Em show marcado por desabafo contra a inteligência artificial e superação de dramas pessoais, a cantora britânica levou a neurose crua do sul de Londres ao maior palco do festival fluminense
A chegada de Lola Young ao Rock in Rio 2026 consolida uma das trajetórias mais interessantes e anti-formulaicas da nova cena britânica. Criada no sul de Londres e formada na prestigiosa BRIT School, a cantora e compositora recusa o verniz plastificado das divas pop tradicionais.
Embalada pelo aclamado “This Wasn’t Meant for You Anyway” (2024), e divulgando seu mais recente lançamento, “I’m Only F**king Myself” (2025), Lola Young resgata a tradição das vozes femininas britânicas desfiltradas – alinhando a acidez lírica de Lily Allen, a visceralidade de Amy Winehouse e a urgência do post-punk contemporâneo. Em uma cena pop frequentemente dominada por produções milimetricamente coreografadas e faixas de apoio, sua proposta destaca-se pela crudeza orgânica: uma performance ancorada no sarcasmo, na neurose urbana e em uma entrega vocal que ignora a autoproteção. Tudo isso com apenas 25 anos.
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Superação de hiato e a chegada à Cidade Maravilhosa

Com o Palco Mundo já tomado por fãs e curiosos, além dos pacientes e aguerridos seguidores do Twenty One Pilots plantados na grade, entra em cena essa figura que recusa qualquer convenção de estrelato. O mau tempo esvaziou o espaço, tornando evidente que o Palco Sunset – ou mesmo o festival Lollapalooza – seria um ambiente mais adequado para sua proposta.
A cantora, inclusive, estava confirmada no line-up do Lollapalooza Brasil 2026, mas cancelou sua participação devido a uma pausa na carreira. Após desmaiar no palco do festival All Things Go, em Nova York, em 2025, Lola decidiu interromper a intensa agenda para cuidar da saúde, revelando publicamente sua luta contra o vício em cocaína e o diagnóstico de transtorno esquizoafetivo. Os ares cariocas, no entanto, pareceram fazer bem a ela, que compartilhou diversos registros no Rio de Janeiro nos dias que antecederam o espetáculo.
O contraste do Palco Mundo e a estética punk
Quando as luzes se apagaram e o imenso videowall do Palco Mundo exibiu o nome da cantora moldado pela bandeira do Brasil, Lola iniciou o repertório com a pegada punk de “Wish You Were Dead”. Ostentando um visual característico, uma mistura de cantora de jazz com uma estética punk cuidadosamente desgrenhada, ela passou a atrair a atenção até de quem pretendia usar o horário como intervalo para passear pela Cidade do Rock. Ignorando a chuva e o público reduzido, a artista estabeleceu um diálogo direto e sem filtros, convertendo o palco gigante em uma extensão crua e intimista dos inferninhos do sul de Londres através da conexão singular que a popularizou.
Discurso contra inteligência artificial e honestidade em cena

Apesar de enfrentar falhas pontuais no sistema de som (P.A.), a apresentação manteve o engajamento dos fãs veteranos e dos novos adeptos que se formavam na plateia. Durante a execução da faixa “Spiders”, a cantora emocionou-se ao chorar e discursar contra o avanço das inteligências relacionamentos com IAs na arte, afirmando que nenhuma tecnologia é capaz de reproduzir a emoção de uma performance ao vivo. Sua sensibilidade à flor da pele evidenciava o momento de transição e tratamento. No setlist, a autobiográfica “From Down Here” abordou abertamente o vício e o período de reabilitação pelo qual passou.
Ao vivo, Lola provou que seu tom rouco e sua entrega gutural não são truques de estúdio e que seu apelo transcende o alcance algorítmico do TikTok. Na reta final, ao puxar o hit “Messy”, a britânica superestimou o poder de fogo da faixa ao entregar o refrão para o público como se estivesse em um show próprio ou em um festival indie – obtendo retorno realmente entusiasmado apenas dos iniciados.
Ainda que parte do público veja sua escalação para o Palco Mundo como um erro de casting, Lola Young assinou uma das estreias mais provocativas e eletrizantes da edição, provando que o cinismo e a honestidade continuam a ter espaço nos grandes palcos. Para muitos, contudo, outro detalhe roubou a cena: o estilo do seu guitarrista, de porte atlético, vestindo calça e um top de biquíni no melhor estilo brazilcore.
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Setlist:
- Wish You Were Dead
- Big Brown Eyes
- One Thing
- Conceited
- SAD SOB STORY! 🙂
- From Down Here
- d£aler
- Walk All Over You
- Post Sex Clarity
- SPIDERS
- Not Like That Anymore
- Messy
Lola Young | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DiegoPadilha)


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