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CríticaFilmes

Crítica: Por trás do céu

Erika Kohler
30 de março de 2017 3 Mins Read

IMG 1256“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.”

Essa conhecida frase de Sheakespeare, dita em “Hamlet”, pode resumir muito bem a ideia principal do filme “Por trás do céu”, do jovem cineasta paulista Caio Soh.

Adaptado da peça teatral homônima, também concebida por Caio, o longa fala sobre os sonhos de uma mulher que deseja conhecer o que há além das nuvens e dos limites de sua remota vida no meio do sertão paraibano.

Aparecida, personagem vivida pela atriz Nathalia Dill, divide um casebre com o marido Edivaldo, interpretado por Emilio Orciollo Neto, que fica no topo de um rochedo, em um lugar tomado pela extrema pobreza. Mas mesmo dentro dessa existência sofrida, ela segue movida por sonhos e esperanças e nunca desistiu de sair dali para conhecer a cidade. Dentro da realidade difícil que a cerca, ela consegue viver uma fábula, construindo objetos lúdicos a partir das sucatas que Edivaldo leva todos os dias. A terra e o clima são bastante áridos, mas sua imaginação é muito fértil!

Enquanto isso, seu marido, que apesar de parecer sempre querer agradá-la, leva uma vida amargurada por uma tragédia do passado e se opõe às ideias sonhadoras da mulher. Ao menor sinal de um início de conversa de Aparecida, ele dá as costas e faz questão de mostrar que está longe de concordar com seus devaneios.

Aos poucos, o motivo do isolamento do casal vai sendo revelado. Através de momentos de flashback, o público começa a entender que lembranças do passado estão mais presentes do que nunca e insistem em ficar para interromper o pacato cotidiano da vida de Aparecida e Edivaldo.

Em um elenco formado por cariocas e paulistas, que arriscam um sotaque nordestino, quem sai na frente é o recifense legítimo, Renato Góes, que, com toda a naturalidade, dá vida ao personagem cômico Micuim, amigo de longa data do casal. Ele chega da cidade trazendo presentes um tanto quanto inusitados, como uma garrafa de água do mar, chocolate e também uma revista. Tudo totalmente desconhecido para nossos habitantes do sertão, mas que eles, claro, amaram!

Para completar o quarteto de protagonistas, Paula Burlamaqui faz Verônica, uma prostituta desgarrada, que, fugida do seu cafetão, se junta ao grupo na tentativa de trazer algum movimento à trama.

IMG 1246

“Por trás do céu” foi filmado no Lajedo de São Mateus, na Paraíba, um cenário natural lindo, que oferece toda a magnitude de uma aridez cinematográfica da Região. Inspirado pela cultura e tradição tipicamente nordestinos, o longa tenta, em seu enredo e estética, usar uma narrativa para revelar um nordeste em uma história delicada sobre sonhos e esperança. Tudo isso nos é repassado através dos olhos admiradores do diretor Caio Soh, que, com um currículo onde a música e o teatro também passeiam, tem essa receita bem frequente em sua filmografia.

A direção de arte, assinada por Ana Isaura e Kennedy Mariano, é de muita delicadeza. A casinha cheia de enfeites, a porta de um carro que simula uma entrada improvisada, junto com tantos outros objetos de cena, trazem o realismo fantástico que o roteiro investe.

O filme cativa por seu visual. Toda a beleza e poesia em forma de imagem nos remete à literatura de cordel. O olhar do diretor de fotografia, Azul Serra, traz toda essa magia deslumbrante. Ao mesmo que consegue dar mais destaque à beleza sublime do lugar, mostra também algo em comum em todos os personagens: a solidão.

“Por trás do céu” tem uma maneira peculiar de abordar diversos assuntos em comum e atuais não só no sertão, mas em toda e qualquer região. Conduzido como drama, parece arrastado em alguns momentos, dando a sensação inclusive de que algumas cenas não são necessárias. Ainda assim, em alguns momentos, apresenta diálogos mais leves e divertidos, permitindo agradáveis momentos de comédia. É um filme que te convida a transitar pelas delícias da imaginação do mundo das fábulas e também pela dura realidade da vida no sertão.

 

 

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9.6
7.5

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Tags:

Cinema Nacional

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Erika Kohler

Jornalista (com diploma), escritora metida a cronista e decoradora. Não necessariamente nessa ordem. É uma artista múltipla! Tem a arte no DNA e por isso é amante do mundo das artes. De todas as formas: Cênicas, Visuais e Plásticas. Carioca, já foi rata de praia, mas hoje prefere o inverno. É gateira de carteirinha e apaixonada por pinguins. Os livros fazem parte da sua vida e estão sempre por perto. Talvez tenha nascido no século errado porque ama o Vintage e o retrô. Adora assistir filmes e séries, sempre acompanhada por um baldão de pipoca. Torce para encontrar com o gato da Alice, pra ele indicar a estrada dos tijolinhos amarelos, que vai direto para a Fantástica Fábrica de Chocolate!!

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