11 de dezembro de 2019

É impossível escrever sobre “Todo o Dinheiro do Mundo” sem citar Kevin Spacey, por mais que os realizadores o tenham apagado do filme. A má conduta do ator fez com que algo inédito acontecesse na indústria cinematográfica: a exclusão de um astro em um filme já pronto. Ridley Scott gastou dez milhões de dólares acima do orçamento para refilmar todas as cenas de Spacey com Christopher Plummer em um prazo curto, às vésperas com o lançamento. Até já havia uma campanha para a indicação ao Oscar para Spacey, que também foi extinta. O Novo protagonista também ganhou uma indicação ao Oscar pelo seu excelente desempenho, mas será prejudicado por fazer parte de uma produção banal, daquelas esquecíveis com o passar dos anos. Alias, será pior, todos apenas se lembrarão do filme porque tinha em seu elenco um criminoso sexual. Entretanto, não se pode julgar o longa por causa de seus problemas de bastidores, é preciso coloca-los de lado e deixar a arte falar por si só.

Dito isso, o roteiro se apoia em fatos reais para contar a história do bilionário Jean Paul Getty (Plummer), que nos anos 70 possuía a maior fortuna do mundo. Getty era conhecido por não gostar de gastar seu dinheiro e isso foi afirmado quando seu neto John Paul Getty III (Charlie Plummer) é sequestrado e o homem se recusa a pagar o resgate pedido pelos sequestradores, mesmo com os suplícios da mãe do garoto, vivida por uma competente Michelle Williams. Ao invés de pagar, Getty Sênior encarrega o seu homem de confiança para cuidar do caso. O ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg) tem a missão de efetuar o resgate gastando pouco ou mesmo nada. Tudo se complica quando uma orelha do neto é enviada pelo correio. A necessidade de posse intrínseca ao mundo capitalista é bem representada na figura do decrépito bilionário. Só o dinheiro não basta, há a avidez por colecionar obras de arte valiosas que são acumuladas em uma enorme mansão. Roma é o cenário em que a história se passa e, em uma sequencia em que Getty mostra para o neto o coliseu, fica claro o caminho pretendido pelo roteiro. Tudo pertence ao imperador, até mesmo as pessoas.Um dos problemas de “Todo o Dinheiro do Mundo” é que Ridley Scott parece aqueles diretores iniciantes que são contratados por um estúdio apenas para executar o trabalho de marcenaria. Seus planos são desprovidos de inspiração e mesmo a direção de atores é negligenciada, deixando que cada um execute os personagens da maneira que lhes convém (como na atuação extremamente forçada de Romain Duris como um dos sequestradores). A reconstituição dos anos 70 é bem trabalhada, no entanto, não é algo que Hollywood já não tenha mostrado anteriormente. Toda aquela tensão dos filmes de sequestro que poderia ser um ponto forte fica prejudicada por não nos importarmos com o sequestrado e seu sofrimento. De fato, o tema do filme são as atitudes desumanas do avô. O conhecimento prévio da história e seu desfecho (por se tratar de uma história baseada em fatos) também não ajudam na imersão. O ato final é tão anticlímax que é quase impossível não torcer pelos sequestradores, para ver se alguma emoção saí da tela. Desejos de emoção e tensão são apropriados quando tratamos de um cineasta que pariu obras como “Blade Runner”, “Alien” e o mais recente “Perdido em Marte”. É de se imaginar que “Todo o Dinheiro do Mundo” é um produto feito nas férias de alguns meses das superproduções que Scott costuma produzir, e devido ao fracasso recente de uma delas (no caso Alien: Covenant) ele tenha abaixado a cabeça e feito algo mais seguro, porém efêmero.

 

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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