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CríticaFilmes

Crítica: Os Oito Odiados

Avatar de Daniel Gravelli
Daniel Gravelli
7 de janeiro de 2016 4 Mins Read
Tarantino, referências e cultura pop

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Ao contrário do que muitos possam achar, Tarantino não faz filme para o grande público. Pelo contrário, seus filmes são para um pincelado número de pessoas que gostam do tipo de trabalho desenvolvido por ele. Algo peculiar, que mistura gêneros e sub-gêneros, com diálogos inusitados, repletos de referências politicas e cultura pop.

Como todos já sabem, ele também nunca escondeu a eficácia de seu método para criar seus roteiros. É simples e fácil: eles os “rouba” de outros filmes! E, em “Os oito odiados”, ele não faz diferente e “empresta” momentos importantes de cenas clássicas de filmes como: “O enigma de outro mundo”, de John Carpenter (que curiosamente tinha o próprio Kurt Russel no elenco), no qual vemos um grupo encurralado em um local fechado no meio de uma tempestade de neve; o banho de sangue de “Carrie – A estranha”, de Brian De Palma, enquanto a câmera de aproxima do rosto da personagem que sofre enquanto o liquido escorre em seu rosto e, principalmente, dele mesmo ao regressar com detalhes que marcaram sua carreira no excelente “Cães de Aluguel”. A narrativa estrutural do roteiro e construção de algumas personagens, seus estilos e trejeitos são bem parecidas.

A partir dessa miscelânea, ainda é usado alguns truques que fizeram sucesso no sub-gênero “Spaghetti Western” (Faroeste Espaguete), para que o diretor mais pop do mundo criasse outro filme marcante, audaciosamente, manipulado com reviravoltas, humor ácido e final interessante. A história se passa na região do Wyoming, após o fim da guerra civil americana, e gira em torno de uma prisioneira que está sendo levada por um caçador de recompensas para o enforcamento. Contudo a viagem é interrompida ao longo do caminho, ao encontrarem dois forasteiros que precisam de carona, devido a uma perigosa tempestade que se aproxima. Eles se abrigam em um armazém, junto a outras pessoas, entretanto a tensão aumenta gradativamente entre eles.

A produção, mais uma vez, é impecável e realiza um trabalho belíssimo proporcionando possibilidades únicas ao filme e ao próprio diretor, deixando-o livremente brincar com cada uma das cenas de forma que consiga contar a historia do jeito que realmente deseja.

O roteiro de Quentin Tarantino é inquestionável, no ponto de vista de sua linguagem. A mente do artista consegue colocar em pratica um turbilhão de ideias esplendorosas que só podem ser realizadas, perfeitamente, quando desempenhadas por ele. Tenha visto outros trabalhos que ele assinou somente o roteiro e o resultado não foi tão bom no final. Embora o script de “Os Oito Odiados” seja longo demais, podendo ter sido diminuído em quase 30 minutos, evitando que o filme exagerasse em sequências arrastas, ele ainda consegue trabalhar toda narrativa de forma impressionante, tornando o filme um espetáculo de diálogos bem elaborados, com personagens bastante chamativos e marcantes. Até na desnecessária inserção de uma narração, exageradamente, explicativa no meio da trama, é possível enxergar a sua marca.

oitoodiados

Já como diretor do filme, mesmo que perca a mão em alguns enquadramentos, deixando transparecer uma vontade de brincar com os ângulos, nos premia também com outros planos bem decupados que encaixam perfeitamente na historia que se passa.

A fotografia de Robert Richardson é maravilhosa! Talvez um dos pontos mais altos do filme. Filmado através do formato Ultra 70mm Panasonic, o filme resgatou a textura dos filmes antigos de faroeste, contrastada com a estética “Tarantiniana” e proporcionou algo único. O trabalho do fotógrafo com a composição das cores e tons, permite que o publico tenha uma sensação ainda maior do local onde as cenas se passam e, porque não dizer, do frio sentido pelos personagens. Nesse ponto, também recebem créditos o trabalho deslumbrante da direção de arte e figurino, ao recriarem a época com inteligência, sem perder o toque do “maestro” responsável pelo show.

No elenco, encontramos nomes que já foram usados pelo diretor em outras ocasiões. O que é mais evidente é a química entre todos, que trabalham com uma atuação praticamente uniforme. As ressalvas ficam por conta do excelente Bruce Dern, e da resgatada Jennifer Jason Leigh. O primeiro possui um personagem pequeno, mas trabalha-o com veemência. É possível perceber a sensibilidade de sua atuação através de um simples olhar. Já a segunda, Leigh, reaparece como a personagem feminina principal. Além de ser o alivio comigo, ela acaba fazendo-o de forma genial. Embora, muitos possam acha-la exagerada, sua construção psicológica é fundamental para gerar diferentes emoções nos outros personagens e público. É um misto de amor e ódio por ela.

Deixando para o fim, um dos pontos mais importantes dos filmes de Quentin Tarantino, que completa a alma do artista com maestria, a trilha sonora maravilhosamente criada e conduzida pelo gênio Enio Morricone. A tensão quase apocalíptica trabalhada na música, por vezes, nos coloca em outro filme, de gênero completamente diferente, transformando esse em algo maior do que já é.

Os oito odiados, definitivamente, não é o melhor filme do diretor, embora receba a menção do oitavo filme do mestre, como se fosse o mais importante até agora, entretanto é uma obra de arte sim, por conseguir diversificar tanto e misturar o faroeste com um trash-movie de boa qualidade. Tarantino “explode” na tela um pouco mais do mesmo de sua própria cinematografia, contudo enquanto tiver apropriando-se de boas ideias para construir algumas ainda melhores, faço das minhas palavras uma máxima cientifica dita por Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Produção
8.5
Roteiro
8.9
Direção
9
Elenco
8.5
Fotografia
9
Direção de Arte
8.5
Figurino
8
Trilha sonora
8.9
Reader Rating0 Votes
0
8.5

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Tags:

CinemaQuentin TarantinoTarantino

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é diretor e cofundador da Woo! Magazine, especialista em comunicação, storytelling e cultura. Com mais de 30 anos de experiência no mercado cultural como diretor, produtor, ator e roteirista, traz para a Woo! um olhar único sobre a arte e seu potencial de conexão humana. Escreve sobre entretenimento, comportamento e tudo que movimenta o cenário cultural brasileiro.

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