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CríticaFilmes

Crítica: O Rastro

Avatar de Rita Constantino
Rita Constantino
8 de maio de 2017 3 Mins Read

o rastro 11Um hospital mal-assombrado no Rio de Janeiro. Um terror que nasce de um problema social. Um mistério a ser solucionado. Em um primeiro olhar, “O Rastro” parece ter o necessário para ser uma experiência promissora. Pena que entre uma boa premissa e um filme de qualidade, existe um abismo, que no caso dessa nova aposta do cinema nacional, recursos ultrapassados e abordagem piegas contribuem para uma queda nada bonita de se ver.

Dirigida por J.C Feyer, nessa coprodução Brasil e Estados Unidos somos conduzidos à história de João (Rafael Cardoso), um médico que trabalha para a Secretaria de Saúde do estado do Rio, que recebe a missão de fechar o hospital onde prestou residência, uma antiga casa de saúde, que por falta de estrutura, há anos não funciona como deveria. Responsável pela transferência dos pacientes, a situação se complica quando no processo uma paciente internada de última hora, a menina Júlia (Natália Guedes), desaparece. Obcecado em encontrar o paradeiro da garota, o rapaz descobre que algo estranho acontecia naquele local, o que vai não só colocar sua sanidade em risco, como também a sua relação com Leila (Leandra Leal), sua esposa, que está à espera do primeiro filho do casal.

É fato. Existe coragem em investir em um gênero até então pouco explorado pelo cinema “comercial” brasileiro, o que faz o projeto ganhar pontos e atrair interesse quase que imediato para si – ano passado tivemos o competente “Mate-me, Por Favor”, mas como outros filmes da categoria no Brasil, não teve apelo ao público. Entretanto, o resultado não é nada memorável. Ainda que ancore a trama em questões que dizem respeito à nossa realidade – a precariedade da saúde pública, vulnerabilizada pela corrupção –, em vez de aproveitar as possibilidades do terror, o longa limita-se a reproduzir seus clichês e cacoetes, caindo na espiral de filmes medíocres que saem aos montes todo ano no exterior.

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Mesmo que bem-sucedida em criar uma atmosfera claustrofóbica – amparada pela fotografia sombria de Gustavo Hadba – com o uso de planos fechados e a profundidade de campo pequena, a direção de Feyer peca ao se agarrar a truques desgastados. O mal uso do jumpscare aqui reina: movimento inesperado durante diálogo? Barulho estridente para acompanhar. Mão batendo no vidro da porta da ambulância? Barulho estridente para acompanhar. Praticamente todos os aparecimentos de espírito? Grito de acompanhamento. Uma das cenas finais do filme não perde nada para aqueles vídeos de susto que viralizaram no começo dos anos 2000. Aparentemente, os realizadores se esqueceram que foi há, pelo menos, uns 15 anos que as pessoas ainda se entretinham com “Susto na Montanha”.

Os problemas não param por aí. O roteiro, escrito à quatro mãos por Beatriz Menela e André Pereira, é ambicioso, mas não dá conta do que se propõe sem parecer superficial e, em alguns momentos, cafona. Subvertendo o horror de origem sobrenatural para mostrar que o que provoca medo de verdade é o sistema de saúde e as práticas escusas dos que trabalham por trás dos bastidores, a crítica feita, que segue a grande reviravolta da trama, nunca é trabalhada com substância.

Apostando no julgamento moral, quando descobrimos parte dos mistérios, por exemplo, o filho de uma das personagens envolvidas fica gravemente doente. A questão é que, até então, filho nenhum havia sido mencionado, soando apenas como um recurso desesperado com o objetivo de puni-la pelos seus atos; fazer o “feitiço se virar contra o feiticeiro”. O resultado é preguiçoso e a forma como é feita não escapa da pieguice, que parece dominar o tom do terceiro ato. O que se repete na última cena do filme: a situação final é tão batida, que só resta constrangimento ao sair da sala do cinema.

Com dois primeiros atos interessantes e um último que põe tudo a perder, “O Rastro” não se salva nem com seu trabalho de design de produção, bem-sucedido em conceber um hospital macabro em terras cariocas, nem com o talento de seus protagonistas – subaproveitada, Leandra Leal só assume a narrativa no ponto mais desastroso. Não é possível dizer se estamos diante de uma onda de produção de filmes de terror no Brasil, mas se esse é o caminho, tomara que os diretores entendam que, por incrível que pareça, é preciso de mais sutileza para provocar medo. Às vezes silêncio e sugestão bastam.

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Tags:

Cinema NacionalLeandra LealTerror

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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