9 de dezembro de 2019

Em 1999, chegava aos cinemas um filme de ficção científica que se tonaria um marco nesse gênero: “Matrix”! Podemos citar ao menos dois principais motivos para esse merecido destaque. Primeiro, o storyline, era fortemente embasado em conceitos filosóficos como os arquétipos de C. G. Yung e o hiper-realismo de Baudrillard, entre outros. Em segundo lugar, o longa das irmãs Wachowski trouxe recursos e câmeras totalmente inovadores na indústria cinematográfica.

Depois disso, muitos filmes tentaram imitar a estética de “Matrix”, ou mesmo os recursos de câmera, mas, sem conceitos fortes por trás das histórias. Finalmente podemos dizer que chega às telas um concorrente à altura: “A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell”.

Para quem ainda não conhece, a obra de Shirow Masamunesaiu inicialmente em 1989, como uma série de mangá futurista. Em 1995, teve seu primeiro anime, e posteriormente, algumas séries de TV e longas de animação. Este Live-Action do diretor Rupert Sanders, preserva a rica mitologia original dos animes e inaugura uma estética que explora intensamente os efeitos visuais, misturando cores vivas e contrastantes com um design tipicamente cyberpunk.

A trama se passa em New Port City, uma cidade fictícia no Japão de 2029, onde a tecnologia atingiu níveis elevadíssimos, permitindo que os seres humanos tenham partes de seus corpos aperfeiçoados com peças cibernéticas. Apesar de quase toda a humanidade ter se tornado ciborgue, seus “Ghosts”, são preservados, ou seja, as almas das pessoas onde ficam registrados os sentimentos e emoções. Com isso, não tardam a aparecerem locais de aperfeiçoamento clandestinos, redes de espionagens e ataques terroristas que conseguem hackear informações pessoais e até almas de indivíduos pouco protegidos.

Após um ataque terrorista com tiros e explosões, Mira Killian (Scarlett Johansson), teve seu corpo seriamente ferido, portanto, seu cérebro foi transplantado para um corpo cibernético num complexo procedimento. Intitulado, Projeto 2571, e coordenado pela Dra. Ouelet (Juliette Binoche), a serviço da Hanka Robotics, esse foi o primeiro aperfeiçoamento bem sucedido de cérebro transplantado para um corpo totalmente sintético.

Uma vez que a Hanka Robotics atua em parceria com o governo japonês, seu CEO Sr. Cutler (Peter Ferdinando), decide enviar a ciborgue com poderes especiais para a Seção 9, um esquadrão de elite da polícia que combate o cyberterrorismo. É dessa forma, que nasce a Major, a qual irá trabalhar ao lado de seu parceiro Batou (Pilou Asbæk,) para investigar os crimes cometidos por um novo e perigoso hacker conhecido como Hideo Kuze (Michael Pitt).

Ainda fazem parte da Seção 9, o Chefe Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), o qual desfruta de forte influência junto a políticos e grandes empresários, além de Saito (Yutaka Izumihara), o melhor sniper do esquadrão; e os agentes internos Togusa (Chin Han) e Ishikawa (Lasarus Ratuere).

Em meio a esse contexto tecnológico futurista, a Major vive em dilemas constantes entre fragmentos de lembranças e seu corpo artificial. A hiper-realidade de seu cotidiano se choca com a ausência de sentimentos e memórias de seu Ghost. É como se a sua humanidade estivesse soterrada por baixo de chips e peças cibernéticas.


Esse mix de tecnologia trans-humanista e os aspectos psicológicos dos personagens é que compõe a rica mitologia deste universo. Nesse sentido, o filme explora uma série de metáforas como a telepatia que é um tipo de streaming, e uma espécie de VPN, feita de mentes humanas que o vilão Kuze utiliza para não ser rastreado.

O roteiro de Jonathan Herman, para Ghost in The Shell, propõe uma trama de conspirações políticas sem grandes complexidades, mas, muito eficaz em apresentar esse complicado universo ao público em geral. A direção de fotografia se alterna entre câmeras sempre bem posicionadas, com enquadramentos criativos e travelings alucinantes, totalmente criados por CGI, para exibir a grandiosidade tecnológica de New Port City. Embora contenha algumas boas sequências e ação, estas não se sobrepõe em nenhum momento aos conceitos da saga.

Merecem destaque os sons inusitados criados para representar os ambientes e seres altamente tecnológicos. A trilha sonora contém muito do primeiro anime de 1995, trazendo uma releitura das músicas originais. A direção de arte e os figurinos tiveram alguns momentos, como da gueixa robô e algumas cenas da cidade, mas, de modo geral, foram pouco explorados, embora tivessem à disposição a rica estética oriental.

A Major de Scarlett Johansson ficou bem caracterizada, não só por seus figurinos hiper tecnológicos, mas, também, por movimentos ligeiramente duros ao andar, e mostra suas expressões distantes. Essa caracterização, enfatiza aquela questão das emoções sublimadas pelo corpo sintético. Embora não tenham muitas cenas juntos, a parceria com Pilou Asbæk, parece funcionar bem. A direção de Rupert Sanders, tinha como desafio coordenar os atores em meio a inúmeros  cenários e elementos de cena virtuais. Foi bastante segura e entregou um filme que convence, mesmo com tantos efeitos visuais gerados por CGI.

“A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell”, se propõe a ser uma nova e promissora franquia de ficção científica. Neste primeiro filme temos mais uma apresentação dos personagens e da mitologia do que um mergulho profundo no complexo universo. É natural, afinal a saga é nova aos espectadores ocidentais.

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Tercio Strutzel

Tercio Strutzel ama ler, escrever e desenhar histórias em quadrinhos. Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue tempo pra desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo. Também é serial reader de Ficção, Fantasia e Terror e viciado em séries.

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