Crítica: Unsane

Se alguém voltasse no tempo dissesse para os grandes diretores de outrora que, no futuro, filmes poderão ser gravados utilizando somente um pequeno aparato que guardam nos seus bolsos, a reação dos cineastas provavelmente seria de incredulidade. Porém, é exatamente esse um dos caminhos que o cinema tem iniciado nos últimos anos: o de produções gravadas inteiramente pelo celular. Após o ótimo “Tangerine” de Sean Baker, foi a vez de Steven Soderbergh (“Magic Mike”, “Logan Lucky”,  “Onze Homens e um Segredo”, entre outros) testar essa nova tecnologia em “Unsane”, um longa registrado e editado através de um aplicativo de iPhone 7.

Em “Unsane”, Sawyer Valentini (Claire Foy) é uma mulher que se mudou de cidade para fugir de um stalker, mas que ainda sofre com as repercussões desse caso. Ao buscar ajuda psiquiátrica, ela é coagida a assinar um documento que a mantém internada por uma semana na instituição, situação que só piora quando se convence que um dos enfermeiros (Joshua Leonard) é o seu perseguidor. Sem ter certeza do que é real e do que está só na sua cabeça, Sawyer deve arranjar um modo de fugir do local.

Uma história relativamente simples, que se passa quase toda em apenas uma locação, parece ser o ideal para a proposta de gravar um longa apenas com o celular, mas, mesmo com um roteiro decente, é essa técnica o que mais prejudica o filme. Sem a estrutura de uma câmera regular, a direção de Soderbergh é bem limitada e se mantém estática por quase toda a produção, priorizando os pans ao invés de uma movimentação mais livre. De modo semelhante, a montagem também parece mecânica, sem muita fluidez, como exemplificado por um diálogo interrompido para a inserção nada sutil de um plano detalhe nas mãos de uma personagem.

Esse artifício também prejudica o visual. Se passando em um cenário que já é predominantemente bege, a produção tem um agravante tom amarelo-enlameado que além de deixar as sombras escuras demais, dá um ar amador ao longa. A direção de arte, porém, se redime com o bom uso da cor azul, a qual é atribuída uma importância para o antagonista, e por isso também é predominante em cenas nas quais o mesmo está no controle da situação.

Todos esses aspectos são mais chocantes quando se leva em consideração “Tangerine”, que foi igualmente gravado em um iPhone, mas consegue contornar as suas limitações técnicas e usá-las ao seu favor. “Unsane”, porém, não é bem-sucedido no mesmo e, às vezes, parece mais um projeto de faculdade do que um longa de um diretor veterano, pelo menos no que diz respeito a sua forma.

Entretanto, se o seu visual é pobre, é no roteiro que a produção se destaca. Escrito por Jonathan Bernstein e James Greer, o script desenvolve duas tramas simultaneamente: as práticas ilegais da instituição que resultam na internação de Sawyer e o conflito da protagonista com o seu perseguidor. O modo como ambas são intercaladas resultam em uma construção lenta e, por vezes, tediosa, mas que tem uma conclusão digna da espera.

Se ao início parece que o longa será sobre a dúvida da personagem principal estar louca ou não, essa impressão é extinguida logo no primeiro ato quando suas preocupações se mostram reais. Mas ao mesmo tempo que o roteiro não é sobre loucura desenfreada, ele é sobre como a sanidade é afetada por um stalker, o que é visível na cena que um detetive (interpretado por Matt Damon) diz para Sawyer que ela deve basicamente começar a viver escondida e com medo por conta de seu perseguidor obsessivo.

Argumento esse que é solidificado nas interpretações de Claire Foy e Joshua Leonard. A primeira consegue expressar bem a mistura de desespero, depressão e ódio que a história da personagem pede, enquanto o segundo faz um homem obcecado, que é louco em sua serenidade, e intercala bem momentos explosivos com de fragilidade.

Unsane” é exatamente o que aparenta ser: um longa produzido por um diretor que está testando o que consegue fazer com uma nova tecnologia. Porém, sua técnica precária é injustificável – ainda mais quando se leva em consideração o filme de Sean Baker, lançado três anos antes – e, por mais que tenha bons roteiros e atuações, acaba sendo apenas mediano.

 

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