Uma forma de conhecer os esquecidos

“Nunca me sonharam” é um documentário que retrata a realidade do ensino médio de escolas públicas do Brasil. O longa vai além do sistema educacional, entrevista não só especialistas e profissionais da área, mas também foca em escutar os jovens que estudam, que sonham, que querem um futuro melhor. A realidade é tocante, emociona, faz com que o público reflita, e apesar de ter como público-alvo educadores, não há quem assista e não pare para pensar em como dificuldades existem, mas é possível dar e receber uma boa educação no nosso país.

O filme abre com os dizeres do artigo 205 da Constituição Federal: é um dever do Estado prezar pelo “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”. Daí em diante são diversos depoimentos de pessoas que vivenciam e estudam a ensino público do Brasil. A princípio são mostradas as dificuldades em relação a infraestrutura, localização, problemas externos que atrapalham uma rotina escolar, ausência de alguns professores na grade, a influência do meio sobre aqueles jovens, entre outros. Parece ser impossível acreditar que é possível ser alguém na vida tendo essa realidade. São 10 estados de diversas regiões do país que retratam quem são aqueles tidos como “o futuro do Brasil”.

O documentário é divido em alguns capítulos que trazem uma enxurrada de depoimentos e informações que chocam aqueles que não têm ideia de como é difícil estudar e trabalhar nesse meio. Uma aluna conta sua história, que ainda criança foi morar na casa de uma família para cuidar de uma idosa e que isso era normal na sua região. Ela não imaginava que ia estudar, afinal ela precisava ajudar sua família de alguma forma depois que o pai a abandonou e deixou sua mãe numa situação financeira precária. Um outro rapaz havia desistido de estudar porque precisava trabalhar na roça para ajudar seus pais, mas depois de receber uma carta de seus colegas e professores dizendo que sentiam a falta dele e que o mesmo deveria voltar para a escola, ele se sentiu motivado, conseguindo se formar no ensino médio.

Entre um depoimento e outro desses jovens, há aquela obrigatoriedade de ter um especialista ao longo de um documentário, para que assim haja credibilidade no trabalho final do filme. A realidade de alunos de regiões rurais, de locais com alto índice de criminalidade, de cidades com alto número de analfabetismo, entre outros, sempre vem acompanhada com a fala de um educador que não somente vive ou viveu no ambiente escolar, como também dedica sua vida a estudar a educação pública e dentro disso também existem dados reais que complementam essas entrevistas.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad-IBGE, 2015), 82% das crianças e jovens até 19 anos que estão estudando no Brasil são atendidos pela escola pública e 1,6 milhão de adolescentes de 15 a 17 anos estão fora das salas de aula. Isso prova que apenas uma pequena parcela dos estudantes tem acesso ao ensino privado. Mostrando que temos sim que dar mais atenção ao ensino público, para que ele tenha qualidade, afinal “o futuro do Brasil​” está sim lá.

Após dados chocantes e depoimentos comoventes, o documentário mostra o que deu certo na educação pública. No interior do Piauí está localizada a escola pública de maior destaque no país. Nessa mesma cidade existem muitos adultos analfabetos, e por causa da educação essa realidade está mudando. No subúrbio da cidade do Rio de Janeiro um diretor utilizou uma paixão nacional, o futebol, para mostrar a alguns alunos baderneiros que eles são capazes de fazer algo e de terem responsabilidades. Uma diretora contou que em uma semana ela perdeu mais de 10 alunos, que morreram por causa da criminalidade e atividades extracurriculares podem fazer a diferença. Um professor de matemática contou que não é necessário fazer passeios ou ir para um laboratório ensinar de uma forma diferente e atrativa, é preciso usar a imaginação e perceber que existem muitos elementos dentro de uma escola que podem ter formas geométricas e serem utilizadas como exemplos reais da matéria que está sendo dada. Um ex-aluno que ao saber que a biblioteca da sua escola ia fechar por falta de manutenção, resolveu aproveitar seu tempo livre enquanto não estava trabalhando para reformar e cuidar de um dos lugares mais importantes de um centro educacional.

Para que o longa não se torne cansativo ou monótono, muitas imagens de apoio são utilizadas, principalmente para mostrar como são as escolas, como os alunos vivem nesses ambientes e como são as cidades retratadas no documentário. Um outro recurso que trouxe um diferencial foi intercalar depoimentos de diferentes regiões, fazendo com que o sotaque dos entrevistados chamasse a atenção, dando um tom diferente a cada momento. Além disso, alguns personagens tiveram um foco maior, mostrando onde eles moram, como fazem para chegar ao local de estudo, e quem são seus familiares e como eles os apoiam nessa jornada difícil. Inclusive uma das alunas teve uma gravidez na adolescência, e para não deixar de estudar a sua filha a acompanha diariamente.

A direção é de Cacau Rhonde, que já havia feito um documentário chamado “Tarja Branca” em que mostra a importância de brincadeiras infantis na vida das crianças. Nesse seu novo trabalho ele focou na juventude de baixa renda do Brasil e teve como principal objetivo ouvir o que os jovens esperam do futuro, quais são suas opiniões sobre a vida e o mundo. O diretor investigou a fundo as condições do ensino médio nas escolas públicas brasileiras para entender porque existem tantas pessoas que abandonam a escola. Fazendo com que os estudantes fossem escutados, mostrou que eles tem voz ativa, que são atores principais de suas vidas, que sabem tomar decisões e possuem uma visão de mundo muito coerente e atual.

A maior prova de que o objetivo de Rhonde foi concretizado é o título do documentário. Não foi algo pensado por ele ou pela produção, muito menos pelos apoiadores, estudiosos, especialistas ou educadores. Em um dos depoimentos um jovem disse: “Como meus pais não foram bem-sucedidos na vida, eles também não me influenciavam, não me davam força para estudar. Achavam que quem entrava na universidade era filho de rico. Acho que eles não acreditavam que o pobre também pudesse ter conhecimento, que pudesse ser inteligente. Para eles, o máximo era terminar o ensino médio e arrumar um emprego: trabalhador de roça, vendedor, alguma coisa desse tipo. Acho que nunca me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo professor, nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar.”

“Nunca me sonharam” se enquadra num patamar de documentários que tocam na ferida dos problemas do Brasil. Não adianta tapar o sol com uma peneira e nem empurrar para debaixo do tapete. Educação faz toda a diferença, ler um livro pode mudar uma realidade difícil. Sim, o longa traz tantas fontes que é possível não absorver tudo completamente, mas algo em especial toca cada pessoa de forma diferente e assim como um aluno declarou que nunca o sonharam, um professor declarou que para estar nessa profissão você não tem que gostar de Biologia, Português, Geografia ou Física, você tem que gostar de gente. 

Crítica: Nunca me sonharam
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