Música boa e  (voto) consciente
 
No domingo, 30 de outubro, quase 100 cidades brasileiras, entre municípios e capitais, terão que votar no segundo turno das eleições para prefeito. Dada as circunstancias do cenário político atual, eis que me veio a ideia de criar um Mix que, naturalmente, correlaciono as músicas nacionais ao momento atual do país, mesmo que, assustadoramente, elas tenham, às vezes, vinte, trinta, quarenta anos ou mais.

Pois é, a música popular brasileira, desde a bossa nova ao rock, teve e tem uma importância enorme para a formação de opinião. Nosso país é uma recente democracia, que passou por períodos sombrios como a ditadura militar. Mas oriunda dela, antes, durante e depois, temos canções sensacionais sobre o cenário político-sócio-econômico de forma extremamente atual e válido para animar o dia-a-dia e fazê-lo pensar um pouco sobre nosso país, antes de escolher seus candidatos.

Iniciando os trabalhos, acima temos a imagem de Cazuza feita em holograma para um show especial que aconteceu anos atrás. Achei ela perfeita para essa matéria e é com ele que iniciamos nosso MixTape. Cazuza que nunca aceitou os “padrões” comportamentais impostos pela sociedade, viveu à sua maneira e é considerado um dos maiores compositores da música brasileira.

Depois de ser vocalista da banda Barão Vermelho, ele seguiu carreira solo e uma de suas mais famosas músicas foi “Brasil”, lançada em 88. Com versos irônicos sobre a realidade brasileira, presente num dos melhores e mais polêmicos álbuns de sua carreira, “Ideologia”, Cazuza, em parceria com George Israel, faz de “Brasil” uma referência mais que atual ao nosso país e no vídeo abaixo, ele apresenta a canção ao vivo, ao lado da cantora Gal Costa, que regravou a música em 89 para ser tema da novela “Vale Tudo”, da Rede Globo.

Na recém democracia, após anos de ditadura, muitos artistas puderam falar sem censura sobre seus pensamentos políticos. Entre eles, outro grande compositor, Renato Russo, escreveu a canção “Que País É Esse?”, em 78, mas só lançada em 87, se tornando a música mais tocada do ano. Se incluir os sucessos internacionais da época, ela foi a segunda música mais tocada do ano no país.

O brasiliense que foi vocalista da banda de punk rock, Aborto Elétrico, e depois da banda de rock “Legião Urbana”, antes de fazer carreira solo, sempre cantou essa música em seus shows, mesmo correndo o risco de ser preso pelos militares. Ela é considerada por alguns especialistas como a primeira música brasileira que segue a nomenclatura de “rock politizado”. Iniciada com as frases “Nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação…”, a música com seus 38 aninhos consegue ser um soco na cara de tanta realidade.

Ainda no rock e com muita ironia, vamos acrescentar o fator “entrelinhas” ao som do eterno, “Maluco Beleza”, Raul Seixas. Por mais “doidão” que ele pudesse parecer, Raul Santos Seixas viveu e repercutiu durante a ditadura militar, fazendo com que muitas de suas músicas fossem uma crítica à política da época, de forma com que a censura não percebesse. Diga-se de passagem, quem não escuta com atenção e não conhece muito o período de suas composições também não percebe.

Porém, o pai do rock brasileiro foi preso, torturado e exilado nos Estados Unidos na década de 70, junto ao seu parceiro de composições na época, e hoje escritor, Paulo Coelho. Mas a música escolhida para nosso Mix não é “Como Vovó Dizia”, que lhe causou a prisão, e sim “Cowboy Fora Da Lei”, composta em parceria com Cláudio Roberto e lançada em 87. Ela critica a formação arcaica e coronelista da política brasileira e como ela é passada de uma geração para outra. Quem estudou história na escola, sabe exatamente o que é. Portando crianças, estudar a história do seu país é tão importante quanto sociologia e filosofia.

Mas Paulo, só tem músicas da década de 70 e 80 baseada na ditadura? Não meus amores, vou voltar mais um pouco no tempo para vocês verem que música e política sempre andaram de forma paralela. Vamos para os anos 30, onde os sambas-canções marcam a era poderosa do rádio e de grandes cantores/compositores como o carioca Noel Rosa.

Um dos mais importantes nomes da música brasileira, principalmente para o samba, Noel lançou em 1933 (!) uma canção chamada “Onde Está a Honestidade?”, criticando diretamente a alta sociedade carioca. Para quem estudou história, sabe que nessa época o Rio de Janeiro era a capital do Brasil e que tudo, literalmente, acontecia por aqui. Homenageado em livros, shows, filmes e até estatua, Noel faz dessa canção uma questão pessoal para cada um de nós e principalmente aos políticos. Afinal, onde está a nossa honestidade?

Avançando somente 4 anos no tempo, vamos para 1937 mantendo o clima radialista dos sambas-canções. Você provavelmente não faz a menor ideia de quem é seu Vavá, seu Manduca e seu Gegê, presentes na canção, que você provavelmente não conhece, “A Menina Presidência”, composta por Nássara e Cristóvão Alencar e interpretada por Sílvio Caldas, na companhia da Orquestra Odeon.

Naquela época nunca havia se pensado em ter no poder uma mulher como presidente do país, mas a imagem feminina, ainda de que forma machista, se tornou a referência para construir a canção, tornando a identidade feminina o foco “romântico” para os três “seus”: seu Vavá (Oswaldo Aranha), seu Manduca (Armando Salles de Oliveira) e seu Gegê (Getúlio Vargas), que disputaram a presidência da republica nas eleições de 36. A música previa a vitória de seu Gegê, que de fato aconteceu, e ainda criticava a posição política da sociedade com a estrofe final da música.
 
“Agora todo mundo dá palpite,
Mas eu sei que no fim ninguém se explica.
É ligar, deixar como está,
Pra depois então se ver como é que fica.”

Viram como não foi só durante a ditadura que tínhamos músicas políticas?! O fato é que a produção em massa de canções/críticas à política nacional foi feita, sim, de 64 a 85. Entre elas tem uma que considero um marco sobre a realidade que foi vivida por mutios e, de certa forma, continua sendo vivida por nós.

“Cálice”, melhor dizendo “Cale-se”, foi composta por Chico Buarque e Gilberto Gil, após ambos voltarem de seu exílio no exterior. Ela foi feita em 73, mas só lançada somente em 78 com a interpretação de Chico e do mineiro Milton Nascimento. Expondo o governo nas entrelinhas, ela é o desejo de se livrar das desigualdades sócias e das imposições políticas da época, uma denúncia aos métodos de tortura e repressão e o retrato vivo do medo de poder se expressar. Essa canção me arrepia toda vez que escuto e já me fez chorar algumas vezes de tão poderosa.

Para terminar nosso MixTape oficialmente, chegamos a nossa sétima e última música, com a eterna e (minha) diva, Elis Regina, que gravou “O Bêbado e A Equilibrista”, em 79, composta por Aldir Blanc e João Bosco. Lançada no LP “Linha de Passe”, existem inúmeras metáforas presentes na canção, temos a relação de que os militares são as estrelas e o céu é a prisão, faz referência às viúvas de presos políticos, e usa palavras fortes do hino nacional para narrar a história da sociedade brasileira.

Ela virou o hino da campanha pela anistia irrestrita, a primeira movimentação nacional que teve sucesso desde o início da ultrajante ditadura militar. Com ela, vários manifestos ocorreram no mundo, incluindo a Conferencia Internacional da Mulher, México. Mesmo sendo regravada algumas vezes, jamais alguém conseguiu chegar ao forte tom de Elis, não só pelo contexto, mas por sua voz e presença única.
 
“Mano velho, prepare-se! Agora nós temos um hino
e quem tem um hino faz uma revolução!”
Henfil (Cartunista, Quadrinista, Jornalista e Escritor brasileiro)

Depois desse MixTape político e muito reflexivo quero deixar a minha mensagem: O segundo turno é a sua segunda chance de fazer o que acha certo pelo teu país, independente se é uma eleição para prefeito ou para presidente. Nossa nação foi construída aos trancos e barrancos e hoje vivemos na recém e frágil democracia, que verdadeiramente ninguém sabe exatamente o que é, pois normalmente somos “doutrinados” a seguir os passos de nossos pais e eles dos pais deles e assim vai. Me veio na cabeça até “Como Nossos Pais” agora.

Músicas sobre o tema não faltam e poderia fazer até mais algumas edições especiais sobre isso, mas agora não é o ponto. No domingo é dia de ter consciência que o futuro do seu país, da sua cidade, está nas suas mãos e que a política é um reflexo da grande maioria da sociedade, se ela não está bem das pernas é porque a sociedade que a escolheu também não está.
 
O voto é “secreto”, ou pelo menos era para ser, mas tem quem prefira o anular, pois é para vocês lhes digo: Votar nulo não é ser imparcial, é ser omisso. É entregar a ao vento o seu destino e os seus direitos, é não ter o poderio de reclamar, pois se você não se posicionou quando foi preciso por que deveria opinar a respeito quando se tornar necessário?
 
A política é feita pelo povo para o povo, dando à mim, vocês e muitos outros a liberdade de escolha. Escolha ter direitos, escolha não se esconder, nem se calar, escolha o candidato que representa seus ideais. E se ele depois se mostrar diferente de tudo que pregou, é você que vai tira-lo de lá. Em tempos de ódio e opressão cibernética, vou deixar uma música a mais, que nada tem a ver diretamente com política, mas com a reflexão. Eu fico por aqui e dessa vez deixo abraços apertados cheios de esperança em tempos tão estranhos, beijos molhados de amor, porque amor nunca é demais, Até semana que vem…