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CríticaFilmes

Crítica: Human Flow – Não existe lar se não há para onde ir

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
28 de outubro de 2017 3 Mins Read

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Durante as duas horas de projeção de “Human Flow – Não existe lar se não há para onde ir”, Ai Weiwei mostra o voo livre de aves migratórias. A sua câmera as filma fazendo um paralelo com os seres humanos no solo, os que se mantém presos em territórios temporários. Naquele contexto, esses humanos não fazem parte de nenhum país. Fogem das intermináveis guerras, da fome e da morte. Eles não são como as aves, tiveram sua liberdade usurpada.

O diretor chinês visita lugares que recebem milhões de imigrantes, mostrando um cenário desumano e que só tende a piorar. O número de pessoas que fogem de seus países de origem em busca de uma vida melhor cresce todos os anos. A Europa, que é o destino mais comum delas, já estuda não receber mais ninguém, e os que já estão por lá permanecem no limbo dos campos de refugiados, que mais parecem campos de concentração.

O roteiro de “Human Flow” é sutil em mostrar a vida difícil de quem espera por ajuda. A câmera não se intromete naquelas histórias, ela apenas registra os fatos. Algumas vezes há perguntas diretas feitas pelo diretor, que também se deixa filmar várias vezes (ele interage com os refugiados, entrando no seu dia a dia e nos seu costumes), mas tudo flui naturalmente como um documentário puro. A inserção de legendas é necessária para que a plateia fique a par das estatísticas grandiosas desse problema global.

Mesmo sendo imparcial, o filme possui ares de denúncia nas suas entrelinhas. A Europa é mostrada como a grande vilã, aquela que paga para que os refugiados sejam enviados para outros lugares. As falas vazias de representantes de países poderosos, e a repercussão na mídia ganham espaço e deixam clara a intenção em mostrar que poucos realmente se importam com as crianças, mulheres e homens que perdem sua dignidade e transformam-se praticamente em sub-humanos.

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A fotografia é bela mesmo se tratando de um documentário. As analogias empregadas pelos enquadramentos são certeiras em mostrar as intenções dos realizadores. Uma delas é quando um plano geral mostra pessoas amontoadas dentro de uma espécie de jaula, esperando para passar na catraca de controle do que parece ser um posto de imigração. Elas estão espremidas nas barras, parecendo animais indo ao abate. Há também sequências filmadas por drones, que sobrevoam os campos de refugiados fazendo-os parecer grandes formigueiros. As cenas na África trazem pessoas vagando sem rumo em meio às cortinas de areia; em ambientes em que a vida está quase no fim. Cadáveres esquecidos no deserto são filmados em primeiro plano, assim como rostos aos prantos diante da barbárie.

Vivendo em Berlim, por causa de atritos com o governo chinês, Weiwei também se considera um refugiado, e talvez por isso ele consiga tanto sucesso em mostrar esse mundo que muitos ignoram. O pessimismo é sim o sentimento mais presente durante a projeção. Talvez não haja esperança de um futuro melhor se as fronteiras não forem extintas e os muros derrubados. Afinal, o planeta pertence a todos os seres humanos e não podemos ser privados do direito de possuí-lo.

* Filme assistido na 41ª Mostra de Cinema de São Paulo. A Data de estreia está agendada para 16 de novembro no Brasil.

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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