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CríticaFilmes

Crítica: Sem Fôlego

Luiz Baez
3 de janeiro de 2018 3 Mins Read

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Quando Martin Scorsese anunciou, em 2010, a adaptação do livro infantojuvenil “A Invenção de Hugo Cabret”, crítica e público surpreenderam-se de imediato. A reação justifica-se, antes de tudo, pelo fato de a decisão representar um rumo inesperado na carreira do veterano diretor. Pela primeira vez, faria um filme “que sua filha pudesse ver”, como ele mesmo afirmou em entrevista. Longe de uma simples tentativa de ampliar seu grupo de espectadores, no entanto, a escolha por filmar “Hugo” partiu de uma oportuna percepção do vínculo entre o autor Brian Selznick e o próprio cinema. Scorsese reuniu então, em uma mesma obra, a prestidigitação do pioneiro Georges Meliès e a mais nova tecnologia audiovisual, o 3D. O resultado, uma bela homenagem à arte da luz e da sombra, inspirou outro grande realizador a perceber potencial nas aventuras do ilustrador americano. Em 2015, logo após o sucesso de “Carol”,  Todd Haynes revelou seu novo projeto, “Sem Fôlego” (Wonderstruck).

No roteiro, escrito pelo próprio Selznick a partir do livro homônimo, duas histórias afastadas temporal e espacialmente coexistem. Em uma delas, ambientada em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simmonds) sofre com a intransigência do severo pai em Nova Jérsei. Na outra, meio século depois, um raio cai sobre Gunflint Lake, Minnesota, e atinge o pequeno Ben (Oakes Fegley). Após o acidente, o menino perde a audição e passa, dessa forma, a compartilhar uma característica com sua coprotagonista: a surdez. Para além dessa condição comum, os dois conectam-se também pela vontade de fugir para Nova Iorque. Enquanto a menina quer encontrar sua mãe, a renomada atriz Lilian Mayhem (Julianne Moore), o garoto procura seu pai, com quem nunca teve contato. Onipresente nas narrativas, um misterioso livro resgata a origem dos museus, de maneira análoga à que a personagem de Ben Kingsley faz com os primórdios do cinema em “A Invenção de Hugo Cabret”.

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Na transição da literatura para o audiovisual, Haynes acerta, primeiramente, ao confiar na essência cinematográfica dos contos de Selznick. Talvez por esse motivo tenha optado por dar ao escritor sua primeira oportunidade como roteirista. Scorsese, de outra forma, contratou o experiente John Logan para a função. A crença na natureza imagética dos relatos resulta em uma interessante opção estilística: o filme trata cada núcleo narrativo em conformidade com a cinematografia de seu período histórico. Nas sequências de 1927, adotam-se fotografia em preto e branco, performances não-verbais e trilha musical extradiegética. Há, inclusive, uma cena com jogo de sombras, referência explícita ao expressionismo alemão, estilo em voga na época. O núcleo de 1977, por outro lado, caracteriza-se por fotografia colorida, trilha musical apenas pontual e predomínio dos diálogos.

Diferencia-se também entre os períodos a Nova Iorque traduzida pela câmera do fotógrafo Edward Lachman – indicado ao Oscar por “Carol” e “Longe do Paraíso”. Ao passo que Rose desembarca na cidade dos hiperestímulos, onde qualquer distração pode custar a vida, Ben observa uma metrópole mais plural, no auge da “Era Disco”, porém castigada por um novo problema: a violência urbana. O trabalho conjunto de Lachman e Haynes com o diretor de arte Mark Friedberg – vencedor do Emmy por “Mildred Pierce” – e a figurinista Sandy Powell – vencedora do Oscar por “A Jovem Rainha Vitória”, “O Aviador” e “Shakespeare Apaixonado” – acentua os contrastes já indicados pelo roteiro de Selznick e cria dois complexos cenários urbanos.

Apesar de sua estrutura aparentemente simples, “Sem Fôlego” discute com sucesso temas complexos como preservação da memória, identidade e pertencimento. Muito desse êxito se deve ao comprometimento dos atores. Enquanto a experiente Julianne Moore se desdobra para construir duas distintas personagens – a mãe de Rose e a própria garota quando mais velha -, o elenco infantil surpreende e emociona. Merece destaque a atriz surda Millicent Simmonds, fantástica escolha tanto por seu talento, quanto pelo que significa em termos de representatividade.

*Visto na Mostra 10 anos do Estação NET Gávea. O filme estreia dia 25 de janeiro, quinta-feira.

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Tags:

AventurafamiliaJulianne Moore

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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