Entre as muitas pesquisas que faço, como hobby, para descobrir novos artistas da música brasileira, eis que, bem no começo dessa nova paixão, entrei em um site que elegia os melhores álbuns nacionais do ano e conheci o som do paulistano Caê Rolfsen. Ele tinha acabado de lançar seu primeiro álbum, foi amor “a primeira escutada”, e até hoje esse CD nunca saiu do meu iPod. Estou sempre cantarolando “Linda”, que fiz uma amiga viciar nessa música também, chorando com “Flores Azuis” e sacudindo a poeira com “No Tambor De Crioula”.
 
Sim, eu sei cantar todas as músicas de “Estação Da Sé”, o primeiro álbum, e confesso que “A Nave De Odé” ainda não me pegou como seu antecessor, mas adoro ouvi-lo. Se você não conhece o som de Caê, agora não terá mais desculpa, pois abaixo deixo os dois álbuns para vocês apreciarem sem moderação alguma.
 
O Caê Rolfsen nasceu em Araraquara, São Paulo, e ainda criança começou a tocar violão e alguns outros instrumentos até começar a compor suas primeiras músicas, aos 13 anos. Durante algum tempo, passou por rodas de sambas e bandas de rock pelas ruas de sua cidade até que um dia foi para Tatuí, estudar violão no Conservatório da cidade. Em 2006 acabou se mudando para a capital paulista, onde graduou em Música pela FASM e estudou composição com Arrigo Barnabé.
Foto: José de Holanda

Foto: José de Holanda

Se os senhores e as senhoritas estão pensando que a trajetória acabou aí e ele já saiu lançando seu debut, estão muito enganados, pois Caê tem uma longa trajetória no mercado musical. Ele acompanhou diversos artistas consagrados da música brasileira, como Elza Soares, Paulinho da Viola e Paulo Moura, e ainda teve seus arranjos gravados por grandes sambistas, como Monarco, Wilson Moreira, Délcio Carvalho, Dona Inah e Fabiana Cozza.
 
Seu envolvimento com o samba lhe rendeu, em 2011, o prêmio de Melhor Álbum de Samba, no XXII Prêmio da Música Brasileira, com disco o “Gafieira São Paulo”, onde foi produtor, diretor musical, arranjador e cantor. Além dessa obra, ele também exerceu as mesmas funções em “Candeia 50 anos” (2005), no SESC Pompéia, e no programa “Mosaicos – Homenagem a Cyro Monteiro”, da TV Cultura (2010).
 
Seu primeiro álbum é minha paixão nos últimos três anos, junto com “Serviço” do Castello Branco. “Estação Sé”, lançado em 2012, foi recebido muito bem pela crítica especializada, arrancando elogios por aqui e no exterior, como no jornal francês Liberation. A urbanização melancólica e bem brasileira presente em suas músicas, também lhe renderam alguns prêmios nacionais. Diga-se de passagem, a regravação do samba “Que Nem a Gente”, é uma das melhores versões que já ouvi.
 
 
Em 2014, assinou a trilha sonora do documentário “Memórias Da EFA”, do premiado diretor Marcelo Machado, e da peça “Notas Para Um Olhar Na Dança”, da São Paulo Companhia de Dança, em 2015.
 
Então, esse ano, ele lançou seu segundo álbum, “A Nave de Odé”, produzido e arranjado por ele mesmo, gravado em seu estúdio. Trazendo ligações entre a música brasileira, africana e jamaicana, a obra mostra um outro lado de Caê, inspirado na figura mitológica do orixá Odé, arqueiro caçador e guardião das matas e da humanidade. Tendo doze músicas, sendo dez autorias, as minhas preferidas são “O Caçador e A Flecha”, “Tão Blue” e “Bim-Bim-Bim”.
 
 
Depois de contar um pouco de sua trajetória, vou falar para vocês que conseguir essa entrevista não foi fácil não, viu. Mas, no meio de sua conturbada agenda, ele tirou um tempinho para responder as perguntas que lhe fiz e aqui está, enfim, nossa entrevista exclusiva com o cantor, compositor e multi-instrumentista Caê Rolfsen!
 
@opauloolivera: Pegando os títulos dos dois CDs, podemos perceber uma necessidade, sub-entendida, de movimentação. O primeiro é um local físico, enquanto o outro é um instrumento onírico. Em ambos encontramos letras que nos remete a diversidade humana, a degradação e o amor de uma forma plural e complementar. Como você enxerga suas obras?
 
Foto: Bel Evangelisti

Foto: Bel Evangelisti

Caê: Interessante a sua observação. O primeiro disco tem esse lance forte com São Paulo, principalmente em algumas canções que tem a ver com a minha vinda do interior pra esse outro cenário urbano com seus personagens cotidianos, misturando o que é real com o imaginário. No segundo, eu parto de uma imagem mais onírica e fantástica, mas para falar muito, também, da nossa realidade e de questões que nos acompanham por toda a vida, como a morte e o amor. Acho que apesar dos títulos indicarem “lugares” diferentes, ambos subvertem no que é real, com o que é surreal, e do nosso imaginário, numa tentativa de dialogar com as coisas que amamos e tememos em nossas vidas, ou no que projetamos e pode estar além delas.

 
@opauloolivera: “A Nave de Odé” foi gravado em seu próprio estúdio com você assinando a produção, as canções e etc. Como estabelece seu processo de criação e composição? Qual é o seu ponto de partida?
 
Caê: Apesar de eu atuar ao longo de todo processo de produção, o meu ponto de partida e a minha essência como artista sempre parte da composição da canção em si. Desde quando comecei a compor, aos 13 anos, a voz e o violão tem sido o meu principal ponto de partida na hora de criar. Algumas canções nascem a partir da poesia e depois eu corro pro instrumento pra musicar; mas na maioria das vezes componho primeiramente a música e depois escrevo a letra, eu mesmo, ou procuro outro parceiro para letrar.
 
@opauloolivera: Existe uma potência absurda de brasilidade em suas músicas, além das influencias afros e latinas. O que você acha da música brasileira hoje?
 
Caê: Acho que a música brasileira atual vive um momento muito fértil, talvez como poucos antes vistos. E pra confirmar isso basta nos atentarmos para a quantidade de artistas bons, em diversos estilos, que lançaram ótimos discos em 2016, por exemplo; Céu, Negro Léo, Baiana System, Iara Rennó, Síntese, Pedro Miranda, Orquestra RumPiLezz e Liniker, só para citar alguns destes.
 
@opauloolivera: Você tem uma longa trajetória, mas existe algum momento marcante na sua carreira que você fala: “Isso foi foda!”?
 
Caê: Com certeza, tem muito “corre” para o bem e para o mal, mas prefiro lembrar apenas alguns bons aqui (risos). Tipo quando fiz um dueto com Elza Soares em um show em 2011. Talvez tenha sido um dos momentos mais emocionantes pra mim.
 
@opauloolivera: Se alguém falace: “Caê to querendo gravar um CD, me lançar como cantor(a)”, qual conselho daria?
 
Caê: Eu diria: Grave logo o disco! Não fique esperando o cara da gravadora te ouvir, um grande empresário te descobrir. “Quero gravar no melhor estúdio com os melhores músicos!”: Corra atrás, se dedique, se inspire em pessoas que você admira e faça esse som acontecer porque a música, pra mim, ainda pode salvar esse mundo.
Foto: José de Holanda

Foto: José de Holanda

@opauloolivera: Se pudesse voltar no tempo, teria algo em sua carreira que você mudaria? Se sim, por quê?
 
Caê: Acho que o erros nos ensinam tanto quanto os acertos, principalmente na música, que é uma área onde a gente aprende muito através do erro, da repetição e da constante busca por renovação, onde não se repetir e experimentar novos lugares artísticos e de si mesmo. Assim como a vida. Então acho que o lance é não ficar remoendo o passado e viver intensamente o presente para fortalecer a nossa arte, o amor e a prosperidade para o nosso futuro.
 
@opauloolivera: Se “Estação da Sé” segue algo mais íntimo e “A Nave de Odé” um potencial desbravador, a meu ver, vou fazer a Marília Gabriela e te pergunto: Caê por Caê?
 
Caê: Aprendendo a me conhecer.
 
Para finalizar nosso MixTape da semana, pedi ao Caê para escolher 7 músicas no qual ele se identifica, o inspira e/ou fez parte de momentos marcantes da sua vida. A seleção está apresentada abaixo com pequenas justificativas para a escolha. Vamos ficando por aqui e a nossa coluna volta no sábado que vem! Obrigado Caê e um cheiro galera, luz “procês”!

“Melodia e letra primorosas.”

“Um clássico de um dos melhores discos de samba brasileiro.”

“Marcou a minha infância, na sala de casa, ouvindo o disco Passarim.”

“Da ordem da beleza e delicadeza, essa canção é um primor.”

“Recito na cama sempre, antes de me deitar. É uma das minhas orações.”

“Abriu a paixão pela guitarra e a cantar em inglês.”

“Cantava todos os dias ninando minha filha.”