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CríticaFilmes

Crítica: Soundtrack

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
6 de julho de 2017 3 Mins Read

584116.jpg r 1920 1080 f jpg q xEm 2006 o curta metragem “Tarantino’s Mind” chamou a atenção dos cinéfilos ao contar uma história simples, baseada em um diálogo entre dois amigos em um bar, os dois são interpretados por Selton Mello e Seu Jorge. Eles discutem a conexão hipotética de todos os filmes de Quentin Tarantino. O pequeno filme conta com diálogos muito bem escritos, que fazem com que acreditemos que todos os filmes do cineasta americano foram pensados como uma única historia desconexa. Nascia aí uma promessa para o cinema brasileiro: o coletivo da 300 ML, que são responsáveis pela direção e pelo roteiro.

Mas, infelizmente, a promessa foi subjugada pela pobre realidade do cinema brasileiro. Os diretores não contaram com apoio para seguirem com suas carreiras promissoras e não conseguiram filmar mais nada durante os dez anos que se seguiram. Finalmente, em 2017, lançam esse “Soundtrack”, que também conta com Selton Mello e Seu Jorge, agora como produtores do longa. O roteiro segue o fotógrafo Cris (Selton Mello) em uma viagem até uma estação de pesquisa polar para realizar um experimento artístico. O intuito é se isolar e tirar selfies que capturem as sensações causadas por uma série de músicas pré-selecionadas. No local, ele conhece o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge), o especialista britânico em aquecimento global Mark (Ralph Ineson), o biólogo chinês Huang (Thomas Chaanhing) e o pesquisador dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran).

O filme compartilha da mesma qualidade de diálogos de “Tarantino’s Mind”. Quase todo falado em inglês, o roteiro consegue leveza mesmo em situações melancólicas e também naturalidade naquelas engendradas pelos personagens durante a convivência difícil na estação cientifica gelada. Selton Mello mostra desenvoltura na atuação em uma língua não nativa, e sensibiliza a plateia com um personagem agridoce, que parece buscar algo que lhe foi usurpado na vida. Seu Jorge serve bem como personagem de apoio ou mesmo como alivio cômico em varias linhas de diálogo em português. Ralph Ineson com seu vozeirão e sotaque britânico, às vezes Lembra seu personagem em “A Bruxa” principalmente nas explosões de raiva e tristeza, mas é tridimensional ao construir um ser que possui a bondade dentro de si, mas é constantemente assolado pela saudade de sua família.

gfqQl86Nt3EsISs5G1HK39VFNCV 1O existencialismo domina a narrativa, os diretores levam Cris a buscar tudo no meio do nada. Ele é coberto pelo branco da neve e da névoa, quase flutua no ar em um ambiente que parece não ter dimensões. Sua experimentação artística é a busca por um sentido, um mínimo de sentimento, a fuga do niilismo. Em vários momentos ele fecha os olhos e sente os objetos em suas mãos, como um cego em busca da essência de tudo que o cerca. A música que serve como trilha sonora para seus autorretratos é o que lhe traz a cumplicidade dos cientistas da base, principalmente de Mark, que percebe que os sons podem proporcionar sensações diversas, fazendo-o vivencia-las quase que de forma real. A direção de fotografia é importante na confecção desse clima. Iluminam-se os cômodos de forma rasa; o branco que vem das janelas é a única luz a entrar e encher o rosto de seus habitantes. O clima claustrofóbico é reforçado pelos planos fechados e a movimentação de câmera discreta. As cores só aparecem em momentos de descontração e felicidade, como no laranja de uma bola de futebol ou na aquarela de um jogo de pesca antigo.

A música diegética, que vem dos aparelhos de Cris, é usada para mergulhar o espectador no mundo da base ártica e também para reforçar o convite à exposição das obras mostradas no filme e que estão disponíveis para o público visitar no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. De acordo com os realizadores, os autorretratos junto com fones de ouvido, trarão ao visitante a trilha sonora exata dos momentos que mostram Cris trabalhando. Na verdade, a arte é criada pelo gaucho Oskar Metsavaht, que é o diretor artístico do filme. É bastante interessante assistir o filme e depois visitar a exposição, pois tudo traz uma boa sensação de realidade e nos torna cúmplices do artista. Claro que não é obrigatório visitar a exposição para ser atingido por tudo que o roteiro pretende transmitir. Basta mergulhar na mente e na vida de Cris, já que, afinal, estamos conectados por tudo aquilo que nos torna humanos

 

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ArteCinemaDramaEstreiaFotografiaRio de JaneiroSão PauloSelton MelloSeu Jorge

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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