Todos conhecemos o Oscar. Ele é aquele prêmio que é dado aos melhores em suas áreas. Melhor filme, melhor ator, melhor roteiro e por aí vai. Ou deveria ser dado. Muita gente deixou de vê-lo como um prêmio de verdade. Inclusive, já teve algumas acusações bem sérias em relação ao mesmo: umas pessoas garantem que não há legitimidade, outras que as pessoas que votam não viram todos os indicados.

Acredito que para os brasileiros o maior exemplo de que não podemos levar o prêmio a sério é quando a Gwyneth Paltrow venceu a categoria de Melhor Atriz por Shakespeare Apaixonado. Vamos começar a conversa dizendo que podemos até achar o filme bom, mas não é tão bom assim para disputar melhor categoria de qualquer coisa. Agora, Paltrow vencer melhor atriz de Fernanda Montenegro e Meryl Streep? O que?!

E quando digo “o que” é mais um “como é que é?” do que qualquer coisa. Sejamos bem honestos: Paltrow nunca foi uma excelente atriz e sua carreira nunca deslanchou. Esse prêmio não serviu para ela ir além e, ganhar por esse papel, não foi realmente uma grande coisa. Streep continua sendo a melhor atriz americana e Fernanda continua sendo a dona de tudo no Brasil.

Colocar o Oscar como parâmetro deveria ser esquecido. Muita gente passou pela vida artística sem ganhar um reconhecimento sequer pela Academia. E muitos foram reconhecidos pela produção errada. Por exemplo: Leonardo DiCaprio. Em 2016 finalmente ele teve seu direito a um prêmio, mas deveria ter ganhado um há muito tempo. Ele teve atuações bem melhores em outros filmes, coisas que deveriam ter tido muito mais destaque. Outros atores com menos tempo e até menos talentosos que DiCaprio receberam reconhecimento por praticamente coisa alguma.

Não vou citar nomes, mas há alguns atores por ai que tiveram um bom momento e basicamente vivem apenas eles em cena. Ganharam um prêmio por ter em todos os personagens o mesmo trejeito, a fala afetada, uma construção caricata. Às vezes algo funciona melhor e pronto: conquistou quem vota. DiCaprio tem atuações refinadas, pensadas para cada personagem. Tem carisma para os ladrões que fazem dinheiro, loucura para os que sofrem de TOC, maldade para os que precisam de alguma, e talento para cada desafio. Não tem trejeitos que passam para todos os seus personagens, cada um é único.

Mas, pior que ser tardiamente e erroneamente reconhecido é não ser e não ter espaço dentro do prêmio. Sim, estou falando da premiação de 2016 que nenhuma categoria principal foi preenchida por algum ator negro. Sim, nós já sabemos que não há espaço para eles em Hollywood. Nós já sabemos que antes de um negro ser escolhido para uma superprodução todos os brancos já foram descartados. Não é uma questão de cota. E muito menos de mimimi.

Só que também não é de talento. Afinal, por que tantos atores merecem mas Lupita Nyong’o, Forest Whitaker, ou Denzel Washington (que está indicado esse ano, mas suas chances de ganhar são bem poucas) têm tão pouco reconhecimento e outros nunca realmente tiveram? Por que atores negros são indicados depois que houve um estardalhaço pela Academia não ter dado nenhuma indicação no ano anterior? Sim, nós sabemos por que, porém nos contentamos com os prêmios de consolação que nos é dado.

Eu também não vou entrar no pormenor que é muito pior de indicar e afagar pessoas que deveriam estar atrás das grades. Em tempos em que há lutas enormes contra o preconceito, contra o racismo, contra a misoginia e o machismo, ainda vemos pessoas serem reconhecidas quando o passado os condena. Se o caro leitor não souber de quem eu estou falando, sugiro que leia sobre cada um dos atores que concorrem a melhor ator esse ano. E, não, falar que devemos separar o joio do trigo, nesse caso é apenas baixar a cabeça e fechar os olhos para o que muitos fizeram de errado.

Arte é algo que deve ser lindo, puro, quase imaculado. Não para ser conivente com pessoas que cometeram um crime. A Academia do Oscar que tantas vezes deixou de indicar pessoas que realmente mereciam, e pior, deixou de premia-las, é conivente com tudo que com tanto esforço temos tentado deixar pra trás. É realmente esse prêmio que devemos colocar quando queremos dizer que algo é bom?