É difícil não se criar expectativa quando se trata de Luiz Fernando Carvalho. Depois de “Os Maias”, “Hoje é Dia de Maria” “A Pedra do Reino”, “Capitu” e “Velho Chico”, o diretor volta à TV na adaptação do livro “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum. A partir dos dois capítulos exibidos (a estréia foi na segunda, dia 9) a sensação que fica é de um casamento entre literatura e televisão mais do que satisfatório.

Embora traga elementos presentes em toda a obra do diretor, é com o seu primeiro longa que a minissérie parece conversar diretamente. As semelhanças com “Lavoura Arcaica” não são poucas – a fotografia impressionista, os planos silenciosos, a música e a cultura libanesa, a tragédia familiar – mas não apagam o que “Dois Irmãos” tem de original.

A Manaus dos anos 30 e 40 – seja nas cenas gravadas, ou nas imagens de arquivo exibidas – é repleta de uma nostalgia necessária para a narrativa, mas que não soa piegas. A fotografia fragmentada e impressionista combina com a estrutura do roteiro de Maria Camargo, que não segue uma linearidade específica. Os diálogos, marcados pelo sotaque e vocabulário usado pelo atores, define de maneira importante a identidade dos personagens e da minissérie. Porém, é a trilha sonora – e principalmente as músicas libanesas -, que parece criar o tempo da narrativa.

O elenco das duas primeiras fases, muito bem escolhido, está todo em sintonia com a proposta da direção. Seja nas figuras mais cômicas e caricatas, ou nos momentos mais dramáticos – com destaque para Juliana Paes e Antônio Calloni – as emoções estão sempre à flor da pele. O que poderia soar exagerado, funciona bem. Afinal de contas, “Dois Irmãos” é, como o próprio Hatoum já definiu, uma tragédia. E tragédias são feitas de catarse de sentimentos.

Com ainda oito capítulos pela frente, “Dois Irmãos” teve um começo empolgante, que promete entregar um nível de qualidade acima do comum. Ao que tudo indica, a história de ódio dos gêmeos Yaqub e Omar também terá seu destaque na televisão brasileira.