Suspense de Izabel Pakzad, “Garotas Só Querem Vingança” tenta discutir violência, sororidade e liberdade sexual, mas transforma suas personagens em caricaturas difíceis de humanizar
Sexo, drogas, festas e violência se encontram em “Garotas Só Querem Vingança” (“Find Your Friends”), suspense dirigido por Izabel Pakzad que acompanha um grupo de jovens mulheres durante uma noite que rapidamente toma rumos inesperados. Entre o hedonismo e a brutalidade, o longa tenta encontrar uma discussão sobre liberdade, amizade e os limites dessa suposta vida sem amarras. Esta é uma crítica sem spoilers — exporemos apenas os primeiros cinco minutos por questões práticas.
Estamos na Califórnia, especificamente em uma festa em iate que é um completo bacanal. Faz um sol bonito, e nesse ambiente vertiginoso conhecemos o nosso grupo de amigas protagonistas: Amber (Helena Howard), Lavinia (Bella Thorne), Zosia (Zión Moreno), Lola (Chloe Cherry), Maddy (Sophia Ali); parece bastante, mas o longa não vai fazer muita questão que o telespectador se lembre bem de cada uma.
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A primeira sequência dita o tom da maior parte do filme — que se demora bastante para entregar uma virada —, e tece seu fio após Amber trocar olhares com um dos frequentadores da rave praiana: suas colegas — talvez o melhor termo para nos referir a relação entre o grupo — comentam como o homem em questão é bom de cama, como seu membro é enorme, e uma série de comentários que ficam na sua cabeça como, a princípio, jogados.
Amber muda de ideia no ato, o homem não lhe dá ouvidos e tenta forçar uma relação mesmo assim, ao que ela consegue se desvincilhar. Há um quê de melancolia quando a câmera lhe captura em um momento de tanta fragilidade em uma situação em que todos estão curtindo, mas nem a atriz nem a fotografia contribuem para elevar esse subtexto.
O que vem em sequência é, na verdade, também igualmente deprimente. Como típico de vários suspenses, as personagens não se comunicam entre si, então uma sequência de desgraças se deslancha diante das protagonistas enquanto são colocadas umas contra as outras, em especial Amber, que é o bode expiatório de maluca do grupo.

Dirigido pela estadunidense Izabel Pakzad, em dado momento nos pegamos questionando se esse filme não foi idealizado por um homem. O acúmulo de conversas superficiais em sotaque de valley girl e em que cada quatro palavras uma é “pussy” é quase um Cavalo de Troia misógino. Há boa intenção em retratar a falta de redes de apoio/sororidade, ao mesmo tempo que põe na mesa o hedonismo e machismo desses ambientes, mesmo quando sob uma suposta luz de liberdade sexual feminina.
Longe de defender algum papel moralizante de arte — o cinema tem grandes potencialidades que não precisam ficar limitadas ao didatismo, a uma “função social” —, mas é difícil não perceber como “Garotas Só Querem Vingança” reverbera uma onda retrógrada que, nos últimos anos, parece ter encontrado maneiras particulares de se infiltrar até mesmo em discursos que se pretendem progressistas. As personagens são, em alguma medida, punidas por serem “libertinas”. Não necessariamente porque o filme diga isso em voz alta, mas porque sua estrutura dramática parece depender da ideia de que é preciso retirar delas aquilo que as torna, em teoria, livres, inconsequentes e, principalmente, desagradáveis para depois reconstruí-las como figuras dignas de nossa empatia.
Não é preciso que uma obra aprove as atitudes de seus personagens para que eles sejam interessantes, há vários bons contra-exemplos disso. O problema é que o filme parece não saber o que fazer com suas protagonistas enquanto elas são simplesmente… pessoas. Amber, Lavinia, Zosia, Lola e Maddy são apresentadas como um grupo de jovens mulheres que bebem, transam, usam drogas e frequentam festas, mas quase nunca temos tempo suficiente para conhecer suas reais personalidades.

Uma delas, por exemplo, é apresentada casualmente como acadêmica e prestes a seguir para o doutorado, sendo tratada como a mais inteligente do grupo. Veja só: girls just want to have fun, e até uma mulher inteligente, estudiosa e supostamente esclarecida pode se divertir em uma rave (wow!).
A ideia a princípio é boa. Descobrimos migalhas como quem tenta juntar cacos de vidro encontrando detalhes pelo cenário, sem que esses elementos contribuam para compor a personalidade das meninas. Quase não as vemos sóbrias; quase não as vemos conversando sobre qualquer coisa que não seja homens e drogas, e, quando finalmente somos convidados a olhá-las de outra maneira, é muito repentino. Com exceção de Amber, mal é possível diferenciar uma personagem de outra, e não dá nem para apontar um único culpado nesse bololô.
Isso ajuda a tornar a experiência em “Garotas Só Querem Vingança” um tema muito delicado, e no mal sentido. A única forma que a diretora encontra de humanizá-las é através da violência, e da violência extrema. Elas precisam ser “purificadas” para serem gostáveis — ao estilo de Camila (Carolina Dieckmmann) raspando o cabelo em “Laços de Família” —, isso apenas beiraria o amadorismo se não fosse misógino.
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É necessário um mal muito maior, muito mais evidente e quase cartunesco para que elas possam serem dignas de empatia. O contraste é tão grosseiro que a operação dramática fica evidente: não basta que sejam mulheres jovens que tomam decisões ruins; é preciso colocá-las diante de algo tão monstruoso que qualquer julgamento anterior sobre elas se torne moralmente impossível e, para surpresa de todos, nem assim o longa consegue essa “redenção”.
Não há espaço para dúvidas, e se quiséssemos falar de alguma busca por uma visceralidade à, por exemplo, Lars von Trier, para começo de conversa teríamos que debatermos um elemento bom para sustentar a proposta. Poder-se-ia falar que essas escolhas, na verdade, foram um golpe de mestre da diretora em expor como a sociedade tem dificuldade de ver mulheres em posição x, ou que é isso que se consegue quando se trata todos igual lixo, incluindo suas amigas.

Virar a mesa e dizer que esses elementos conferem camadas ao filme é a síntese de “o rei está nu”; é como defender que “Round 6” ser uma contradição ambulante — e rasa — é genial porque esse era, no fim, o objetivo do diretor. Ou que “Cinderela Baiana” é uma joia incompreendida porque trata de temas sensíveis/de vulnerabilidade social. Não deve pesar, claro, ao julgamento, que o filme é uma peneira.
Mesmo sem quiçá perceber a caricatura que constrói, “Garotas Só Querem Vingança” ao fim não consegue entregar tampouco alguma catarse. O filme demora tanto para chegar ao seu ponto de ruptura que, quando ele acontece, já estamos mais conscientes da construção artificial da narrativa do que envolvidos por ela. A resolução é mais gráfica do que simbólica, mais literal do que perturbadora; a própria linguagem sexual que permeia os primeiros três quartos metade do filme acaba encontrando uma tradução visual que soa menos como comentário e mais como uma piada de mau gosto.
Imagem Destacada: Divulgação/Synapse Distribution



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