Este texto não contém spoilers da história do jogo

Basta finalizar as trinta horas de gameplay de “The Last of Us Part II” para constatar que ele está no topo do ranking das melhores obras audiovisuais de 2020, e lá ele estaria mesmo se o ano não contasse com um vírus que atrapalhou os lançamentos de inúmeras superproduções de Hollywood. Com certeza, filmes como “Tenet”, “007 – Sem Tempo para Morrer”, “Mulher-Maravilha 1984”, “Velozes e Furiosos 9” e “Viúva Negra” teriam um adversário de peso em termos de bilheteria e de crítica. Mas nenhum deles ainda viu a luz do dia, deixando o jogo da produtora Naughty Dog reinar sozinho. Até o momento da escrita deste texto, “The Last of Us Part II” já teve mais de 4 milhões de cópias vendidas, e conta com avaliações positivas da maioria dos veículos especializados e dos fãs.

Na verdade, não é de hoje que o cinema leva uma surra dos games quando o assunto é a qualidade das histórias e o dinheiro arrecadado. Títulos como “GTA 5” e franquias como “Call of Duty” chegam aos bilhões de receita, o que pouco acontece com produções cinematográficas. Talvez seja injusto comparar as arrecadações dos filmes com as dos games, já que o preço de um ingresso não chega aos 60 dólares necessários para se ter um lançamento de PS4 ou Xbox. Agora, levando em consideração os quesitos artísticos, parece que os games estão um pouco à frente. A prova disso aparece quando a jornada de “The Last of Us Part II” começa, e o roteiro de Neil Druckmann e Halley Wegryn Gross mostra o seu brilhantismo, calando aqueles que não consideram os games como obras de arte.

O texto de Druckmann e Gross mostram a vida de Ellie (Ashley Johnson) e Joel (Troy Baker) após os acontecimentos do primeiro jogo, lançado em 2013. Agora, os dois vivem na calmaria da comunidade de Jackson, mas o passado de atrocidades volta para suas vidas quando velhos inimigos aparecem querendo vingança. A garota – imune ao fungo que transforma as pessoas em criaturas variadas, dependendo do grau de infeção – não consegue se entender com Joel, que impediu que o grupo paramilitar Vaga-lumes a matasse para criar uma vacina. O relacionamento entre eles está desgastado e o ressentimento é aparente. Tudo piora após um evento traumático forçar a jornada de ódio de Ellie através das ruínas cheias de desafios e perigos de Seattle.

Imagem: Divulgação/Sony e Naughty Dog

Com o controle nas mãos, o jogador terá que matar inimigos humanos e infectados sem perdão. A violência é exacerbada, mas não gratuita, afinal, é questão de vida ou morte. A tensão toma conta em embates aterrorizantes quando as criaturas ou quando exércitos de inimigos tentam matar Ellie, que ainda precisa decifrar puzzles desafiadores e lutar contra os seus demônios interiores deixados pelo passado. Por isso, cada vez que um obstáculo é vencido, o sentimento de satisfação do jogador é recompensador, porém são apenas respiros frente ao objetivo maior – que é inadequado dizer qual é para evitar spoilers. A protagonista recebe alguma ajuda, seja da sua namorada Dina (Shannon Woodward) ou de seu ex-namorado Jesse (Stephen A. Chang), que são úteis em algumas batalhas, no entanto, a sua jornada é solitária na maior parte do tempo. Há ainda a inclusão de uma nova antagonista, a soldado Abby (Laura Bailey), que tem grande importância na trama. Ela também busca por vingança, e enfrentará tantos desafios quanto Ellie.

Cada um desses personagens é desenvolvido satisfatoriamente num jogo que não pretende construir heróis e vilões, e sim mostrar os atos hediondos justificados pela vingança, típicos dos seres humanos. Para isso, a Naughty Dog coloca na responsabilidade do jogador mortes e mais mortes, que trazem uma sensação de angústia e tristeza. O desfecho do jogo beira à perfeição, e faz com que tudo que foi feito até ali tenha um propósito e uma consequência. Sobra, durante os créditos finais, as lágrimas de arrependimento e remorso, como se Ellie, Joel, Abby, Dina e Jesse fizessem parte de um filme de um grande diretor.

A única diferença entre esse filme e os outros é que ele é jogável. Muitos já o jogaram e amaram, tanto que alguém teve a ideia de transformá-lo em série de TV – que será produzida pela HBO. Provavelmente será uma boa produção, contudo era desnecessário filmar com atores reais algo já tão humano, independentemente se foi captado por computadores e não por câmeras.

 

Vídeo e Imagens: Divulgação/Sony e Naughty Dog 


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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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