7 de dezembro de 2019

Os olhos se abrem. Abrem lentamente após uma noite tranqüila. Tranqüila como sua vida, como uma brisa de verão. Seus olhos se abrem contra a claridade que passa pela janela, contra o brilho do sol que veio iluminar mais um dia. Ele reflete o brilho mágico dos olhos de um sonhador que, com seus olhos azuis, azuis como o céu, azuis como o mar, azuis como quiser imaginar, vai olhar a janela pra ver a rua e saudar seu dia. Um novo dia. Outro dia. Mais um dia.

Ao sair do quarto, seu olhar presencia o vazio do apartamento em que, com toda a sua organização, só é possível presenciar os móveis, os livros, a solidão. Não há ninguém. Não há nem uma mulher para se sentir amado. Não há nenhuma criança para soltar o sorriso frouxo. Não há nem um animal para chamar de amigo. Não há ninguém. Apenas ele. Sozinho. Com seus 25 anos. Sozinho. Com os seus 25 anos, sozinho e se perguntando: O que realmente desejo viver?

Durante o banho, a água desliza sobre seu corpo jovial que o tempo ainda não se preocupou em desfazer. Ele sente o vapor na pele. A calma emana de seu corpo e seus olhos se fecham para sentir a água deslizar pelo seu rosto, escorre pela barba por fazer e flui por entre suas linhas corporais até atingir o chão, por onde ela esvai. Vai para seu quarto e pega a primeira roupa que lhe parece interessante e a veste. Arruma-se, calça seus sapatos, pega seus materiais e sai porta a fora. Sai porta a fora inseguro. Sai porta a fora querendo. Sai porta a fora esperando algo que valesse a pena após tantos meses sem sentido. Sem sentir o vigor de viver, como há alguns anos atrás.

Dentro de seu carro uma musica toca. Não há sentido algum. Os sons perderam o valor, assim como seus belos olhos já não enxergam o que realmente é encantador pelo caminho que faz. Ao chegar ao seu destino, entra em uma sala e senta-se no fundo, próximo a parede. Se encosta e pensa. Pensa. Repensa. Pensa e repensa sobre sua vida, enquanto um homem na frente da sala passa horas falando sobre leis, teses e leis. Falando por horas. Horas essas que seus olhos azuis não vêem passar, como se estivesse estagnado no tempo. Sem ver qual o real propósito de ali estar sentado tentando dar atenção sem ter o mínimo de vontade de o fazê-lo.

Durante o intervalo sorri, cumprimenta os amigos, as amigas, conversa sobre coisas alheias. Conversa sobre a vida. Vida. A mesma vida que seus olhos vão possuem mais interesse, mas ele continua ali. Continua ali a olhar as pessoas ao redor, sem perceber os amigos, os flertes, o assunto e ainda assim sorri. Sorri como se nada estivesse acontecendo. Retoma ao assunto, faz piadas em que todos riem e que pra ele, no fundo, não faz sentido algum. Respira e se despede. Se despede e segue sozinho. Segue sozinho seu caminho. Senta-se com seu livro de leis inúteis e seu lanche, a sombra de uma bela arvore, onde pode pensar. Pensar. Em que?

Outono. Sol. Nuvens. Temperatura amena. Vento frio. As pessoas que passam por ele são apenas borrões. Uma obra abstrata. Abstração sem nexo algum. Suas leis não mais lhe servem de motivo para se viver ou fazer justiça, são abstratas. Justiça. Justiça é algo que não existe perante seus olhos. Olhos que olham sem ver. Olham sem compreender. Olham. Olhem!

Uma mulher se aproxima. Numa graciosidade regenciada pela leveza de seu andar. Pela levez de seu sorriso. É a mesma mulher de alguns meses atrás. Meses atrás, quando se conheceram. Ela tem a mesma beleza, a mesma simpatia, o mesmo garbo. Mas olhos dele já não conseguem ver mais. Ela o cumprimenta com um beijo, senta-se entre suas pernas, deita em seu peito e começa a falar sobre o dia. O dia deles. Sobre eles. Sobre o futuro. Futuro. Palavra que significa muito, tempo a se alcançar, mas que não se aplica a quem não sabe o que deseja ser hoje.

No fim do dia ele volta pra casa junto com a bela moça, de alguns meses de relacionamento, ela se acomoda como se aquele lugar já fosse um pouco dela, deita na cama e liga a televisão enquanto ele vai para o banheiro tomar outro banho, sentir a água escorrer e pensar e pensar e pensar, sem ter mais no que pensar. Há apenas o vazio, o vazio do seu corpo que seu olhar nunca alcança a alma.

A porta se abre e a moça entra no banheiro enrolada em uma tolha, ele a olha calmo e despreocupado, enquanto ela tira a o pano macio ao redor do corpo e o deixa pendurado entrando no box para acompanhá-lo em seu banho. Ela o beija sutilmente, como só existisse aquele momento, em que seus lábios se encontram, seus corpos se juntam e que a água escorre por entre ele e suas dobra, seus seios e desejos.

No entrelaçar das bocas e das pernas, o ponto crucial se da na cama onde os dois ainda um pouco úmidos continuam a fazer seus corpos se tocarem e sentir o calor da respiração sendo eles agora apenas um, e ninguém mais, nem mesmo a solidão está ali presente, pelo menos pra ela. Mesmo depois de ser amado por alguém, a vida continua a mesma e ele não percebe quem está ao seu lado, agora dormindo como um anjo, seus olhos azuis não vêem mais a paixão de antes e só consegue ver de forma deturpada que todos os eu te amos foram ditos em vão.

Levanta-se da cama vai tomar uma água, respira. Volta pra cama e não consegue dormir. Levanta-se de novo vai para a sala e tentar ler um livro, mas não consegue, seus olhos azuis estão mergulhados em um mar onde não há ilhas nem continentes para se nadar até lá e procurar pro vida. Volta pra cama olha aquele anjo e continua sem ter sono, sem ter paz, sem ter certeza do que quer. Aos poucos o cansaço toma conta de seu corpo e acaba pegando no sono, para mais uma noite tranqüila, apenas para uma noite tranqüila, nada mais.

Quando a profundeza do azul dos seus olhos se abrem pra ver e tentar viver esse novo dia, vê a bela moça se arrumando para sair e ter mais um dia da sua rotina, e antes que ela saia, uma vontade o toma e seus olhos se enchem de lagrimas e ele com um tom de voz fraco não responde ao bom dia da moça, apenas diz “preciso de um tempo”. Ela olha pra ele sem entender, enquanto os olhos azuis não conseguem encontrar os castanhos dela e dizer face a face. Sem olho no olho, sem coragem.

E ele diz, mais uma vez “preciso de um tempo”. Ela começa a chorar, não insiste, nem pensa duas vezes, pega suas coisas e sai. Ele continua com os olhos fixados no chão inundados de lagrimas de incerteza, inundados de lagrimas de duvidas, inundado de lagrimas do vazio que continua ali dentro dele.  Não sabe se o que fez foi certo da mesma forma que não sabe o que quer da vida ou o que a vida quer dele, da mesma forma que não sabe se quer continuar vivendo daquela forma ou de forma alguma.

Ele se levanta e vai olhar-se no espelho. Quando olha vê apenas um homem, de olhos azuis, um homem, que não sabe o que fazer consigo, um homem a quem acha que não deve ser amado por não saber o que é amar, um homem que um dia disse a si que seria feliz faria o que lhe desse vontade, não importasse o que os outros pensassem, seria apenas ele e a felicidade.

Hoje ele olhou no espelho e continuou vendo ele, ele e a solidão. Esse homem que queria se sentir vivo mesmo que fosse morrer em seguida, ele decide que se for morrer deve ser de felicidade, de amor, não por vazio como está agora. Seu nome não representa muita coisa agora, é apenas mais um João. O João alguém, que hoje é um João ninguém. Ele abre a torneira, e abaixa-se para lavar o rosto. Com o rosto ainda molhado ele abre seus olhos azuis, se olha mais uma vez e decide ser mais que um João, seja o João que for.

Nota do Autor

Esse conto que acabou de ler, faz parte da série “7/Entrelinhas” que comecei escrever aos 18 anos. Os quatro primeiros contos foram desenvolvidos no mesmo ano e os três últimos ganharam forma dois anos mais tarde. Seis deles são sobre pessoas de diferentes idades e classes sociais, em algum momento específico de suas vidas, enquanto o sétimo e ultimo é a respeito de um lugar que entrelaça as histórias dos personagens apresentados nos anteriores.

A narrativa descritiva, que flui sobre a construção de tais personas e seus “particulares” momentos, seguem uma estrutura intimista para a futura exposição de algo maior, que venho preparando aos poucos. Ao voltar à esse projeto, me deparei com a enorme vontade de compartilha-la com o maior números de pessoas e, por isso, resolvi publica-los na internet, através da coluna “Literando” da Woo! Magazine.

Espero que tenham aproveitado a leitura e tenham sido tocados por esse breve texto, da mesmo maneira que me senti afetado por ele quando o escrevi. A cada dois meses estarei lançando a continuação, não linear, dos contos para a apreciação de todos. O próximo, “Verde Esperança”, estará disponível no mês de maio.

De olhos bem abertos, veja o mundo de outra maneira.

Part.I: Vestido Vermelho
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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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