Crítica: The Discovery

Um filme sobre a moralidade do pós-vida a la – em partes – Saramago. É esse o tema do filme “The Discovery”, dirigido e escrito por Charlie McDowell e co-escrito por Justin Lader.

Sua história narra a vida de Will Harbor (Jason Segel) e Isla (Rooney Mara) um ano após ser cientificamente provado ao mundo que a alma existe e ela vai a algum lugar, seguindo daí uma onda de suicídios.

O filme mostra em palavras sua estética já em seu início, Isla diz: “estamos fora de temporada” (off season). O outono marca a estação/ temporada – mais precisamente season – para cores sóbrias e uma luz branca exacerbante. Todo o figurino segue a regra de tais questões, dando a atmosfera necessária para introduzir aos olhos a questão principal do filme: “viver está fora de moda”. Isto é, na ampla tradução da palavra season: temporada.

Logo no início nada parece abalar o cientista que descobriu tal fato. A verdade acima de tudo, ainda que muitas pessoas não aguentem tal verdade. Ele não é responsável pelas vidas alheias. De fato, é apenas o mensageiro. O culpado seria a religião ou mesmo a incerteza e o sofrimento do mundo físico. Bastou a certeza da alma para que as pessoas pulassem no abismo do desconhecido. Era o fator para deduzir que as suas fés estavam certas, apesar de que o destino ainda não estivesse provado. Apenas se havia mostrado que íamos a algum lugar. Qual destino? Esse é o mistério que ataca o cientista em seu próximo passo.

A questão do pós-vida não só mostra que pessoas não apenas vivem para o ultra-mundo como Nietzsche se cansa de dizer em grande parte da sua obra, mas que negariam a própria vida – não só em não a vivendo em seu máximo – ao se matarem. Seria esse o máximo da baixeza humana: a fuga de si. No fundo, o que corrompe as questões de se viver a vida é pensar que há um destino para a humanidade, para o indivíduo, para a alma. A vida, ainda que com a alma e um pós-mundo, é a vida física e não-física.

Isla é a protagonista como pouco ou nunca se vê na televisão e cinema. Netflix acerta muito em não ter, em certa medida, que dar satisfação ao público. Longe de alguém embelezado ou sexualizado – assim como no caso de Will – temos diante de nós personagens bem reais e marcados por tragédias pessoais. São pessoas com histórias, não abstratas; com cicatrizes, não sonhadoras. O pé no chão e – principalmente – a sombra da descoberta paira sobre seus rostos. Carregam a morte em si e lá, neste vazio, se encontram.

A direção é bem interessante, apesar de não se propor a inovar em algumas questões estéticas. Ressalvas, no entanto, para a atuação que em sua simplicidade alcança o público. O mesmo vale para a cenografia, máquinas de alguma maneira antigas e sem LEDs ou luzes dão continuidade à sobriedade e ao ar soturno do filme.

Inesperadamente, “The Discovery” ainda nos mostra mais de nós mesmos no fim de sua história e Netflix continua acertando em seus filmes originais. Mais do que mostrar uma questão para a humanidade, mostra as questões que escondemos dentro de nós mesmos e, saindo do padrão de que não se discute sobre religião, futebol e política, põe outra questão tão mais tabu que pouco é discutida ou trazida como opção: a morte; e vale a pena com a certeza da continuidade?

Por Paulo Abe

Crítica: The Discovery
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