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CríticaFilmes

Crítica: Greta

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
11 de outubro de 2019 3 Mins Read

Design sem nome

Filmes com a temática LGBT+ definitivamente ganharam seu espaço no cinema brasileiro, mesmo com toda a onda conservadora e de censura que domina o país atualmente. São produções importantes para que o público conheça o mundo das lésbicas, dos gays, dos bissexuais, dos travestis, dos transexuais e dos transgêneros, e, com isso, preconceitos sejam exterminados. As histórias contadas por esses filmes são extremamente humanas, com sentimentos à flor da pele. O mais novo exemplar da coleção é “Greta”, dirigido por Armando Praça e protagonizado por Marco Nanini, que fez sucesso na última edição do Cine Ceará, levando os prêmios principais de melhor filme, melhor diretor e melhor ator.

Todas as láureas são justas para “Greta”, afinal, sua coragem em mergulhar na vida de seu protagonista é impressionante. Pedro (Nanini) é uma mulher em um corpo de homem, que procura em boates e bares um parceiro para acabar com a solidão de sua vida. A sua única amiga é a transexual Daniela (Denise Weinberg), que possui pouco tempo de vida por causa de uma doença nos rins. Pedro então conhece Jean (Démick Lopes) um assassino que é ajudado pelo enfermeiro após chegar ao hospital ferido. É aí que começa uma história de amor sincera e melancólica.

Neste romance, Praça escolhe uma estrutura narrativa naturalista, com poucos movimentos de câmera e a predileção pelos planos mortos. Tudo para, evidentemente, emular a vida real. Os planos contemplativos são importantes para captar cada expressão de sofrimento e de prazer. Às vezes, o sofrimento e o prazer se misturaram, e a câmera está sempre lá, sem medo de mostrar os resultados desses sentimentos conflitantes. A câmera também não se move nos momentos de sexo quase explicito e deixa os corpos sempre em primeiro plano. O tempo de cada take é aproveitado ao máximo, para que o espectador perceba o quão lenta é a vida e como é difícil passar por ela. Pode-se dizer que aqueles personagens mais a enfrentam do que a vivem.

Greta 1 2 1Sim, de fato, Pedro usa a fantasia de ser a reencarnação de Greta Garbo como base de enfrentamento aos males de um mundo doente. Ele até pede que seus amantes o chamem pelo nome da musa. É interessante notar que isso também revela uma busca tardia de identidade, pois ele já se encontra na terceira idade. Greta parece estar em sua essência. Ela quer aflorar, o que falta é o amante ideal para adorá-la. Jean é um bom candidato, mas pesa contra ele o fato de ser um criminoso procurado pela polícia. As idas e vindas desse romance podem acabar com a carreira do enfermeiro, no entanto ele está disposto a arriscar.

Quem também arrisca é Marco Nanini, em um papel que poderia assustar um interprete mais conservador. Ele se entrega totalmente, sem pudores, afirmando sua grande categoria de atuação. A sensibilidade no olhar e as alterações da voz grave são alguns dos fatores que fazem com que o espectador perceba as qualidades de um artista que, às vezes, fica preso à dramaturgia televisiva. Como seu personagem, aqui ele se liberta das amarras e entrega sua beleza deslumbrante. “Greta” capta toda essa beleza para falar sobre amor e identidade, sem esquecer da importante discussão sobre as agruras de um grupo de pessoas que ainda sofre para achar seu lugar na sociedade.


Imagem e vídeo: Divulgação/Segredo Filmes/Pandora Filmes

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43ª Mostra SPCinemaCinema Nacional

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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