Crítica: A batalha dos vegetais

Abobrinhas inteligentes

Filmes de animação há muito deixaram de ser interessantes apenas para o público infantil. Há, inclusive, muitos elementos neles, como imagens e referências, que talvez passem despercebidos pelas crianças e até mesmo por adultos desatentos, mas que para os detalhistas contam como uma atração à parte. “A batalha dos vegetais”, longa estrelado pelos personagens Wallace e Gromit, criados por Nick Park (há outros filmes com a dupla: três curtas realizados entre 1989 e 1995), é um prato cheio para quem é observador, mas também para quem busca uma diversão com bom roteiro e elementos visuais atraentes.

O evento mais importante do ano, um concurso de vegetais gigantes, está ameaçado por uma praga: coelhos que devoram as plantações. Wallace e seu cão fiel Gromit – bem mais inteligente que o dono – trabalham em dupla combatendo esse problema de forma humanitária, aprisionando os coelhos e os mantendo em cativeiro até que a competição aconteça. Dado a realizar experimentos científicos, Wallace (dublado por Peter Sallis) constrói uma engenhoca chamada “manipulador mental”, com a qual tenta fazer com que os coelhos se desinteressem por vegetais e ele mesmo se desinteresse por queijo, vício responsável pelo progressivo aumento de sua cintura. Mas algo dá errado e ele se transforma no “coelhosomem” em noites de lua cheia (o título original faz referência ao monstro – a tradução literal seria “A maldição do coelhosomem”).

O filme mistura momentos de suspense e ação muito bem dosados. O roteiro foi escrito por quatro profissionais: Nick Park, Steve Box (também diretores), Bob Baker e Mark Burton. Embora seja possível encontrar alguns furos, a história é tão envolvente que passam a ter pouca importância. A trilha sonora de Julian Nott tem papel fundamental na atmosfera do longa, que vai do suspense à aventura com bastante ação. O uso da câmera também contribui fortemente nas cenas de suspense. Há uma referência explícita à história de Frankenstein, uma espécie de paródia da cena do laboratório, em que o luar é refletido em placas através da abertura na claraboia. Alusões também são feitas ao Incrível Hulk e King Kong. Podemos dizer que o clima de “terror” segue também a linha dos antigos filmes do gênero.
A criatividade é um dos pontos altos desta animação filmada em stop motion. Já na abertura, apenas com a câmera passeando para cima e para baixo pelas paredes da casa da dupla, onde estão várias fotografias, entendemos, sem que seja necessária uma única palavra, a relação entre Wallace e Gromit ao longo dos anos. Detalhes como os desenhos nos vitrais da estufa do vigário, ou nos vestidos que compõem o figurino de Lady Tottington (interpretada por Helena Bonham Carter), e imagens que se encaixam de forma a insinuar que ela é do bem enquanto seu insistente cortejador, Victor Quartermaine (Ralph Fiennes), é do mal são uma diversão à parte para quem tiver o olho treinado para percebê-los.

O trabalho levou cinco anos para ser realizado pelos estúdios Aardman. É comum que filmes de animação envolvam um longo tempo de produção. O saldo é positivo: as expressões dos personagens são ótimas, especialmente as reações de Gromit. No curioso mundo da fantasia, ele é um cachorro que não fala, mas dirige uma van (!), e apenas através do olhar e do gestual se comunica com seu dono. A decoração da mansão de Lady Tottington segue o estilo britânico e na casa de Wallace e Gromit não faltam engenhocas para que comecem o dia sem desperdiçar um minuto sequer. Reparem na inscrição da caixa de papelão que aparece mais para o final da história: uma piada divertida que só faz sentido em língua inglesa. Vale a pena consultar o dicionário, se preciso for, e rir mais um pouquinho.


Neuza Rodrigues

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