vida dos dois sobreviventes, que afirmam não ter nada a ver com a guerrilha, se torna um jogo de empurra entre o poder político e vontade do povo.

Gravado mesmo em El Amparo, o filme tem um cenário simples. Casas de pau-a-pique, ou somente no tijolo e cimento; chão de barro, terra batida ou areia. Circundando o rio Arauca, o vilarejo parece ter sido esquecido no tempo. Há a típica praça cercada por um bar onde todos os moradores se juntam, uma delegacia, uma oficina de rede de pesca, uma igrejinha ao fundo, e aquelas mesas de praças que são típicas e clichês de todos os lugares.El Amparo

Casando com esse cenário rústico e pesqueiro, vemos que direção de arte feita por Matías Tikas se jogou no universo ribeirinho para formar um figurino simples e mais realista possível. Com isso, o que encontramos na obra são rostos suados e a pele muito queimada de sol. Roupas surradas, rasgadas pelo excesso de uso e pela falta de oportunidade de algo melhor. Os pés descalços se arrastam pelo solo seco, daquele barro que não vê chuva há tempos. E a poeira levantada parece exaltar as marcas de expressões dessas pessoas esquecidas pelo tempo.

O olhar triste que conduz as mulheres é tão simbólico que leva o expectar sentir as dores que sentem. No entanto, essa tristeza ou melancolia que carregam são usadas como armas. Porque são mulheres fortes. Mulheres que lutam por seus maridos, filhos e irmãos que não sobreviveram ao massacre, e por justiça para aqueles dois sobreviventes que não tem quem olhe legalmente por eles.

Por se tratar de um drama real, o diretor Rober Calzadilla, usou parte das filmagens reais do massacre feita pela impressa para agregar ao filme uma realidade cruel, mas que precisava ser exposta ao mundo. E são nessas imagens, televisionadas sem um tipo de tecnologia high tech, que a população descobre que seus companheiros talvez não voltem mais para suas casas.

Ausente de trilha sonora musical, Andres Levell, incorporou os sons do ambiente ao ritmo do filme. Com isso, durante o longa conseguimos escutar o canto dos pássaros, o carcarejar das galinhas e toda aquela cantoria alegre, dos bêbados do bar. Tudo isso misturado ao motor de barcos, confecção de redes de pesca, e grilos e outros insetos.

“El Amparo” é mais que uma obra política. É um filme-denúncia. Uma realidade onde o Governo não erra (e nem pode!). Afinal, um erro governamental retira o crédito daqueles que fazem parte do alto escalão de uma sociedade. E se condenar dois homens inocentes para aumentar as chances de ser um “governo que não comete injustiças”, bem… que seja feita vossa vontade (ou não!) Além disso, conseguimos observar também o papel que a mídia exerce sobre o povo. Influenciando-o para o bem, ou para o mal. Definitivamente é um filme que merece ser apreciado. Até, talvez, para entender como a nossa própria política funciona. O que venhamos e convenhamos, está muito difícil.

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Política

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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa. Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga. Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida. Ah! É uma nefelibata sem cura.

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