Estreou hoje (18) no Rio de Janeiro, o documentário “A Ruptura” do diretor Marcos Saboya, com quem conversamos sobre o longa. Ele apresenta com muita honestidade um pouco das origens e caminhos da corrupção no mundo contemporâneo, permeado pela potente interpretação de “Fausto” pela atriz Mariana Lima. Confira a entrevista:
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Amanda Moura: No longa, a corrupção é uma só, mas atravessa as pessoas de diferentes formas. É isso mesmo que o documentário pretende retratar?
Marcos Saboya: Na verdade, ela tem múltiplas origens, gradações e efeitos. O ponto de convergência é a experiência social e politica.
A. M.: Porque a escolha de “Fausto I” para permear os depoimentos?
M.S.: A ideia, baseada em “Fausto” de Goethe, fala sobre a aposta de DEUS com DIABO (corrupção divina?), jogando com a alma “do melhor ser humano”, até a destruição do mesmo e de tudo que ele ama. Fausto: sábio, médico, alquimista e muito mais, em um primeiro momento se corrompeu por amor… Amor pela humanidade… Para salvar em sua vila, bebês que ajudou a nascer, respectivas mães, pessoas que curou, amigos e desconhecidos também.
O Diabo, em razão da aposta com Deus, para provar que o melhor dos homens também era corruptível, lançou a praga (peste negra) sobre a região, levando Fausto ao desespero em tentar salvar pessoas que morriam feito moscas na porta de seu consultório e por todo o vilarejo (Tipo estes últimos nossos 3 anos? Só que em outra escala e ritmo). Após ter vendido a alma, se “corrompendo” por amor, ele [Fausto] toma gosto e sai aprontando todas… sem amor, mesmo.
A. M.: Como foi a escolha da atriz Mariana Lima para viver essa dualidade Deus-Diabo em “Fausto”?
M.S.: O trabalho da Mariana sempre me impressionou, pela verdade, intensidade e elegância. Queria algo meio expressionista e contido, mas ao mesmo tempo, que transitasse harmonicamente com o elemento cênico central: um muro de flores, toras e galhos, representando mulheres, falos e perfurações pela violência do homem. O patético permeia este diálogo, que virou monólogo. Mariana é atemporal. A imagino fazendo peças de 1930, até coisas futuristas… Clássica.

A.M.: A corrupção parece inevitável. Mas você reuniu um grupo de pessoas incríveis que trabalham contra ela. Você acredita que é possível manter a esperança num futuro com menos corrupção?
M.S.: Sim… Esta é a melhor mensagem deste filme. Existe a renovação e aprimoramento. A maior dificuldade é a velocidade do crescimento demográfico x educação. Mas…“Acredito nos seres humanos, porque eles morrem.” (Maxime Vangelier). A humanidade melhora e luta contra os psicopatas como Trump, Putin e mesmo Bolsonaro (um raro exemplar de psicopata burro), que sempre estarão presentes, mas podem ser contidos. Emparedados…
Não pode haver tolerância internacional com os crimes de Estado. A anexação da Criméia em 2014, por Putin deveria ter gerado sanções imediatas, mas o ocidente continuou conversando com o gangster russo…Investindo, se corrompendo…e o resultado: Guerra da Ucrânia. Uma covardia histórica. Brutal e inadmissível.
As ondas morais vem e vão… As religiões, os sistemas políticos, modismos deformados por informações, etc. O irracional primitivo sempre vai existir, mas nem tudo dele é ruim. O amor é algo positivo deste quadro.
A.M.: E como foi trabalhar “A Ruptura” num período de ascensão de ideais fascistas no Brasil?
M.S.: Foi triste ver estes boçais assumirem o desgoverno do Brasil. A ciência, cultura, educação, meio ambiente…As cafajestadas aos sons da horda vociferando MIIITOOO. Na verdade , MIIITOOO dos mitômanos.
Estes, provaram que a burrice é uma forma de inteligência. Pequena, perversa e barulhenta.
A.M.: Como você vê a arte de documentar no atual cenário de crise da verdade diante das fake news?
M.S.: As fake news acompanham o humano desde que este aprendeu a se comunicar. Às vezes era uma esperança , que se sabia desesperada…rs. Mas continuada foi… Somos governados física e imaginariamente por informações falsas, que vão sendo adaptadas, renovadas e, uma certa hora, descartadas.
É só procurar pelo cemitério dos Deuses da antiguidade… Quantos deuses estão lá enterrados. Eram adorados até o momento da transição, que leva a adaptação ou esquecimento.
É só entrar em uma igreja, culto, templo, terreiro, etc. Todos os deuses são fakes, todas as religiões, os objetivos das guerras e todas manipulações por medo, raiva, desejo, dinheiro… O que não é fake: as consequências destas informações, na formação e comportamento. A mentira se solidifica no humano.
A.M.: Você tem algum projeto em desenvolvimento que possa compartilhar um pouco conosco?
M.S.: Sim…Tenho vários, para tentar realizar algum… rs. “Pangaea“* é o meu projeto que foi desenhado para a Olimpíada de Tokio 2020, e caiu na questão da Covid (foi cancelado pouco antes da produção), que está sendo cotado para acontecer em um lindo Museu em Berlim. Fala sobre o mesmo solo, mesmo chão, comum a todas as raças e cores, apesar das divisões geográficas que aconteceram. A instalação é feita com terras, galhos e pedras, em suas diversas cores naturais (paletas incríveis) de todos os continentes, em um desenho que representa a época em que o mundo tinha apenas um supercontinente.
*Pangéia ou Pangaea foi o nome dado ao continente que existiu até 200 milhões de anos, durante a era Mesozóica. A palavra origina-se do fato de todos os continentes estarem juntos (Pan) formando um único bloco de terra (Geia).


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