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CríticaFilmes

Crítica: Melhores Amigos

Convidado Especial
25 de julho de 2017 3 Mins Read
Sobre crianças e seus problemas de adultos

330628.jpg r 1920 1080 f jpg q xÉ muito fácil encontrarmos filmes que tentam retratar situações aparentemente cotidianas da vida, para apenas criar um personagem forte e distante da própria história, jogando na tela um esboço de realidade sem drama ou contestações. O que assistimos em “Melhores Amigos” (Little Men) agrega um pouco de todas as qualidades necessárias para uma produção até certo ponto simples, transcorrer uma história contada do ponto de vista de um personagem específico, mas conseguindo abordar todos os outros lados sem nenhum tipo de interferência para o desenvolvimento de ninguém.

Quando duas famílias distintas se conhecem e começam a conviver após uma recente perda, amizades são feitas ao mesmo tempo que conflitos também fazem parte da história. Theo Taplitz interpreta Jake, um menino introvertido que passa a maior parte do dia criando desenhos. Ele nos é apresentado da melhor forma possível, enquanto seus colegas de classe infernizam a sala de aula, ele está quieto e desenhando.

Embora o nome do filme em português seja “Melhores Amigos”, na tradução livre de “Little Men” temos “pequenos homens” como um significado talvez até mais relevante para a narrativa. Quando Jake conhece Tony (Michael Barbieri), a sua adolescência parece fazer um pouco mais de sentido tendo alguém para dividir literalmente cada momento. A sintonia entre os dois meninos é perfeita, cada um reflete sob a forma como foi criado. Jake vem de uma família com condições financeiras boas, que é mantida pelo trabalho da mãe como psicanalista. Já Tony é mais humilde, com uma estrutura familiar muito diferente comparada com a de Jake, o que é o suficiente para que os conflitos apareçam.

158190.jpg r 1920 1080 f jpg q x

Conflitos à parte, a mentalidade de cada personagem seja ele adulto ou criança, passa por transformações de acordo com cada experiência. Assim é com a relação entre Jake e Tony, e também entre os pais de cada um, pois é neste conflito específico que todos são moldados durante o filme. Em dado momento é perceptível que os problemas iminentes são de ordem burocrática, e são necessários para que cada família siga em frente. 

“Little Men” é a junção de um processo lento da progressão de sua história, porque em vários momentos ela deixa de lado uma sequência para focar em situações únicas de cada personagem, com a intenção de que aquele momento será importante apenas para ele e não necessariamente para o avanço da narrativa. E é nisto que o filme é bom, na inteligência do diretor e roteirista Ira Sachs de fornecer para o espectador informações importantes para todo o contexto, mesmo sendo elas feitas de forma clara e honesta, porém extremamente bonitas e dramáticas. Ao mesmo tempo que a experiência de assistir ao filme continua sendo imersiva ao acompanharmos esses momentos solitários que antes poderiam ser apenas de Jake, mas percebemos que ali todos possuem seus próprios anseios.

Em um aspecto geral “Little Men” é de uma qualidade singular, com um roteiro forte nas interações entre os personagens, isso dito de uma forma alheia a história. E o que é motivo de orgulho para quem assistir ao filme aqui no Brasil, é que parte da equipe é brasileira. Sim, o roteiro de Ira Sachs é co-escrito com Mauricio Zacharias e também tem Affonso Gonçalves na montagem. Com passagem pelo festival de Sundance, “Little Men” certamente está entre as produções que podem almejar uma visibilidade muito maior do que a de apenas figurar nas exibições de festivais.


Por Guilherme Santos

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