Ao ser batizada com um nome ocidental, Setsuko (Shinobu Terajimi) vê que pode ser alguém que não ela mesma. Estudar um novo idioma, mesmo que despretensiosamente, já era uma meio de mudança, assim como a peruca loira barata que usou pela primeira vez. Nenhum dos dois, porém, tinha a força do novo nome: Lucy. Tão forte que estampa o primeiro longa-metragem de Atsuko Hirayanagi, “Oh Lucy!”, um estudo de personagem agridoce, que, através da vida de sua protagonista, pensa sobre solidão, o abismo do cotidiano e os caminhos tortuosos da autodescoberta.

Sozinha, Setsuko é uma mulher de meia-idade que vive em seu apartamento minúsculo abarrotado de roupas, objetos inúteis e embalagens vazias de comida. Mesmo estado das gavetas da sua mesa no escritório em que trabalha, ambiente que não suporta não só por ter que prestar um serviço burocrático, mas por ser obrigada a aturar colegas de trabalho falsos e bajuladores. A rotina, como areia movediça, a engole e quando já está soterrada até o pescoço, sua sobrinha, Mika (Shioli Kutsuna), aparece com o pode ser a oportunidade para desenterrá-la: assumir sua matrícula em um curso de inglês que não oferece reembolso para alunos desistentes.

A tia decide ajudar a menina e fazer as aulas, mas o que encontra não é nada do esperado. Mais com cara de stripclub do que escola de idiomas, a instituição oferece métodos pouco ortodoxos de ensino, o que faz com que o caminho de Setsuko cruze com o de John (Josh Hartnett), um jovem professor dos Estados Unidos que ganha a vida ensinando “inglês americano” no Japão, através de abraços, bolas de ping-pong, perucas e rebatizando seus alunos com nomes ocidentais. Entretanto, com as lições excêntricas, algo mais se modifica nela além do novo prenome, Lucy; volta a despontar na mulher, mesmo que ainda tímido, um sentimento de vida. Por isso fica desamparada quando recebe a notícia de que o tutor voltou para a terra natal e, pior, levando sua sobrinha junto. Querendo, então, manter acesa a vitalidade, ela, acompanhada da irmã Ayako (Kaho Minami), vai atrás do casal no Novo Mundo.

Por tratar de trocas culturais, “Oh Lucy!” poderia se limitar em discutir o tragicômico que existe nas diferenças de costumes, mas o roteiro escrito por Hirayanagi e Boris Frumin dá um passo além e canaliza esse elemento para pensar as manifestações de nossa subjetividade. Pequenos detalhes conflitantes entre Oriente e Ocidente, como a forma de dar e receber um abraço ou a cadência da fala, introduzidos de forma inteligente, influenciam na forma como a personagem principal passa a se encarar, não em relação a sua identidade nacional, mas como pessoa. Setsuko é humana e o filme constrói sua persona com sensibilidade.

Sem excessos nas suas ferramentas narrativas, a composição da protagonista é cuidadosa. Com diálogos econômicos e situações efetivas que se equilibram entre o humor e a melancolia, o projeto não precisa de muito para deixar claro suas dores e questões. Ao encarar o espelho entendemos as mudanças que o professor americano provocou nela, assim como em uma risada abafada é visível o escárnio que tem pelos colegas de escritório. Respostas lacônicas e o silêncio pesado também são o suficiente para ficarmos cientes das feridas antigas que marcam a relação da personagem com sua irmã.

Sua riqueza, porém, talvez não existisse sem a competência de Shinobu Terajimi. Carismática, a atriz pinta Setsuko/Lucy como uma mulher arredia, mas que por baixo da autoproteção arde um desejo pela vida. É fascinante como consegue, apenas com o olhar, transmitir incerteza e curiosidade e, durante a transformação de sua personagem, transmutar esses dois sentimentos em ousadia e autoconfiança. Josh Hartnett e Kaho Minami também surpreendem. O ator norte-americano encarna seu professor com improvável doçura, mas que ainda assim não está a prova de decepcionar as pessoas a sua volta, já Minami transita com facilidade entre o drama e a comédia; é uma mãe dura que esconde a vulnerabilidade atrás indiferença.

Muitos tipos habitam “Oh Lucy!” e talvez deles surja o principal acerto do filme de estreia Atsuko Hirayanagi: eles se parecem conosco.


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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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