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CríticaFilmes

Crítica: Jackie

Avatar de Convidado Especial
Convidado Especial
7 de março de 2017 5 Mins Read
A história sendo contada por outros olhos

17191014 1659037581057316 1615024077720605582 nRecontar fatos históricos sob a perspectiva de outros envolvidos, de forma direta ou não, normalmente cria um material original e interessante. É o caso, por exemplo, dos spin-offs que estão se tornando uma constância em séries de ficção televisiva de enorme audiência e clamor popular. O filme “Jackie”, trata-se da situação traumática vivida pela primeira dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy Onassis (Natalie Portman), no ano de 1963. Contando os quatro dias subsequentes à morte do então presidente, John Fitzgerald Kennedy (Caspar Phillipson), durante uma visita política na cidade de Dallas, Texas.

É importante começar falando sobre a atuação de Natalie Portman que, por esse papel, foi indicada ao “Oscar” como Melhor Atriz, perdendo, é claro, para Emma Stone, por sua performance em “La La Land – Cantando Estações”. A sua dramática atuação é exigida durante todo o filme, poucas são as cenas em que há sorrisos ou alguma expressão mais tranquila. Ainda assim, sua interpretação como Jacqueline é muito semelhante à verdadeira. Muitas críticas são direcionadas à sua forma de atuar, classificada como “forçada” ou “caricata demais”. Basta assistir vídeos da época para perceber que a verdadeira Jackie era uma mulher singular. Isso, por sua forma de falar, com seu sotaque característico, expressões faciais e de movimentação. Portman consegue desenvolver muito bem o papel, é verdade que isso não acontece durante todo o longa, mas nada que seja perceptível de forma excessiva.

O filme é sobre Jacqueline, mesmo com  todas as circunstâncias ocorridas no plano macro, a história continua sendo sobre ela. A transformação desses acontecimentos para uma narrativa dramática sólida estão na qualidade interpretativa do diretor, o chileno Pablo Larraín. O histórico da sua filmografia compreende duas produções com temática política, “No” e “Neruda”. Com duas linhas temporais diferentes, por vezes chegando em três, a narrativa segue um rumo consistente, em nenhum momento lento o suficiente para distrair o espectador.

Primeiramente, o futuro, deixando claro que a história vai ser recontada a partir de um momento específico, e será este o ponto principal. Neste caso, em uma entrevista para o jornalista Theodore H. White (Billy Crudup, Spotlight), da revista Life, após uma semana da tragédia. Em seu primeiro retrocesso temporal, é mostrado a famosa visita guiada através da Casa Branca, na qual, Jackie é conduzida pelos cômodos da residência presidencial. Fazendo um paralelo entre os bastidores e a própria gravação em um estilo documental. Estamos diante de um recado direto: os fatos serão contados da forma mais verossímil possível. Também percebe-se isso em alguns trechos da conversa de Jackie com Theodore, na qual ela deixa claro para seu interlocutor de que apenas a verdade sobre como Kennedy deveria ser lembrada.

O ponto forte de Jackie, como obra, sem dúvida fica por conta do roteiro de Noah Oppenhaim (“Divergente: Convergente”, “Maze Runner – Correr ou Morrer”). Além da elaboração de um enredo original, por cima de uma história já contada, e tendo como personagem principal uma mulher diretamente ligada ao centro daquele ocorrido, o ritmo dos acontecimentos é perfeitamente sincronizado. Essas diferentes linhas temporais prosseguem, porém, sempre alternando entre si, ao ponto que a narrativa avance sem pressa.

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Toda a burocracia que a personagem precisa enfrentar também faz parte dos acontecimentos de fundo, eles se tornam os conflitos mais estressantes, contudo, não é o principal. O que interessa, na verdade, é o seu desenvolvimento como personagem, diretamente ligado bem como, cada um desses conflitos são ultrapassados. A pressa da equipe presidencial em empossar o novo presidente, dentro de um avião, com todos ao lado do caixão. Como contar para os próprios filhos de que não verão mais seu pai? Deixando sempre nas entrelinhas as questões políticas, que naturalmente sucederam-se, como a posse prematura de “Lyndon B. Johnson” (John Carroll Lynch, Ted 2), como novo presidente dos Estados Unidos, e o legado que ela pretende deixar para o mundo em torno da figura de John F. Kennedy. Vários dos ocorridos são milimetricamente encenados, sempre com o foco na interpretação de Portman, mesmo que a reação dela não fosse o mais chamativo naquele momento.

Existe um pequeno esforço para que a personagem da atriz absorva toda a atenção na tela, além da própria atuação, a escolha da direção para um estilo de fotografia informal, abusando do uso de close ups, e voltas em 180º e 360º da câmera durante alguns momentos específicos. Isso não é um grande problema. A estrutura do roteiro e direção em todos os seus atos são atraentes, ofuscando os detalhes e focando diretamente nas atuações e diálogos.

Vale uma menção importantíssima para Peter Sarsgaard (“Sete Homens e Um Destino”), que interpreta o irmão de Kennedy, Bobby. Ele serve como um alívio para Jackie durante os momentos mais dramáticos, um modo de mostrar o abalo emocional pela visão de outros familiares, as consequências na relação entre todos e como são afetados. A curiosidade maior do filme, todavia, coerente, fica por conta da interpretação de Caspar Phillipson como John Kennedy. Embora ele apareça muito pouco em tela, a sua semelhança é surpreendentemente chamativa. A questão física ajuda bastante, mas a função da maquiagem e do figurino para compor o personagem ficou sensacional.

Tanto no filme quanto nesta crítica, a palavra “história” aparece muitas vezes, e não por acidente ou lapsos de repetições. “Jackie” acusa uma preocupação por um legado, questionando muitas vezes sobre “o que poderia ter sido feito?”, “poderíamos ter feito muito mais”, também contrariando algumas decisões de Kennedy durante o mandato. Essa é a reflexão que persegue a personagem durante aqueles dias, não bastando a sua própria luta pessoal. Ela sofre por questões que talvez não estejam mais ao seu alcance, visto sua preocupação durante toda a entrevista com o jornalista, que se segue por boa parte do filme. “Jackie” é sobre uma mulher, esposa e mãe. Acima de tudo, ela precisa provar que a história é muito maior do que o próprio acontecimento. Um filme íntimo, sobre uma personagem singular, dentro de um universo muito maior, e ela tem noção disso. Uma personagem inteligente, e isso cria um enorme significado em atuações dessa proporção.

O filme estreou nos cinemas brasileiros em 2 de fevereiro, assista ao trailer:


Por Guilherme Santos

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Billy CrudupNatalie Portman

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2 Comments

  1. Avatar de Inajara Inajara disse:
    7 de março de 2017 às 15:48

    Olá! Bom, ainda não vi este filme mas acho que seria mais merecido Natalie ganhar do que Emma Stone… Não é fácil entrar em um papel de uma mulher tão icônica como a Jackie… Ainda mais representá-la em um dos momentos mais difíceis de sua história. Esse filme está no topo da lista dos que tenho que ver (já que Logan saiu ontem quando fui no cinema rsrsrs)

    bjs

    http://www.vintageandgeek.com.br

    Responder
    1. Avatar de Guilherme Santos Guilherme Santos disse:
      9 de março de 2017 às 19:04

      Tudo bem Inajara? Nunca vamos saber exatamente o que aconteceu com a verdadeira Jacqueline, ela faleceu em 1994. Mas, certamente a interpretação da Natalie Portman está incrível neste filme, admito que a minha torcida durante o Oscar foi para Isabelle Huppert (Elle). Trate de assistir logo “Jackie” e depois comenta aqui tudo que achou sobre. Abraço!

      Responder

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