Crítica: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Em 1999, chegava aos cinemas um filme de ficção científica que se tonaria um marco nesse gênero: “Matrix”! Podemos citar ao menos dois principais motivos para esse merecido destaque. Primeiro, o storyline, era fortemente embasado em conceitos filosóficos como os arquétipos de C. G. Yung e o hiper-realismo de Baudrillard, entre outros. Em segundo lugar, o longa das irmãs Wachowski trouxe recursos e câmeras totalmente inovadores na indústria cinematográfica.

Depois disso, muitos filmes tentaram imitar a estética de “Matrix”, ou mesmo os recursos de câmera, mas, sem conceitos fortes por trás das histórias. Finalmente podemos dizer que chega às telas um concorrente à altura: “A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell”.

Para quem ainda não conhece, a obra de Shirow Masamunesaiu inicialmente em 1989, como uma série de mangá futurista. Em 1995, teve seu primeiro anime, e posteriormente, algumas séries de TV e longas de animação. Este Live-Action do diretor Rupert Sanders, preserva a rica mitologia original dos animes e inaugura uma estética que explora intensamente os efeitos visuais, misturando cores vivas e contrastantes com um design tipicamente cyberpunk.

A trama se passa em New Port City, uma cidade fictícia no Japão de 2029, onde a tecnologia atingiu níveis elevadíssimos, permitindo que os seres humanos tenham partes de seus corpos aperfeiçoados com peças cibernéticas. Apesar de quase toda a humanidade ter se tornado ciborgue, seus “Ghosts”, são preservados, ou seja, as almas das pessoas onde ficam registrados os sentimentos e emoções. Com isso, não tardam a aparecerem locais de aperfeiçoamento clandestinos, redes de espionagens e ataques terroristas que conseguem hackear informações pessoais e até almas de indivíduos pouco protegidos.

Após um ataque terrorista com tiros e explosões, Mira Killian (Scarlett Johansson), teve seu corpo seriamente ferido, portanto, seu cérebro foi transplantado para um corpo cibernético num complexo procedimento. Intitulado, Projeto 2571, e coordenado pela Dra. Ouelet (Juliette Binoche), a serviço da Hanka Robotics, esse foi o primeiro aperfeiçoamento bem sucedido de cérebro transplantado para um corpo totalmente sintético.

Uma vez que a Hanka Robotics atua em parceria com o governo japonês, seu CEO Sr. Cutler (Peter Ferdinando), decide enviar a ciborgue com poderes especiais para a Seção 9, um esquadrão de elite da polícia que combate o cyberterrorismo. É dessa forma, que nasce a Major, a qual irá trabalhar ao lado de seu parceiro Batou (Pilou Asbæk,) para investigar os crimes cometidos por um novo e perigoso hacker conhecido como Hideo Kuze (Michael Pitt).

Ainda fazem parte da Seção 9, o Chefe Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), o qual desfruta de forte influência junto a políticos e grandes empresários, além de Saito (Yutaka Izumihara), o melhor sniper do esquadrão; e os agentes internos Togusa (Chin Han) e Ishikawa (Lasarus Ratuere).

Em meio a esse contexto tecnológico futurista, a Major vive em dilemas constantes entre fragmentos de lembranças e seu corpo artificial. A hiper-realidade de seu cotidiano se choca com a ausência de sentimentos e memórias de seu Ghost. É como se a sua humanidade estivesse soterrada por baixo de chips e peças cibernéticas.


Esse mix de tecnologia trans-humanista e os aspectos psicológicos dos personagens é que compõe a rica mitologia deste universo. Nesse sentido, o filme explora uma série de metáforas como a telepatia que é um tipo de streaming, e uma espécie de VPN, feita de mentes humanas que o vilão Kuze utiliza para não ser rastreado.

O roteiro de Jonathan Herman, para Ghost in The Shell, propõe uma trama de conspirações políticas sem grandes complexidades, mas, muito eficaz em apresentar esse complicado universo ao público em geral. A direção de fotografia se alterna entre câmeras sempre bem posicionadas, com enquadramentos criativos e travelings alucinantes, totalmente criados por CGI, para exibir a grandiosidade tecnológica de New Port City. Embora contenha algumas boas sequências e ação, estas não se sobrepõe em nenhum momento aos conceitos da saga.

Merecem destaque os sons inusitados criados para representar os ambientes e seres altamente tecnológicos. A trilha sonora contém muito do primeiro anime de 1995, trazendo uma releitura das músicas originais. A direção de arte e os figurinos tiveram alguns momentos, como da gueixa robô e algumas cenas da cidade, mas, de modo geral, foram pouco explorados, embora tivessem à disposição a rica estética oriental.

A Major de Scarlett Johansson ficou bem caracterizada, não só por seus figurinos hiper tecnológicos, mas, também, por movimentos ligeiramente duros ao andar, e mostra suas expressões distantes. Essa caracterização, enfatiza aquela questão das emoções sublimadas pelo corpo sintético. Embora não tenham muitas cenas juntos, a parceria com Pilou Asbæk, parece funcionar bem. A direção de Rupert Sanders, tinha como desafio coordenar os atores em meio a inúmeros  cenários e elementos de cena virtuais. Foi bastante segura e entregou um filme que convence, mesmo com tantos efeitos visuais gerados por CGI.

“A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell”, se propõe a ser uma nova e promissora franquia de ficção científica. Neste primeiro filme temos mais uma apresentação dos personagens e da mitologia do que um mergulho profundo no complexo universo. É natural, afinal a saga é nova aos espectadores ocidentais.

Crítica: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell
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