Soy una pesadilla disfrazada de sueño” *

Não é barato produzir um longa-metragem. A indústria cinematográfica cresceu ao longo dos anos. E com isso, também sua linha de produção, e seus gastos astronômicos. Então, quando alguém se propõe a fazer algo menos custoso e mais independente, tem que estar ciente de que esse tem que ser “O” filme. Ou senão, pode acabar entrando no malfadado espaço onde ninguém quer ficar.

Pensando justamente nessas questões, foi que o jovem diretor de Santiago de Compostela (Espanha) Carlos Almón, contando com apenas 500 euros no bolso e muitos amigos, se jogou no mundo e produziu – sob muitos favores também – o filme “The Last Witch” (La Última Bruja/ A Última Bruxa). Um terror alternativo, que conta com roteiro e desenvolvimento semelhante ao aclamado “Bruxa de Blair”. E com o companheirismo e produção do roteirista Marcos Fariña.

Em 1619, seis mulheres foram acusadas de bruxaria, em Terrassa, um pequeno povoado localizado em Catalunha, Espanha. Das seis acusadas, cinco morreram. O que teria acontecido com Joana Tay (a última das mulheres)? Ninguém sabia dizer; até o momento, em que três jovens em busca de sucesso e fama com vídeos “virais” resolvem ir a fundo na solução desse mistério. E para “ajudar”, Sandra, uma das pioneiras nessa empreitada dos vídeos, se descobre descendente de um dos torturadores das bruxas.

Além de Sandra, temos mais dois protagonistas. Eduardo, um rapaz jovem com ares de diretor cinematográfico de Hollywood, e Mario, que faz a vez de cameraman, já que é o que mais executa essa função. Formada a tríade em busca do sucesso, eles percorrem Terrassa atrás de pistas do que realmente aconteceu.

Filmado no estilo Found Footage com câmera subjetiva, o close está o tempo inteiro com (e) nos atores. Assim, há ausência – quase sempre – de plano de fundo. Como havíamos mencionado acima, Almón bebeu da mesma fonte que Eduardo Sánchez e Daniel Myrick em a “Bruxa de Blair”, até temática e estilisticamente falando. No entanto, a falta de capital trouxe ao filme alguns problemas.

Fade In e Fade out: os recursos ficaram de fora, e com isso observou-se cortes bruscos de uma cena para outra. Ok! Nós entendemos que isso pode – e talvez seja – proposital. Afinal, atores, correndo de um lado para o outro, com uma câmera na mão, cenas distintas… mas… nossa, fica feio. Até para um filme mais barato. Existem outras maneiras de fazer a mesma coisa, sem que haja essa rispidez de uma ribalta para outra.

Além do mais, a fotografia, por conta da câmera em formato amador, por vezes parecia que estávamos assistindo a uma televisão com sérios problemas com a sua antena. Tudo ficava desfocado o tempo inteiro. E mais uma vez: é proposital? Tudo bem, que seja, mas uma hora e meia de filme assim chega a ser cansativo para vista. Exausto para quem está assistindo.

O mesmo acontecia com o áudio. Com uma trilha sonora mais “natural”, a câmera capturava todos os sons. Assim, se havia uma fala em meio a uma correria, as vozes dos atores ficavam abafadas e quase não entendíamos o que estavam falando. Isso tornou ainda mais fatigante, porque tínhamos que nos concentrar em aonde eles estavam indo, porque estavam indo, qual era o motivo da discussão e porque havia tanto ruído externo no meio do caminho.

O roteiro também deixou um pouco a desejar. É um filme independente, com poucos recursos e muitos apoiadores. E mesmo assim, Almón seguiu para o lugar comum e clichê dos típicos filmes de caça às bruxas. Por que não inovar? Por que não fazer diferente? Mas não. Todos os caminhos levam à uma floresta, ou a uma casa abandonada. Há sons que deveriam ser surpresa, mas não são. Há “fantasmas” que deveriam assustar, mas não assustam. Falta de dinheiro não é sinônimo de falta de criatividade.

Existe, na obra, uma “forçação” de barra para piadas que não tem graça. É como se o filme precisasse daquele momento de leveza, mas ele é um momento que não funciona. E assim, seguimos nessa caçada, sem saber ao certo o que esses três jovens têm em mente.

Erros de continuidade, e objetos que nem o baixo orçamento justifica. Quem é que arma toda uma situação, usa todos os aparatos, mas na hora de ir atrás da bruxa, o recurso utilizado é a lanterna do celular? E desde quando, em casas abandonadas ou no meio da floresta os lençóis usados para cobrir corpos e objetos são de elástico?

No entanto, nem tudo são mazelas. Justamente por não poder ter muitos cenários, os poucos que apareciam eram muito bem explorados e destacados. A cena, onde os jovens estão em casa, arrumando as coisas para saírem em expedição é a que melhor exemplifica isso. Não é um cenário de estúdio pré-montado. É uma casa de verdade. Com todos os detalhes íntimos que uma casa pode ter.

“The Last Witch” é o primeiro longa do diretor Carlos Almón. Que assume ter tido muitos problemas ao longo das gravações. Mas apesar de tudo, é uma obra que mostra até onde a perseverança de uma pessoa pode ir. Acreditar e ter fé pode mover montanhas e fazer filmes.

A obra foi lançada no verão de 2015, e é protagonizado por Paula Pier, Jorge Gallardo e Alfonso Romeo.


* Sou pesadelo disfarçado de sonho.


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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