Série ainda inédita no Brasil é poderosa e envolvente

Em algum momento de nossas vidas, sonhamos com um amor de cinema. Aquele arrebatador, que surge quando um casal se conhece e se apaixona perdidamente.

As imagens do casal superando obstáculos para ficarem juntos tomou conta de nossas retinas desde a época das projeções em celuloide preto e branca.

É bom quando eles encontram pela primeira vez, quando dão o primeiro beijo, quando vão para a cama. É horrível quando eles brigam, se separam e ficam longe um do outro. É reconfortante quando eles voltam e se amam novamente.

Garoto conhece garota. Garota conhece garoto. Garoto conhece garoto. Garota conhece garota. Os roteiristas de hoje possuem muitas opções para sair do tradicional “boy meets girl”, e nós acompanhamos igualmente apaixonados todas elas.

Essa nossa ânsia por histórias românticas vem do fato de que talvez nunca consigamos amar da forma como as pessoas se amam nos filmes. Talvez iremos navegar para sempre nas fantasias cinematográficas, como míseros mortais que somos. Ou será que o próprio cinema é culpado de nos iludir?

Provavelmente, vivemos em um mundo tão cruel e obscuro que precisamos consumir aos prantos as maravilhas românticas projetadas na tela. Mas, o cinema é um espelho da realidade, e ultimamente ele vem contando histórias de amor um tanto quando amargas ou mesmo agridoces, como em “500 dias com Ela”, “Me Chame Pelo Seu Nome” e na trilogia formada por “Antes do Amanhecer”, “Antes do por do Sol” e “Antes da Meia Noite”. É só lembrar deles e voltar a e se emocionar.

Essas são histórias com um pé na realidade, que tentam supostamente mostrar relacionamentos parecidos aos daqueles que assistem na sala escura. Bom, então a esse grupo podemos adicionar “Normal People”, que originalmente é uma série, mas que considero como uma peça cinematográfica de, aproximadamente, seis horas de duração. E, sem dúvida, uma das melhores do gênero da última década.

Imagem: Divulgação/BBC

Em “Normal People”, a garota conhece o garoto desde a infância, já que a mãe do garoto é empregada doméstica na mansão dos pais da garota. Ela é Marianne, ele é Connell, e estudam na mesma escola interiorana. Ele é tímido e retraído, ela também. Ele é popular, apesar da timidez. Ela é impopular pela forma arrogante como trata as pessoas, que a maltratam de diferentes formas. Em sua mansão, o irmão e a mãe também não gostam dela. Já ele é amado pela mãe solteira.

Os dois passam a se amar e a namorar secretamente. São ótimos juntos. O tesão é avassalador quando fazem sexo. Estão, de fato, apaixonados, o problema é que eles não conseguem externar os sentimentos um para o outro. A falta de comunicação acaba por separá-los várias vezes durante a trama.

A escola termina.  A mulher Marianne, e o homem Connell vão para a mesma universidade em Dublin. Se encontram novamente. O amor, a paixão e o tesão que sentem são os mesmos, assim como a falta de comunicação. Eles namoram outras pessoas e tentam seguir a vida, mas o magnetismo que seus corpos exalam os une intensamente.

“Intensidade” é uma palavra que pode ser usada na análise de qualquer um dos doze episódios de “Normal People”, e isso se deve às atuações de seus protagonistas Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal, e à direção de Lenny Abrahamson (“O Quarto de Jack”) e Hettie Macdonald. Os atores entregam tudo o que possuem para criarem personagens complexos e encantadores. Quando estão juntos em cena, as sensações que transmitem ao espectador variam entre tensão, angústia, cumplicidade, tristeza e alegria. A química entre eles é inegável e importante para a obra.

Já os diretores aproveitam o talento de seus intérpretes com sabedoria. A câmera cola nos corpos. Os planos exalam significados nas câmeras que parecem esmagar corpos deitados, ou transfigurá-los de ponta cabeça. Os gestos são destacados, tirando a necessidade de qualquer diálogo em momentos chave, afinal, conhecemos intimamente Marianne e Connell. Abrahamson e Macdonald dirigem, cada um, seis episódios, e colocam essa série irlandesa no hall das obras-primas audiovisuais da atualidade.

Ao término “Normal People”, fica um sentimento de solidão. Queremos ver mais da vida daquele casal – é improvável, pois, neste momento, uma segunda temporada está fora dos planos  – o que vai ser deles após os acontecimentos da temporada? Comprar o livro de Sally Rooney, no qual a série se baseou, vira uma opção para tentar descobrir algo que não tenha entrado na série e que revele o destino de Marianne e Connel, no entanto, aquelas belas imagens recém-impressas em nossas memórias não podem ser substituídas.

Vídeo e imagens: Divulgação/BBC


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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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