Balançou, escorregou e o salto quebrou

Hoje o cinema nacional recebe mais um exemplar que, por coincidência, chega ao mercado no dia seguinte a votação do Impeachment no Senado. Depois de ser adiado algumas vezes, “Mulheres no Poder” vem com um humor popular para agradar ao público.

A trama se desenvolve em cerca de 24 horas em Brasília, onde a Senadora corrupta, Maria Pilar (Dira Paes) vê uma grande oportunidade de ganhos na licitação do projeto Brasil Brasileiro. Após entrar em contato com a ministra Ivone Feitosa (Stella Miranda) em busca de maiores informações, Maria é orientada a conversar com a secretária-executiva do ministério, Madalena (Milena Contrucci Jamel), para acertar uma armação. Mal sabe ela, que muitas reviravoltas estão por vir.

O roteiro que começou a ser escrito em 2009 pelo próprio diretor do longa, Gustavo Acioli, apresenta um humor tão popular e pastelão quanto o antigo Zorra Total. Não que não possa te fazer rir, pois isso com certeza será possível, a dificuldade será aceitar se está rindo por realmente ser engraçado, por ser deplorável o comportamento de representantes do povo, ainda que ficcionais, ou se por se sentir envergonhado pela “realidade” que presencia. Como diretor, não há nada de incrível a ser citado, o filme apresenta um ar de caseiro e independente, mesmo que Gustavo já tenha quatro filmes no currículo.

Em um cenário inexistente, onde homens são a minoria e a masculinidade é excluída, todos os projetos aprovados são em prol da mulher, o inverso do que acontece em nossa realidade, estabelecendo uma ótima proposta de representação do empoderamento feminino, ainda que exacerbado. O ponto que poderia se permear como uma ótima iniciativa feminista, se perde quando uma mulher começa a chamar a outra de vagabunda, vaca e outros nomes pejorativos.

A Direção de Arte apresenta-se tão fraca e sem “pulso” que o figurino passa, mas caracterização (cabelo e maquiagem) são tão mal feitos que nem o salão mais pobrezinho teria coragem de apresentar um resultado como o que vimos na tela.

Se fossemos resumir o filme é uma única coisa, diríamos: Dira Paes. Sim, a atriz e produtora do longa, mais uma vez se faz presente e mostra o porquê de ser uma das melhores atrizes brasileiras, ainda que em um fraco projeto. Stella Miranda continua sendo a Dona Álvara de “Toma Lá, Dá Cá” e só. As pequenas participações de Totia Meirelles e Elisa Lucinda, nada agregam para o engrandecimento do projeto, mesmo que ambas estejam ok em suas personagens. Nem acima, nem abaixo da média. O destaque inesperado é de João Velho, como o capacho, “faz tudo”, George. Ele tem algumas das melhores cenas do longa, ao lado da protagonista de Dira.

Um ponto super válido para o filme é a trilha sonora composta por Lucas Marcier. Agitada e com uma pegada eletrônica, as melodias fogem da habitual trilha brasileira, onde o samba e o funk estão presentes em grande parte das obras lançadas nos últimos anos.

É importante esclarecer que a grande questão do filme são as piadas feitas para que o próprio público enxergue o quão ignorante ele é quando escolhe seu candidato. Temos um personagem que não sabe cantar o Hino Nacional, como 90% da população brasileira, temos dinheiro debaixo da roupa, temos esquemas sórdidos que vemos todos os dias nos jornais e ficamos sentados esperando a justiça ser feita, temos a falta de interesse dos representantes do povo em projetos de melhorias e por aí vai.

“Mulheres no Poder” é um retrato ficcional, leve e bem-humorado do cotidiano político em Brasilia, numa realidade invertida para mostrar o quanto temos que avaliar nosso poder de escolha. Se fosse pra dar uma dica sobre como “assistir” ao filme, daríamos a seguinte: Atenção aos detalhes, isso acontece todo dia e você, que colocou seu candidato ali, nem sabe.


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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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1 thought on “Crítica – Mulheres no Poder

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