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Crítica

Crítica: Mudbound – Lágrimas Sobre O Mississippi

A temporada de premiações de Hollywood não serve somente para a entrega de estatuetas de ouro: ela é também um modo de destacar produções que provavelmente não seriam tão divulgadas de outra maneira. O público, por sua vez, é rápido em taxar diversos desses filmes com a tenebrosa nomenclatura “oscar bait”, que apesar de pejorativa, não é um atestado de baixa qualidade. Como exemplo disso, surge “Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi”, um drama histórico que, enquanto seu status como um longa arquitetado para concorrer ao Oscar é questionável, a sua qualidade não é.

Realizado por diversas produtoras pequenas, “Mudbound” teve seu potencial reconhecido pela Netflix, que o distribuiu (em território estadunidense) não só pela plataforma de streaming, como também nos cinemas, mas somente por tempo o suficiente para validar a sua “candidatura” ao Oscar. Essa aposta pagou quando o filme foi indicado para quatro categorias da premiação, incluindo a primeira indicação de uma mulher em fotografia.

A trama, baseada no livro homônimo de Hillary Jordan, se passa nos anos 40, no estado norte-americano do Mississippi, quando Henry (Jason Clarke) e Laura McAllan (Carey Mulligan) se mudam para uma fazenda que compraram em uma área rural pacata com seus familiares. Nessas terras vivem os Jackson, cabeceados por Hap (Rob Morgan) e Florence (Mary J. Blige) uma família negra que cuida do local por gerações, trabalhando para quem quer que sejam os donos. Logo, tensões entre os dois clãs começam surgir, culminando quando Jamie McAllan (Garrett Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell), que lutavam na Segunda Guerra Mundial, retornam para casa e formam uma amizade que é má vista por conta do racismo predominante na região.

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Envolta em guerra e questões raciais, a temática do filme é delicada, e pode facilmente se sobressair na trama de forma não natural, o que, felizmente, não é o caso. Nas mãos de Dee Rees, “Mudbound” é crível e sútil, mas também brutal quando precisa, e tecnicamente impressionante. Apesar de pesado em diálogos e monólogos, a diretora também deixa a imagem falar por si só quando necessário – como um plano de Ronsel retornando para casa, em seu uniforme militar, cheio de medalhas, confinado a parte de trás de um ônibus destinada, com um aviso, para “pessoas de cor”.

A história é amarrada também por uma montagem sagaz, que conecta bem as cenas das duas famílias, traçando paralelos quando transita entre as situações semelhantes em que se encontram, mas mostrando o modo diferente como se comportam. O mesmo também é realizado entre a trama na fazenda e na Segunda Guerra, que são equiparadas de acordo com o emocional dos personagens, sendo o maior exemplo os cortes entre Ronsel, em seu pior momento na batalha, e seu pai sofrendo um acidente que o deixa confinado e cama e impossibilitado de trabalhar o campo.

Tudo isso é apresentado através de uma fotografia admirável, que não cai nos clichês em sépia ou dessaturados de filmes de época. Ao invés disso, a diretora de fotografia Rachel Morrison busca representar a realidade local, mostrando a beleza da área rural ocasionalmente, mas se focando mais em tons turvos, com a lama e a chuva presentes quase como uma entidade.

A parte técnica vigorosa complementa o roteiro que, apesar de alguns problemas de adaptação, é bem estruturado. O mais reparável no script, de início, é a quantidade de cenas com voice-overs, realizados por vários personagens. Essas narrações são ótimas para desenvolver suas personalidades, porém, ficam cansativas rápido e deixam bem transparente que se trata de uma adaptação de livro que poderia ter sido feita com mais sutileza.

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Tendo dito isso, o ponto forte do roteiro é justamente o seu desenvolvimento de personagens, conseguindo focar a história em um grupo de sete pessoas e dando o espaço necessário para cada uma delas crescer e até subvertendo o que se espera de algumas. Por exemplo, Henry McAllan, a principio, parece ser um “pai de família” decente, mas vai se demostrando sua personalidade egoísta e apática aos poucos, através de uma atitude passivo-agressiva.

Esse desenvolvimento é fruto também de um elenco de qualidade. Garrett Hedlund e Jason Mitchell simulam perfeitamente o estresse pós-traumático de seus personagens, e é notável a diferença entre suas interpretações antes e depois da guerra. Rob Morgan, conhecido por seus papeis mais cômicos em séries como “Stranger Things” e “Demolidor”, surpreende com a complexidade com qual faz Hap Jackson, e Mary J. Blige, indicada ao Oscar pela sua performance, apesar de mais contida, transmite toda a preocupação e empatia de Florence Jackson de forma bem natural. A única atuação que se perde em meio à produção é a de Carey Mulligan, mas isso se deve ao modo como a personagem é escrita, como a genérica “dama benevolente” de dramas históricos (com os quais Mulligan já está bem acostumada).

Mudbound”, por fim, apresenta não só uma questão racial, mas também é sobre a reintegração de veteranos de guerra na sociedade, e mesmo a história se passando nos anos 40, são discussões ainda atuais. A produção pode até ser encarada como um “oscar bait”, mas isso não nega a sua execução competente, sua mensagem importante e, acima de tudo, que é um bom filme.

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Publicitário formado no Rio de Janeiro, tem mais hobbies e ideias do que consegue administrar. Apaixonado por cinema e música, com um foco em filmes de terror trash e bandas de heavy metal obscuras. Atualmente também fala das trasheiras que assiste em seu canal do Youtube, "Trasheira Violenta".

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