Crítica: Toni Erdmann

Quando “Toni Erdmann” surgiu em Cannes alguns críticos o descreveram como uma comédia, até relatando casos de risos histéricos durante as projeções do filme. Claro que o humor é relativo, mas não vejo no longa cenas cômicas de fazer gargalhar, no máximo risos de canto de boca. Na verdade, “Toni Erdmann” é um drama que retrata situações cômicas, mas, a comicidade está toda inserida em um contexto existencial e consequentemente social, trazendo mais nervosismo do que humor.

Já na casa dos 60 anos, Winfried Conrad é um professor de música que usa o personagem que dá nome ao filme para fazer comédia em situações onde se sente deslocado ou que são banais em sua visão de mundo. Sua filha é a que mais desperta a necessidade desse personagem aflorar, já que, assim como a maior parte da população do planeta, passa a sua vida preocupando-se com seu trabalho e afazeres, não vivendo uma vida real de fato. Para agravar, ela é funcionária de uma empresa que é especialista em reduzir custos de outras empresas, o que faz várias pessoas perderem seus empregos -maior representação do capitalismo impossível!

A diretora Maren Ade foi aclamada na Alemanha por construir um estilo narrativo que flerta com o surrealismo, ao mesmo tempo que filma de forma realista. Seus planos documentais levam o espectador ao mundo daquelas pessoas, aos dramas usuais de vidas que passam sem que se note. Como Winfried diz em um momento: “Estamos sempre fazendo algo e não vemos a vida passar”. A tristeza nas feições de Winfried é pela constatação de que o sentido da vida está perdido e, incorporando Toni Erdmann, ele tenta reduzir o efeito desse fato ou mesmo se esconder da nova realidade. A tristeza também é evidenciada pela fotografia que é quase apenas preto, branco e cinza, com um teor de desgaste. O que também é monocromático é o figurino dos personagens, que se alia à fotografia em sua falta de vida . As sucessões de planos mortos trazem a sensação de agustia de vida real, ajudando a narrativa em seu propósito. Para, evidentemente, seguir a proposta de realismo do filme, as atuações são deveras contidas, com apenas alguns lapsos de Peter Simonischek, que demonstra com seu Toni Erdmann a capacidade de mudar drasticamente de expressões dentro de um único plano sequência.

Toni Erdemann infiltra-se na vida “organizada” de sua filha e derruba as frágeis estruturas de relacionamentos que ela possui. Ele, com sua peruca e dentadura, vira uma espécie de coadjuvante nas festas ou mesmo no trabalho dela, como se fosse uma lembrança de quão errado as atitudes dela são. Um embate entre duas realidades distintas. O roteiro faz uso de situações cotidianas e de diálogos banais da filha para evidenciar a profundidade existencial do pai, que geralmente não entendo o que as outras pessoas falam, assim com se faz estranho para essas pessoas o seu comportamento e divagações.

No clímax do filme há a sequência da festa na casa da filha de Toni, que é o ponto alto do roteiro. A filha decide receber seus convidados completamente nua, exigindo que os convidados também fiquem. Se despindo de suas roupas ela lança mão de sua atual vida, como se quisesse se livrar de toda as situações que a fizeram chegar àquele ponto; o ponto que Toni tanto desaprova. Toni, em contrapartida, se veste com uma fantasia de uma espécie de monstro peludo, que representa uma entidade encarregada de expulsar espíritos em uma mitologia búlgara. Toni se cobre da cabeça aos pés para construir um abrigo ainda mais sólido e se proteger da vida tóxica da filha e, seguindo a mitologia, expulsar o que lhe faz mal. O abraço entre os dois evidencia a consciência que cada um possui sobre a situação geral. Neste ponto a filha e o pai se complementam, quase se fundem, pois ela percebe a importância que possui na vida dele.

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